n­ha­da, os livros já es­pi­ol­haram os fun­dos do la­go sagra­do, guarda­do para to­da uma eternidade pe­los leões de már­more que ficaram a de­fend­er, no ru­gir do silên­cio, a mín­ima pro­fanação fei­ta à di­vin­dade. O már­more bran­co de Nax­os em que os leões es­tão definidos, o seu taman­ho bran­co as­sente da ter­ra, o en­fileirar de fe­ro­ci­dade, mete me­do a quem não sabe praticar os sac­ri­fí­cios vota­dos ao cul­to de Zeus, pai di­vi­no de Apo­lo e Ártemis. São leões de uma no­breza tal que sim­bolizam o que de mais re­speitoso ex­is­tia na fau­na ar­caica. Es­tão ali co­mo reis, evi­tan­do o aprox­imar de qual­quer homem que ain­da tente ex­prim­ir-​se co­mo an­imal -seu reino es­tá fix­ado na ter­ra, nos lim­ites do re­speito, para que ninguém se torne ho­mo ho­mi­ni lu­pus. São os Leões de De­los um dos re­speitos mais bem cumpri­dos ao de­se­jo de Apo­lo.

  Ol­hei-​os do meu es­táti­co. Ol­hei na certeza de es­tar a to­car o már­more bran­co, pu­rifi­ca­do de con­sciên­cia. Não sabia quem era mais im­por­tante, se o már­more em que eles se es­culpi­am se a figu­ra que rep­re­sen­tavam. Uma lu­ta de ru­gir cá por den­tro, um falar pre­so na min­ha jaula a meia ração, um sol a pino na lom­ba­da dos que ain­da não sabi­am da sua fama de reis da sel­va, di­alo­ga­va comi­go. -Os meus leões até es­ta da­ta er­am to­dos de cir­co e de jardim zo­ológi­co -foi a primeira vez na vi­da que vi leões ao nat­ural, per­pet­ua­dos no ge­nial es­co­pro do artista, lib­er­tos das grades do en­jaular ou dos calores da sel­va. Leões com a me­di­da no­bre de uma raça de cabeça pi­ca­da em di­recção às al­turas, de cor­po es­guio pela elegân­cia das for­mas. Leões ami­gos dos deuses, feitos már­more para na il­ha de­ser­ta de De­los reinarem a seu la­do, co­mo guardas avança­dos. 

  A cidade sagra­da de De­los fi­ca nu­ma planí­cie de pe­quenos so­cal­cos mu­ra­da dos silên­cios próprios das re­spostas dos deuses e cheia des­ta lição da­da aos home­ns: é pre­ciso primeiro sac­ri­ficar para de­pois poder co­mu­nicar, ao con­trário da tendên­cia dos tem­pos mod­er­nos, da vã promes­sa cumpri­da de­pois de ben­efi­ci­ado pe­lo des­ti­no. Mais uma lição dos Gre­gos, al­heios no es­píri­to à efémera promes­sa, in­digna do homem que cumpre ape­nas por ter acha­do. O sac­ri­fí­cio dos Gre­gos é a ten­ta­ti­va no­bre de en­trar no âm­bito dos deuses, de lh­es dar pureza antes de lh­es pedir con­vívio. A promes­sa para se cumprir no de­pois é a de­scul­pa fá­cil dos fra­cos, o ul­tra­je à di­vin­dade. Em De­los aprende-​se a re­li­giosi­dade que move o homem ao en­con­tro do in­fini­to que o Cri­ador lhe deu para fim de imor­tal­idade. Aprende-​se a achar Deus nos in­ter­mé­dios difí­ceis dos tem­plos que de­scen­dem e as­cen­dem a Ele. 

  É a mais com­ple­ta e pro­fun­da im­pressão que me aprox­ima de Deus -a cidade sagra­da -e o sol in­un­dan­do de in­ex­plicáv­el o mis­tério da Cri­ação. Quan­tos vier­am a De­los pa­gar o sac­ri­fí­cio de irem a Deus, neste oá­sis do cos­mos que durou tan­tos sécu­los!? Par­co trib­uto o meu, mas grande per­ante a con­tínua bus­ca que aflige meus cam­in­hos no dia-​a-​dia do amor que ten­to co­mu­nicar a ver­dades de há muito pro­fanadas. Vou de tem­plo em tem­plo, de dor em dor, pisan­do os sac­ri­fí­cios de tan­tos que mais pi­amente aqui se recol­her­am em holo­caus­to das suas ofer­en­das. Po­bre lusía­da coita­do! Que pode mais faz­er do que trans­for­mar-​se em transe­unte de pe­gadas ao la­do das falas bem ou­vi­das de tan­tos imor­tais? 

  Sen­to-​me na imen­sid­ão. Pen­so o que não pen­so. Avanço em mim sem provo­car o mín­imo mur­múrio. Os cír­cu­los à min­ha vol­ta 