v­el con­cur­so que não se afas­ta­va de nós, senão à força de pan­cadas, que os na ires davam sem piedade, para nos abrirem cam­in­ho. Chegá­mos, fi­nal­mente, às por­tas de Cale­cut, onde en­trá­mos em out­ro tem­plo, semel­hante ao primeiro, e do qual breve­mente torná­mos a sair para nos di­ri­gir­mos aos paços de el-​rei. 

  «Aqui o tro­pel dos cu­riosos tin­ha subido a tal pon­to, que, seguin­do com muito cus­to por uma rua adi­ante, fo­mos obri­ga­dos a en­trar em uma casa, por não po­der­mos já romper avante. Foi a es­ta casa que veio um fi­dal­go prin­ci­pal com mais sol­da­dos, e segui­do de trom­be­tas e tam­bores para acom­pan­harem até os paços o capitão-​mor: os home­ns de ar­mas, que subi­am a mais de dois mil, fiz­er­am en­tão arredar o po­vo, e nos abri­ram cam­in­ho, pos­to que com muito tra­bal­ho, até a mora­da de el-​rei, onde chegá­mos a ho­ras em que o Sol ia já mui próx­imo de seu oca­so. 

  «Passá­mos um largo ter­reiro, e cruzá­mos qua­tro aposen­tos, antes de chegar àquele em que el-​rei es­ta­va: à por­ta do ter­reiro tin­ham vin­do os cortesãos es­per­ar Vas­co da Gama, e à úl­ti­ma por­ta o sumo sac­er­dote; mas o tro­pel dos pop­ulares, que tin­ha rompi­do até ali, nos aper­ta­va por to­dos os la­dos, e à força de cu­ti­ladas dos home­ns de ar­mas mui­ta daque­la gente foi feri­da, e al­guns mor­tos.

  «Chegá­mos, en­fim, à pre­sença do rei de Cale­cut, ou samor­im, co­mo os seus lh­es chamam: es­ta­va re­costa­do em uma es­pé­cie de estra­do cober­to de panos riquís­si­mos: da di­re­ita tin­ha um grande va­so de ouro, donde um ofi­cial de sua casa lhe da­va umas fol­has de cer­ta er­va a que os mouros chamam atam­bor, e os nat­urais bé­tel, se­gun­do de­pois soube­mos, as quais o rei mas­ca­va con­tin­ua­mente, cus­pin­do-​as de­pois em out­ro va­so de ouro, que lhe fi­ca­va à es­quer­da. O capitão-​mor lo­go que en­trou fez reverên­cia ao samor­im, que lhe ace­nou com a mão que se chegasse para ele, e a nós man­dou-​nos as­sen­tar em uns de­graus que havia ao re­dor da casa. Aí nos man­dou dar fi­gos e uma cas­ta de melões, a que chamam ja­cas, que nós, en­cal­ma­dos do cam­in­ho, comem­os sem cer­imó­nia, rindo muito o samor­im de nos­sos gestos e meneios. En­tão or­de­nou este a Vas­co da Gama, por via de um in­tér­prete mouro, que trans­mi­tia as suas palavras a Fer­não Mar­tins, que desse a em­baix­ada aos fi­dal­gos da Corte: a es­ta or­dem re­spon­deu o capitão-​mor que um em­baix­ador do rei de Por­tu­gal só trata­va com os príncipes em par­tic­ular, e não com os seus vas­sa­los. Sabi­da es­ta re­spos­ta por el-​rei, acedeu aos de­se­jos de Vas­co da Gama; e man­dan­do-​o en­trar em out­ro aposen­to com Fer­não Mar­tins e o in­tér­prete mouro, se levan­tou do estra­do, em que es­ta­va, e foi encer­rar-​se com ele. 

  -Ago­ra, sen­hor Fer­não Mar­tins -disse Ál­varo Vel­ho, pon­do so­bre os joel­hos o manuscrito que tin­ha nas mãos -, mel­hor podereis vós nar­rar o que se pas­sou aí, do que eu só de leve apon­tei o que vós de­pois me con­tastes. 

  Fer­não Mar­tins ime­di­ata­mente começou a falar em tom grave, e por es­ta maneira: 

  -Tan­to que el-​rei chegou, acom­pan­hado pe­lo vel­ho sac­er­dote, que nos saíra a re­ce­ber à por­ta da sala, e por out­ros dois no­bres, que pare­ci­am grandes pri­va­dos seus, Vas­co da Gama lhe nar­rou sucin­ta­mente quan­tas ten­ta­ti­vas os reis de Por­tu­gal tin­ham feito para de­sco­brir a Ín­dia: que ora um que reina­va, por nome D. Manuel. o man­dara com aque­las três naus prosseguir o começa­do pro­jec­to, com pe­na de morte, se voltasse sem con­cluir a em­pre­sa: que mais lhe or­denara que, em chegan­do a en­con­trar o grande rei do Ori­ente, lh