nos co­mo lendo uma con­ste­lação dis­traí­da so­bre a Ter­ra e da gávea al­ta o pi­lo­to ru­ma à bar­ra saudan­do a Sen­ho­ra de tan­ta crença. Quero chegar. É uma fome ilim­ita­da de apetite. Chegar a um des­ti­no em vão, des­ti­no de dias que recor­dará anos sem tem­po no per­di­do da sen­si­bil­idade. Quero chegar para sofr­er, ma­so­quis­mo ter­rív­el de quem sente pul­sações rit­madas de acabar. Fala-​me uma voz pre­coce, im­berbe, in­génua, uma voz de mim que foi out­ro­ra, voz de bus­ca que cam­in­ha de der­radeiro sofri­men­to em con­tín­uo aci­dente de dor. Quero an­co­rar em My­conos para à luz da noite ver o bran­co de casas ar­ru­madas co­mo prateleiras em de­sal­in­ho. É ago­ra que tu­do me recor­da Uliss­es -a gente boa que fala um grego que se en­tende já nos ol­hos, o porqueiro que veio ver a família, os an­imais e os fru­tos que no con­vés man­ifes­tam uma ex­istên­cia precária.

  A noite queima-​se de es­sên­cias, arde de imag­inação e o nave­gador solitário fala co­mum a uma lua bizanti­na em quar­to cres­cente. Meu des­ti­no er­ra­do ten­ta evi­tar os leixões da en­tra­da e recor­tar o resto da meia lua que My­conos alu­mi­ado me ofer­ece à abor­dagem. Sen­sação de tran­quil­idade recor­da um vácuo passea­do na memória e sem ex­agero ou fan­ta­sia fixo-​me in­de­strutív­el ao meu jú­bi­lo re­nun­ci­ado de tris­teza. Abro ao meu ar­remes­so um amor in­dul­gente de cer­to dia, e con­to con­va­les­cente a tradução do seu tex­to in­te­gral. Ouço os ca­bos pren­derem-​me ao cais e transpon­ho o fos­so de um no­vo aca­so na min­ha vi­da.

  Quero De­los - a il­ha sagra­da. É aí que os deuses me es­per­am no seu con­cílio ecuméni­co de re­li­giosi­dade.

  DE­LOS -De caíque lev­ado pela vela do de­se­jo en­tro à com­pan­hia de um vel­ho lobo do mar - Lui­gio Guarouni - no seu domínio que me há-​de levar à il­ha sagra­da -a il­ha tão ex­traordinária que fez os ate­niens­es proibirem que aí se nascesse ou mor­resse! Saio a bar­ra de My­conos, vou à proa sul­can­do a forte nor­ta­da para no que­brar das águas ir ou­vin­do Posí­don con­tar as aven­turas dos que mais ale­gres o visi­tam. Vou no an­ti­quar dos sécu­los, vou na dis­tân­cia de um azul que se apodera do caíque dan­do-​lhe ape­nas a con­ver­sa de umas bran­cas es­pumas no vog­ar a nascente - é uma vi­agem fe­liz, para­da de sen­ti­men­tos, cheia da de­scober­ta ávi­da que pressen­tia ao lon­go de il­has in­cólumes à ex­istên­cia hu­mana. 

  De­los es­tá por de­trás do hor­izonte, fi­ca num nin­ho de il­has que a de­fen­dem do pro­fano, não se deixa abor­dar em tonela­gens, só os caíques me­di­dos em igual aos anti­gos triremes po­dem to­car-​lhe em es­cala. Ho­je não vou co­mo pere­gri­no nem co­mo artista, o meu sen­tir é ape­nas o de ver, a ex­istên­cia de tan­tos mil­hões de seres que nu­ma an­tigu­idade per­di­da nos bar­al­hos nor­mais da en­cader­nação cronológ­ica quis­er­am ter uma il­ha in­de­fe­sa a definição re­li­giosa de to­do o mun­do.

  Em De­los há de ime­di­ato a ex­istên­cia vi­va de duas cidades sep­aradas, di­vi­di­das no ab­so­lu­to que abis­ma os deuses dos home­ns. A De­los sagra­da tran­si­ta-​se em três es­ti­los -ar­caico, clás­si­co e he­lenís­ti­co, não me es­que­cen­do de muitos vestí­gios micéni­cos deix­ados pela es­quadra de Agamém­non no seu vi­ajar para Tróia. Home­ro deve aqui ter es­ta­do, Uliss­es aparece por to­da a parte, tan­to a tomar ban­ho na cidade pro­fana, co­mo a ser con­duzi­do pe­los deuses aos tem­plos dos Maiores, so­bre­tu­do de Apo­lo, Sen­hor Ab­so­lu­to de to­da a con­dução dos des­ti­nos do mun­do grego. A história de De­los es­tá con­ta­da, a sua to­pografia bem de­se