 cri­ar plan­tas des­ti­nadas a dar som­bra e nu­trição, além dos an­imais povoadores para sus­ten­to e com­pan­hia de quem ali se es­ta­bele­cesse. Co­mo é de razão, aci­ma de tu­do trari­am água, a água era-​lh­es essen­cial en­quan­to as chu­vas não chegassem àquele no­vo ter­ritório e se acu­mu­lassem em re­gatos e dessem vi­da às se­mentes; e quan­do as­sim fos­se as se­mentes mul­ti­plicar-​se-​iam an­imadas por es­sa benção, e chamari­am a elas tan­to os roe­dores e os in­sec­tos co­mo as aves; e as aves, com o col­ori­do dos seus voos e do seu can­to, trari­am ale­gria à ter­ra e deste mo­do de tu­do re­sul­taria a es­sên­cia e o es­trume que são os dois cristais donde nasce o sal da vi­da.

  A is­to se chama­va, disse João de Viana, fab­ricar um mun­do por con­ta própria a par­tir du­ma rocha sem al­ma. Mas mes­mo re­duzi­da a pe­dra mor­ta, aque­la de­scober­ta rep­re­sen­ta­va um val­or es­tratégi­co que im­por­ta­va des­de já acaute­lar, palavras de Ál­varo Vaz em con­sel­ho dos nave­gantes do iate, um património e um in­ves­ti­men­to de civ­iliza­ção, palavras out­ra vez do ar­mador de Viana, e cer­tos que es­tavam do re­con­hec­imen­to in­ter­na­cional que lh­es iria ser con­feri­do, to­dos os pre­sentes tin­ham acor­da­do em deixar a ín­su­la novís­si­ma à guar­da do frei Gonça­lo Soares de Singev­er­ga e de Na­ia Gar­cia Valdez co­mo pes­soas teste­munhais de de­sco­bri­men­to e ocu­pação en­quan­to o Pon­ta de Sagres se deslo­ca­va a Lis­boa para bus­car não só as com­pe­tentes li­cenças e abona­men­tos ofi­ci­ais co­mo os meios hu­manos e téc­ni­cos in­dis­pen­sáveis à em­pre­sa que pre­tendi­am es­ta­bele­cer. Mais con­cluíram ser de urgên­cia a con­tratação de serviços de elec­tri­ci­dade e tele­co­mu­ni­cações e bem as­sim o povoa­men­to ime­di­ato da il­ha. Este, por sug­estão de frei Gonça­lo, se­ria con­fi­ado em grande parte às levas de em­igrantes guineens­es que an­davam à div­ina por Lis­boa sem tra­bal­ho e sem fé, fugi­dos à guer­ra colo­nial. Não pas­savam, po­bres de­les, de maometanos longín­qu­os que aceitari­am de coração aber­to a con­ver­são a Cristo Re­den­tor para re­começarem a vi­da num mun­do no­vo co­mo aque­le. 

  Na­ia Valdez: Mun­do no­vo? 

  Na re­al­idade aqui­lo era na­da, pe­dra de na­da, dizia ela com o ol­har. Tin­ham-​na deix­ado nu­ma solidão de rocha cer­ca­da de água e à som­bra de duas ár­vores pin­tadas num pano de vela; acres­cen­taram (ou ela acres­cen­tara) um leitor de cas­settes com músi­ca con­tínua e a im­agem da Virgem de Nep­tuno ao la­do du­ma pe­dra fumegante que lhe da­va o ar de san­ta em al­tar de in­cen­so, de enx­ofre, esse cheiro a vul­cão ain­da não tin­ha de­sa­pare­ci­do -e pron­to, ali es­ta­va ela no na­da. Tu­do à sua vol­ta era na­da. 

  Só que ao pôr do Sol ou com as som­bras do lu­ar aque­le uni­ver­so começa­va a ser ocu­pa­do por fig­uras bár­baras tal­hadas no roche­do. Car­ran­cas prim­iti­vas, enormes, um de­ser­to povoa­do de es­tá­tuas dis­per­sas por en­tre pe­na­chos de fu­mo sul­furoso a que ela chama­va Sa­tanas­es porque tin­ham nasci­do do fo­go que as ex­pul­sara dos in­fer­nos mais pro­fun­dos. Al­gu­mas pare­ci­am leões-​mar­in­hos, out­ras aves mon­stras em sono fal­so. To­das elas Sa­tanas­es em difer­entes fig­urações. E num aman­hecer de cin­zas, ao passear-​se pe­lo meio daque­las más­caras, ela de­sco­briu um gi­gante com cabeça de peixe e peito revesti­do de es­ca­mas. Parou e aguardou com cu­riosi­dade.

  Na­ia Valdez: Es­tou a son­har. Tu­do a son­har, bem sei. 

  De pé e apoia­do nu­ma al­ga se­ca com o feitio dum tri­dente, o gi­gante de cabeça de peixe, em vez de mãos, tin­h