e roí­do de saudades o mo­men­to ex­ac­to da mi­ragem de home­ns a trans­for­marem-​se em deuses e crescerem ao in­fini­to saí­dos da ter­ra e di­rigin­do-​se ao Sol para não mais serem per­cep­tíveis. Par­to ar­rom­ba­do de saudades -umas saudades de es­pe­cia­rias longín­quas. umas saudades da il­ha dos Amores dos deuses. De súbito os deuses tor­nam-​se in­can­des­centes -deixaram de es­tar fin­ca­dos na ter­ra para se iden­ti­fi­carem com os el­emen­tos. São ago­ra ab­sorvi­dos pe­lo Deus-​Sol, in­fla­ma­dos na as­cen­são que se perde pre­cip­ita­da nu­ma es­guia per­pen­dic­ular­idade. O Sol es­fu­ma o hu­mano de Apo­lo no di­vi­no de Zeus.

  Pren­do-​me à liber­dade er­guen­do no pen­sa­men­to o pairar de uma vivên­cia mís­ti­ca que me sul­ca cá por den­tro -De­los vai-​se afa­stan­do, os deuses tor­nam-​se cativos da sua imor­tal­idade, sou quem per­maneço na min­ha il­ha flu­tu­ante, no­va Cí­clade para vener­ar o sagra­do daque­le mau­soléu de tem­plos. Suce­do-​me em im­agens de ter­ra ca­da vez mais pe­que­nas e mais e mais in­ten­sas no seu es­ti­rar subido até ao Sol. De­los, quan­do iso­la­da pe­los hu­manos ao fim do seu dia estafa­do de ser mostra­da a tan­tos ím­pios, deve subir ao céu para o des­can­so eter­no do merec­imen­to. E o mi­la­gre de De­los é de­sa­pare­cer, sub­mer­gir-​se dos home­ns, ir ao Olimpo tagare­lar as ven­ta­nias dos en­con­tros bru­tais de tan­ta e tan­ta bagatela re­li­giosa. A il­ha sagra­da sig­nifi­ca para mim a mais con­suma­da re­spos­ta com que os Gre­gos quis­er­am as­pi­rar à con­vivên­cia dos deuses -de­pois do Orácu­lo de Delfos voz unís­sona a sair das en­tran­has telúri­cas, a sen­sação de Delfos é com­ple­ta­da pe­lo cul­to iso­la­do de deuses habi­tan­do a parte que na ter­ra lh­es per­tence. 

  Acabaram-​se os fan­tas­mas, as al­mas do out­ro mun­do, as bruxas com mesas de pé de ga­lo, as mez­in­has, os cu­ran­deiros, os di­abos à sol­ta, as cren­dices da su­per­stição, em mim ago­ra a fala é di­rec­ta, sem es­pec­tros. En­fren­to as qua­tro es­tações moldan­do-​as à ale­gria dos deuses e a min­ha con­fis­são será aque­la do homem que sente que Deus é Quem merece ser o úni­co dono ab­so­lu­to do Mun­do.

  Pre­cisa­va des­ta bar­rela div­ina, os meus ban­hos mís­ti­cos têm sofri­do de um ex­ces­so de litur­gia. Hor­ror­iza -me pen­sar que Deus tem si­do afas­ta­do dos home­ns. E é es­ta Gré­cia sagra­da que faz ul­tra­pas­sar a crença para se en­raizar o pen­sa­men­to na certeza de que o di­alog­ar, quer se­ja pe­los orácu­los ou pe­los San­tos, con­tin­ua. 

  MY­CONOS -As histórias con­tam-​se no cais -a il­ha vive para quem vem. Chegar é ser re­ce­bido de braços aber­tos co­mo ten­do há pouco par­tido -a lín­gua que se fala não im­por­ta, uma pes­soa sen­ta-​se à mesa e aparece lo­go quem ofer­ece uma ro­da de resina ou de anis mer­gul­ha­do em ge­lo, talvez mes­mo es­te­jam sen­ta­dos os que só bebem água gela­da, co­pos cheios a acom­pan­har o café tur­co, mela­do, doce de azedar o pal­adar. A vi­da é ali no cais que es­tá e a il­ha vem à baía ver quem chega. Quan­do não há vis­itantes a il­ha des­cansa, al­guns tra­bal­ham e out­ros falam. Na Gré­cia es­tá sem­pre tu­do a falar, percebe-​se que gostam de falar e não diz­er na­da, falam, falam. To­da a gente fala e bebe qual­quer coisa, fu­ma, ofer­ece, dá. 

  Quan­do chegam as car­radas, ou mel­hor as bar­cadas de tur­is­tas, só se vêem os tur­is­tas, os de My­conos vão a cor­rer abrir as lo­jas, pôr o es­ten­da I dos tear­es co­la­do às janelas, às por­tas e es­cadas -as céle­bres es­cadas de My­conos que são to­das ex­te­ri­ores. Vivem en­tão os de My­conos den­tro de casa e