e as­se­gurasse que o rei de Por­tu­gal que­ria ser seu ir­mão e ami­go, e que, para pro­va dis­to, ele Vas­co da Gama en­tre­garia a Sua Al­teza duas car­tas que, de el-​rei seu sen­hor, para ele trazia. O samor­im re­spon­deu a tu­do is­to que ele aceita­va a amizade de el-​rei de Por­tu­gal, e que na fro­ta por­tugue­sa man­daria tam­bém em­baix­adores a D. Manuel. De­pois de praticar em várias cousas de pou­ca mon­ta, per­gun­tou en­fim, a Vas­co da Gama, se que­ria ir pousar com al­guns dos mer­cadores mouros que havia em Cale­cut, ou em casa de al­gum dos nat­urais, e re­spon­den­do o capitão que de­se­ja­va ficar só com os seus, o de­spediu, as­se­gu­ran­do-​lhe que se­ria sat­is­feito.

  Fer­não Mar­tins acabou de falar; e Ál­varo Vel­ho, pe­gan­do no manuscrito, con­tin­uou out­ra vez a sua leitu­ra. 

  «En­quan­to o capitão es­teve a sós com el-​rei, os seus min­istros, e os in­tér­pretes, guiaram-​nos para uma es­pé­cie de varan­da; era já noite cer­ra­da; e lo­go que ele veio ter connosco, par­ti­mos ime­di­ata­mente com os ofi­ci­ais que de­vi­am con­duzir-​nos à nos­sa pou­sa­da. 

  «Quan­do saí­mos do paço o céu pare­cia des­faz­er-​se em tor­rentes de chu­va: as ruas es­tavam con­ver­tidas em rios; mas, ape­sar da es­curidão e da chu­va, o po­vo nos seguia em tu­mul­to, ap­in­hado, co­mo se fos­se à ho­ra do meio-​dia, de­baixo de um céu purís­si­mo. Repas­sa­dos de água, cam­in­há­mos muito tem­po sem­pre ao la­do de Vas­co da Gama, lev­ado em co­los de home­ns. Cansa­do do lon­go cam­in­ho, ele se queixou ao feitor de el-​rei, que o acom­pan­ha­va, de que fos­se tão longe agasal­há-​lo, por noite tão tor­men­tosa. Era o feitor um mouro; e ven­do que Vas­co da Gama es­ta­va grande­mente coléri­co, o con­duz­iu a sua casa, aonde lhe disse man­daria vir um cav­alo em que mais co­moda­mente pudesse ir ao aposen­to, que el-​rei para nós des­ti­nara. 

  «Chegou com efeito o cav­alo, mas sem os necessários ar­reios para nele se poder mon­tar: to­mou is­to o capitão por afronta, e cheio de de­speito, con­tin­uou a cam­in­har a pé até chegar à pou­sa­da. Aí es­tavam já al­guns dos nos­sos, que tin­ham trazi­do dos navios os pre­sentes des­ti­na­dos para o samor­im, e tu­do o de que carecíamos para en­quan­to residísse­mos naque­la cidade. 

  «Os pre­sentes que lev­áva­mos de­vi­am ser ex­am­ina­dos pe­lo feitor e pe­lo cat­ual. antes de el-​rei os re­ce­ber; vier­am pois no dia seguinte os dois para os verem. Este pre­sente, po­bre na ver­dade, foi matéria de es­cárnio para aque­les ofi­ci­ais, cos­tu­ma­dos às grossas peitas dos mouros: os seus de­spre­zos au­men­taram o des­gos­to de Vas­co da Gama, que, soltan­do al­gu­mas palavras ásperas, declarou que, uma vez que el-​rei não quisesse aque­les dons, po­bres co­mo er­am, se iria de­spedir dele, e voltaria out­ra vez para os seus navios .

  «Com este reca­do se foi o cat­ual, prom­etendo voltar breve; mas de­balde es­perá­mos por ele to­do o dia, chegou e pas­sou a noite, sem mais nos tornar a apare­cer. 

  IV. As traições

  «Es­perá­mos de­balde pe­los ofi­ci­ais de el-​rei, no dia an­tecedente; mas na man­hã da quar­ta-​feira voltaram dizen­do a Vas­co da Gama que o samor­im nos re­ce­be­ria naque­la man­hã. Par­ti­mos; e ao chegar ao paço, as de­scon­fi­anças, que começáramos a ter na véspera, mais avul­taram en­tão: muitos na ires ar­ma­dos es­tavam re­unidos no ter­reiro da en­tra­da, e es­pal­ha­dos pe­los aposen­tos: guiaram-​nos por uma por­ta cer­ra­da, que só pas­sadas qua­tro ho­ras se abriu: ali es­perá­mos im­pa­cientes, até que el-​rei man­dou que en­trasse o em­baix­ador de Por­tu­gal; mas acom­pan­hado só por dois dos seus. O es­crivão Dio­go