tor­nam-​se garan­tia de uma angús­tia, a doçu­ra imóv­el do ar res­pi­ra-​se cheia de in­cen­so, sub­tileza sem raciocínio, ar­repio à dis­tân­cia las­ti­ma­da pe­lo ví­cio, in­ter­mináv­el dis­posição de súbito ex­al­ada de músi­ca. Poros per­me­áveis, de­se­qui­líbrio co­movente de um adeus que per­du­ra. Sem pressá­gios ou leis, miro a sen­sação de in­fini­to, de um in­ter­mináv­el em to­dos os sen­ti­dos. Apodera-​se ago­ra, no já ime­di­ato, a visão es­tran­ha de que me trans­porto à ter­ra da promis­são. É a lou­cu­ra de um sol nos con­fins do episódi­co. 

  Al­moço no úni­co tem­plo gas­tronómi­co da il­ha, vis­ito o museu e ve­jo a mão per­fei­ta de Deus Apo­lo, a mão mais boni­ta que fi­cou de to­da aque­la es­tá­tua mon­umen­tal, de que o tor­so ain­da re­cebe o sol num dos so­cal­cos da cidade sagra­da. Sin­to a sen­sação es­pan­tosa de, na il­ha, a es­ta ho­ra da tarde só o guar­da e eu a es­tar­mos a cumpri­men­tar. Ele en­tu­si­as­ma-​se com o meu fare­jar, apre­cia quem re­con­hece os deuses e pas­seia en­tre o lim­bo que di­vide a cidade sagra­da da pro­fana. Es­ta er­gue aos mor­tais os seus nin­hos po­bres e os restos de palá­cios dos vi­ajantes mais ri­cos, deslum­bro-​me a ver as casas cheias de mo­saicos onde uma medusa fixa aten­ta­mente os ol­hos ressus­ci­tan­do en­tre cav­al­os al­ados e um Dion­iso poderoso. Ao la­do en­fileiram os bair­ros económi­cos dess­es tem­pos, até um ho­tel para 45 hós­pedes ex­is­tia mes­mo ao pé de um teatro que al­ber­ga­va a comé­dia e a tragé­dia de sete mil pere­gri­nos. Ruas es­tre­itas, com­pri­das pas­sagens sem­pre em ân­gu­lo rec­to num domínio em que a cur­va ain­da não era necessária. Mais palmil­ha­va, mais sen­tia o pe­so vin­do lá do al­to onde os Egíp­cios con­struíram a sua cidade sagra­da, para não longe os Sírios tam­bém ir­manarem os de­se­jos da pro­tecção im­plo­ra­da em cidade mu­ra­da a seu fa­vor. Ca­da po­vo tin­ha o seu tem­plo de ven­er­ação em De­los, cap­ital das di­vin­dades, cen­tro das Cí­clades e do mun­do que no Ori­ente vin­ha en­con­trar nos deuses oci­den­tais o al­imen­to mais avança­do às suas con­fis­sões ín­ti­mas.

  Salto na História, per­cor­ro anos de ale­gria e sofri­men­to, pas­so ago­ra ao he­lenís­ti­co ri­co dos sen­hores ro­manos que deixaram a De­los o luxo dos seus aposen­tos -mas o que é is­to com­para­do com o tor­so de Apo­lo in­sta­la­do co­mo dono do cos­mos e pos­suidor daque­la mão que se gravou para sem­pre na min­ha memória? Volto ao tor­so de Apo­lo, é a mais per­fei­ta ruí­na de De­los, a úni­ca que pede meças à tran­quil­idade dos leões in­sta­la­dos imor­tal­mente no cam­in­ho sagra­do. A cidade pro­fana pro­lon­ga-​se, é um de mais deix­ado em vi­da. Es­tou-​me a vac­ilar, um me­do ter­rív­el de que o guar­da me mostre qual­quer coisa pare­ci­da com o anti­go bor­del -apetece-​me deixar De­los -ir ao meu caíque e fechar à chave o seg­re­do não desven­da­do dos deuses. A Eles a il­ha per­tence e serão Eles que lá fi­carão, para na memória dos home­ns recor­darem os mo­men­tos em que o in­fini­to é con­vite à par­tic­ipação div­ina.

  A bor­do, na baía minús­cu­la ol­ho para aqui­lo tu­do co­mo quem teve a grande certeza de passear-​se um dia pela eternidade. Deito-​me no con­vés, ve­jo o Sol a in­cli­nar-​se so­bre De­los e os deuses a saírem dos tem­plos para re­solverem qual o des­ti­no de quem os veio vis­itar de trib­uto pu­rifi­ca­do pe­lo sac­ri­fí­cio buro­cráti­co de viv­er.

  Ve­jo o capitão pre­ocu­pa­do com a vela no caíque afas­ta­do de ter­ra e ol­han­do o Sol ab­sorvi­do de azul. de­speço-​me dos deuses ace­nan­do à visão úni­ca de quem part