a dois mol­hos de ten­tácu­los co­mo os dos polvos a es­cor­rerem-​lhe dos braços. A to­do o com­pri­men­to do dor­so de­scia-​lhe uma bar­batana on­du­la­da co­mo se fos­se de ca­be­los en­dure­ci­dos e en­tre as per­nas es­camosas pen­dia-​lhe um volu­moso fa­lo. Uma ser triste, tristér­ri­mo, con­tou ela num fim de tarde ao mon­ge-​ir­mão que a acom­pan­ha­va em exílio. Com semel­hante as­pec­to, disse en­tão, aque­la criatu­ra só po­dia ser o Nep­tuno ou um híbri­do do Nep­tuno. E apon­tan­do para a im­agem de Virgem a em­balar o peixe de pra­ta: De ago­ra em di­ante, ir­mão, só con­si­go ver es­ta san­ta co­mo a virgem que con­ce­beu de um deus pagão e que mes­mo as­sim con­tin­uou virgem. 

  Na­ia Valdez: Palavras, palavras, tu­do son­ho, tu­do son­ho. 

  Ve­jamos, ela fala­va ao ir­mão-​frade du­ma virgem que con­ce­bera em peca­do de carne e que virgem per­maneceu, e is­so não se re­sum­ia a palavras, is­so, dizia, era muito mais so­bre­nat­ural do que a con­ceição imac­ula­da que nos en­si­na a San­ta Madre Igre­ja. Tão so­bre­nat­ural, pela car­ga da here­sia, que Deus tin­ha cas­ti­ga­do aque­la virgem dan­do-​lhe um fil­ho em for­ma de peixe. O mon­ge ou­via-​a num silên­cio do­loroso. Não faça ca­so, padre, cor­tou ela, com um en­col­her de om­bros, estes roche­dos à noite metem-​me me­do.

  Não faça ca­so, padre. Não faça ca­so, ir­mão. Só ali, no pur­gatório du­ma il­ha ain­da quente das con­vul­sões do par­to e ain­da in­cer­ta se tri­un­faria vi­va, só ali, coisa sem sen­ti­do, é que ela trata­va o frade daque­le mo­do. 

  Padre, ir­mão. Coisa es­túp­ida, de fac­to. An­da­va ca­da um para seu la­do, ele quase sem­pre na es­tre­ita pra­ia preenchi­da pelas areias cus­pi­das do fun­do do mar, ela em biquíni, a fu­mar Gi­tanes e a ou­vir a músi­ca dum leitor de cas­setes à som­bra de duas ár­vores de cenário. Era nesse en­quadra­men­to que o frade a en­con­tra­va ca­da dia mais mu­da­da, ca­da dia mais in­es­per­ada nos co­men­tários que fazia por tu­do e por coisa nen­hu­ma. Ir­mão, es­ta­mos no Gé­ne­sis, disse ela uma vez. Re­duzi­dos ao tu­do-​na­da. já reparou? Só não an­damos nus porque não temos a som­bra de Deus. 

  Porque es­ta­mos em peca­do. re­spon­deu-​lhe ele. 

  Deus num de­ser­to de es­tá­tuas ro­chosas e com pe­na­chos de fu­mo pe­lo meio co­mo re­pux­os de jardim. Ela ol­ha­va à vol­ta e dizia: Num mun­do onde não há vi­da. o úni­co remé­dio é pen­sar em Deus. Ver­dade. ir­mão. Ver­dade. padre. Quan­to mais per­to da morte. mais me­do de Deus. 

  Não. Quan­to mais per­to da morte mais per­to de Deus. disse o frade. 

  Ali. en­tre os in­fini­tos do céu e do mar. ela lem­brou-​se en­tão de lhe pedir que a con­fes­sasse. O padre-​ir­mão fez uma pausa talvez de sur­pre­sa. não se sabe. de­pois ajoel­hou na rocha e jun­tou as mãos em Con­fi­te­or, Deo om­nipo­tente, bea­ta Mari­ae Vir­gi­ni et om­ni­um sanc­to­rum.

  Na­ia: Em la­tim, que es­tran­ho. 

  Mas já ela, em voz al­ta e no meio do oceano, se con­fes­sa­va pecado­ra por há muito ter an­da­do arredia da palavra do Sen­hor, ausente até dEle, padre, tão ausente e tão cul­pa­da que se per­gun­ta­va se não teria ido parar àquela il­ha em ex­pi­ação das fal­tas que lhe pe­savam na al­ma, no­jos, padre, ofen­sas sem re­mis­são, padre, maus pen­sa­men­tos, cor­rupções do cor­po mais do es­píri­to, e ten­do chega­do onde chegou sus­pendeu-​se. Sus­pendeu-​se, pron­to. Di­ga, or­de­nou o frade pas­sa­dos in­stantes, e fi­cou de cabeça baixa, à es­pera. Peca­dos da carne, disse ela en­tão. Fo­das.

  Silên­cio. O sol a baixar, a baixar, e ela num ol­har de silên­cio para lá do con­fes­sor e da il­ha que se co­b