morte noutra vi­agem e dessa vez em ter­ra firme.

  Cu­riosa­mente, não se en­con­tra uma úni­ca refer­ên­cia a es­ta per­son­agem no diário do Pon­ta de Sagres, de tal mo­do que nos pode­mos ho­je per­gun­tar se ela não terá si­do ape­nas uma som­bra per­di­da a sul­car o oceano. Tam­bém não a ve­mos nas fo­tos e nos filmes da vi­agem, só ago­ra nos apercebe­mos dis­so. Fo­ra do iate sim: a Asahi-​Pen­tax do frade fixou-​a no cais a de­spedir-​se dos ami­gos mas uma vez a bor­do re­sum­iu-​a a sinais de ausên­cia. Al­gures, um tan­to des­fo­ca­do, aparece um braço a ace­nar jun­to ao mas­tro grande do iate, por trás do skip­per, do mon­ge e do ar­mador de Viana num in­stan­tâ­neo da larga­da, um braço, diz-​se, que se­ria dela, Na­ia. Na ver­dade, porquê dela e não do mar­in­heiro In­ácio que tam­bém não es­tá pre­sente na fo­tografia? Por out­ro la­do, no filme aparece um roupão ver­mel­ho es­ten­di­do no con­vés; que era dela, es­tá mais que prova­do; que va­mos reen­con­trar num out­ro plano, aber­to ao com­pri­do nu­ma cadeira de lona ou pen­dura­do na por­ta da cab­ine co­mo se fos­se o vul­to do cor­po dela deix­ado à pres­sa para trás. E há uns ócu­los de sol e um maço de Gi­tanes es­que­ci­dos nal­gum re­tra­to que são out­ros restos da pre­sença des­ta dona. An­ote­mo-​los co­mo sinais du­ma figu­ra que a ob­jec­ti­va não con­seguiu apreen­der por in­teiro, en­can­dea­da pela au­tono­mia que vin­ha dessa mul­her. Um roupão ver­mel­ho, uns ócu­los de sol, um aceno solto no ar: frag­men­tos de pes­soa, denún­cias. 

  Ape­sar dis­so, as fo­tos e o filme que o benediti­no de Singev­er­ga legou à pos­teri­dade são "prov­iden­cial­mente es­clare­ce­do­ras" con­forme sub­lin­ha Mon­tezu­ma na já referi­da Co­mu­ni­cação e, co­mo tal, con­stituem matéria de crédi­to para quais­quer in­ves­ti­gações so­bre a il­ha de Sa­tanás. A muitos pare­cerão de so­brex­agero as di­fi­cul­dades que os cro­nistas afir­mam ter en­con­tra­do nesse tra­bal­ho, pois não só o diário de frei Gonça­lo é pon­tu­al e de grande clareza na nar­ração do De­sco­bri­men­to co­mo, graças ao Al­tís­si­mo, es­tão ain­da vivos e disponíveis quase to­dos os que o par­tic­iparam. Atente-​se porém nos silên­cios e nas im­pre­cisões, nos sub­lin­hados de som­bra ou nas con­tradições que ocor­rem no con­fron­to dos pare­ceres de ca­da um de­les e ter­emos co­mo legí­ti­mos os reparos que os eru­di­tos apon­tam. Em par­tic­ular, as declarações de Na­ia Valdez e as do re­li­gioso benediti­no são de al­gum mo­do enig­máti­cas. So­brepõem-​se sem se to­car e ajus­tam-​se di­vergin­do ou ig­no­ran­do-​se. Nem por es­crito nem em filme, nem em qual­quer fo­tografia pode­mos ver jun­tas tais per­son­agens, já o sabe­mos -e to­davia são as im­agens do re­al e os lança­men­tos do diário que nos dão a mar­cha quo­tid­iana que as con­duz­iu à no­va il­ha. Ce­nas de tem­pes­tade, ce­nas de be­nesse; ce­nas de faina e de con­vívio, In­ácio a dar es­co­ta às ve­las ou, em sor­riso largo, a mostrar à câ­mara o tacho do al­moço a fumegar; Ál­varo Vaz ao ra­diotele­fone ou o li­cen­ci­ado Viana a jog­ar xadrez com al­guém que se en­con­tra fo­ra da fo­to (Na­ia?); Gonça­lo à pon­ta da proa, em qui­mono de ju­do­ca e de binócu­lo apon­ta­do ao in­fini­to. O azul atlân­ti­co. A luz. O fio da es­puma. Mais al­gu­mas im­agens e a ob­jec­ti­va mu­da de cenário e fo­ca uma man­cha es­cu­ra à flor da cor­rente. Um man­to enorme, a pla­nar.

  Surgiu-​lh­es a barlaven­to na pas­sagem do meio dia e o skip­per Ál­varo Vaz cor­reu a manobrar o leme para se aprox­imar do acha­do. Qual­quer coisa em vi­agem, enorme de fac­to e ca­da vez maior e mais conc­re­