Title: Viagem para Delos e Myconos “Um Adeus aos Deuses”
Author: Ruben A.
CreationDate: Thu Jul 30 11:58:00 BST 2009
ModificationDate: Wed Mar 25 09:00:00 GMT 1970
Genre: 
Description: 
  Vi­agem para De­los e My­conos “Um Adeus aos Deuses”

  Ruben A.

  A pub­li­cação de Vi­agem para De­los e My­conos, ex­traí­da do livro Um Adeus aos Deuses, foi gen­til­mente au­tor­iza­da por Nico­lau An­dresen Leitão.

  © 1997, Nico­lau An­dresen Leitão e Par­que EX­PO 98. S.A.

  IS­BN 972-8127-93-6

  Lis­boa, Jun­ho de 1997

  Ver­são para dis­pos­itivos móveis: 

  2009, In­sti­tu­to Camões, I.P.

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  VI­AGEM PAEA DE­LOS

  E MY­CONOS

  Capitão des­ta vi­da que é uma in­co­erên­cia navego à proa de Uliss­es -sul­can­do azul ve­jo a es­puma di­latar naus vin­cadas no ras­tro pelas trav­es­sias herói­cas do mar Egeu -deito pan­das as ve­las dos meus maiores e da gávea al­ti­va saú­do este po­vo de nave­gadores vagabun­dos -pe­queno marul­har es­pal­ha ao delírio o vi­ajar in­cóg­ni­to da min­ha de­scober­ta. Um ser poderoso e imor­tal ou­ve as vozes mar­in­has a tro­carem cal­maria in­fini­ta ao lon­go de uma pro­fun­di­dade ain­da mais azul. Da Gré­cia me apodero no seu maior cam­po de glória, recor­dan­do, à raiz sus­pen­sa do meu mas­tro, as falas con­tínuas do es­paço si­len­cioso que vai do azul mediter­râni­co ao ce­les­tial de Zeus. 

  Es­ten­di­do a bom­bor­do, co­mo quem per­scru­ta a brisa do meio-​dia, en­cho-​me de rame­las de ar que colo­cam nos pul­mões da ân­sia a dor feri­da das águas. Per­co-​me de il­has peladas pela bru­tal­idade de um sol aferi­do pe­lo gume do fo­go, seus nomes não recor­do para re­speitar in­tac­ta a riqueza da sua solidão. 

  Ve­jo meus promon­tórios em out­ras costas, do­bra­dos ca­bos agrestes e abrindo mun­dos de imen­sid­ões vir­gens à avidez dos as­trolábios. Trib­uto pe­sa­do de dois ir­mãos que bus­cam no mar o el­emen­to nat­ural da sua história e o con­tar de to­da a tragé­dia -raças tão dís­pares que en­con­traram semel­hanças no ar­risca­do das tem­pes­tades. Er­go as pe­sadas gaiv­otas da certeza da­da pela sua dis­tân­cia eq­ui­tati­va e, miú­das no aprox­imar da vista, es­tam­pam-​se grandiosas no fun­do da pais­agem, com­pan­heiras si­len­ciosas da imen­sa solidão que me abar­ca. Odes marí­ti­mas, Odis­seias, Po­emas Ibéri­cos, lendas de vi­agens nu­ma bus­ca ilim­ita­da de per­feições em son­hos im­per­feitos to­do o bom­bor­do vê ter­ra da Áti­ca es­ti­ra­da ain­da nos recortes li­ma­dos pe­lo lam­ber goloso das marés, para de re­pente a vi­gia de quar­to trib­utar às col­unas dóri­cas do cabo Súnion a lem­brança dos padrões es­pal­ha­dos cautelosa­mente pela es­per­ança de aos poucos ir além mar.

  A es­ti­bor­do es­tende-​se o mar sem fim, o mar tor­men­toso de Uliss­es, a recor­dação in­fini­ta do abis­mo de­se­ja­do -cam­in­ha em mim a pais­agem imac­ula­da de uma fé hu­mana, cheia de des­ti­nos míti­cos, forte do in­domáv­el ar­ro­jo na aven­tu­ra. Ru­mo sem­pre no en­can­ta­men­to dos tem­plos que mi­ra­gens de ver­dade er­guem em fan­tasias ao re­flexo da tona pratea­da. Recor­to no hor­izonte sil­hue­tas de semideuses e semibi­chos, vozes an­dantes de nin­fas, cav­al­os-​mar­in­hos de sen­tir an­fíbio, medusas mes­tras sem cor­tiço, Acrópoles onde vel­hos do Reste­lo er­am orácu­los a falar, avi­sos à nave­gação desme­di­da, ver­sos es­critos na memória per­pé­tua de ol­hos mer­gul­ha­dos no mar. Ah! To­do este ilim­ita­do de saudades definin­do ao de­cres­cente do sol o meu sin­cero verídi­co de viv­er. Barlaven­tos e so­taven­tos ou­vin­do de Posí­don o con­tar das histórias trági­co-​marí­ti­mas que sécu­los de out­ro­ra 