ta na transparên­cia em que vo­ga­va, aqui­lo era um mon­stro à deri­va, pare­ceu-​lh­es. E to­dos aten­tos puser­am-​se à bor­da e vi­ram.

  Vi­ram, e doc­umen­taram em filme, uma ra­ia gi­gante ou ja­man­ta, as­sim chama­da, de uns cin­co a seis met­ros de com­pri­do por oito ou nove de largu­ra a pairar na cor­rente. Es­ta­va mor­ta. Com cabeça de chifres moles e ol­hos bran­cos, ar­ras­ta­va a cau­da de es­porões com que chicoteara tan­tos mares. Já não ade­ja­va o man­to com a tene­brosa lentidão da ma­jes­tade com que se deslo­ca­va antiga­mente. Ia à desven­tu­ra co­mo uma men­sagem de maus avi­sos, as­sim a teri­am ol­ha­do os do iate, uma men­sagem ne­gra; e com esse pressen­ti­men­to a fil­mou o frade. Daí a pouco, no ras­to dela, começou a pas­sar pe­lo Pon­ta de Sagres uma ex­ten­sa toal­ha de peix­es mor­tos a cam­in­ho do anoite­cer. 

  CUMPRE-​SE A MEN­SAGEM. DE­POIS DELA O MAR

  ROMPERÁ EM CHAMAS, NÃO TAR­DA MUITO

  E na ver­dade, pas­sadas que foram cer­ca de qua­tro mil­has de al­gas e de cadáveres de peix­es à tona, de­pararam ao de­spon­tar da madru­ga­da com um ace­nar de labaredas na lin­ha do hor­izonte. Ao mes­mo tem­po chegavam até eles es­ter­tores sec­os, abafa­dos, e quan­to mais avançavam mais os ou­vi­am crescer em es­tron­dos de abalar o mun­do e mais iradas se lev­an­tavam as chamas que saíam do oceano, pro­jectan­do pe­dras e lamas in­can­des­centes pe­los ares. Era a sep­aração en­tre águas e águas de que dá con­ta o sagra­do livro do Gé­ne­sis. E em temor e deslum­bra­men­to o frade nave­gador pôs-​se a fil­mar to­da aque­la rev­elação que a Providên­cia lh­es es­ta­va a con­ced­er, o des­man­te­lar das pro­fun­dezas sub­mer­sas, as ex­plosões que ras­gavam a sec­re­ta lóg­ica da Or­bis Ocean­ica, o en­grossar das nu­vens em clarões en­sanguen­ta­dos, tu­do is­so, Sen­hor, tu­do is­so, des­man­do e clam­or. E disse Deus: ajun­tem-​se as águas num lu­gar e apareça a porção se­ca. E as­sim foi. Di­ante do frade e dos com­pan­heiros, subi­am às al­turas rochas e lavas chame­jantes que, de­spen­han­do-​se de­pois no mar, ar­refe­ci­am e se trans­for­mavam nu­ma ex­ten­sa mas­sa en­dure­ci­da e bor­de­ja­da de areia . E chamou Deus a es­sa porção Ter­ra. E eles il­ha. A for­mação do jardim de Éden? 

  De pron­to, Ál­varo Vaz e João de Viana ten­taram co­mu­nicar em HF com as pos­síveis es­tações marí­ti­mas que lh­es dessem ex­pli­cação daqui­lo que os seus ol­hos pres­en­ci­avam, mas foram mal ou­vi­dos e sem re­spos­ta.

  Porque, co­mo vier­am a en­ten­der muito mais tarde, a il­ha àquela al­tura es­ta­va ain­da co­mo que em seg­re­do do plan­eta, era um começo de ter­ra em par­to de fo­go e ag­onia. As­sim, se Deus dá a For­tu­na a quem a sabe med­itar, cumpria-​lh­es es­per­ar com lu­cidez pe­lo fe­cho do Des­ti­no e ter in­ten­to. Es­per­aram, pois. Vele­jan­do a vários ru­mos, ago­ra à boli­na, ago­ra com ven­to na popa ou de través, puser­am-​se a torn­ear aque­la tur­bulên­cia a mar­cha re­tar­da­da e a dis­tân­cia con­ve­niente, as­sistin­do ao sis­mo' e ao fo­go a abrirem uma feri­da no oceano, uma feri­da que sendo blas­fémia era tam­bém re­denção por se faz­er es­paço firme para a primeira pe­ga­da dum hu­mano. Es­tavam a teste­munhar, tin­ham es­sa con­sciên­cia, o nasci­men­to dum pon­to no­vo do ma­pa. Por en­quan­to uma lar­va de rocha es­cu­ra, a crescer e a res­pi­rar em re­pux­os de va­por lança­dos às nu­vens, mas em breve, na fase adul­ta, uma il­ha que, se ago­ra já con­ta­va uns lar­gos quilómet­ros de ex­ten­são, quan­do chegasse ao es­ta­do per­feito atin­giria quase o do­bro dessa es­ti­ma­ti­va.

  Na pre­sença daque­le es­pec­tácu­lo re