 con­tin­uam a ofer­ecer café, água, anis, cigar­ros a to­do aque­le que lá en­tra, mes­mo que não com­pre na­da, que não perce­ba patavina do ar­ti­go. Os de My­conos dão-​se de amizade, de ime­di­ato, sem rodeios, sem pro­to­co­lo. O úni­co pro­to­co­lo da il­ha é não haver pro­to­co­los! Tu­do é sim­ples, cor­ri­do fal­ado, acol­he­dor em grande es­cala. Há aqui em ab­so­lu­to uma grande fe­li­ci­dade de viv­er, de con­tar, em tro­ca de na­da, de não lig­ar im­portân­cia à vi­da. Tu­do é muito sim­ples, tu­do se faz, tu­do se ar­ran­ja. Um par de calças e uma camiso­la en­comen­da­dos às sete da tarde no céle­bre Joseph - o Jupi­en de Proust - es­tá pron­to cer­to, à me­di­da e per­feito, ali às onze e um quar­to da man­hã do dia seguinte e en­tregue no ho­tel para maior con­for­to da pro­va fi­nal.

  My­conos é uma il­ha sem horário, es­tá sem­pre aber­ta a tu­do, fecha­da só quan­do os tur­is­tas em­bar­cam para out­ros ru­mos. Nes­sa al­tura fecham-​se as casas e na cor­renteza de to­do o cais -que é aveni­da, rua, praça, mon­umen­to, san­tuário -a il­ha con­tin­ua a falar, a cri­ar es­ti­lo, e das ruas es­tre­itís­si­mas e em labir­in­tos sai a fau­na mis­tu­ra­da a três sex­os -os dois da il­ha e um de im­por­tação re­cente, poliglota, her­mafrodi­ta e que de ju­ba por tosquiar se ade­mana aos gru­pos em bou­tiques fan­tasques.

  Mis­turo-​me no bran­co ca­ia­do das ruas as primeiras ruas ca­iadas e ca­iadas to­das as se­manas de lés a lés, ruas e casas vesti­das de bran­co, tu­do com de­graus bran­cos nu­ma apo­teose em que o col­ori­do dos habi­tantes so­bres­sai co­mo faúl­ha em forno de cal. O que me in­ter­es­sa em My­conos é a re­al­idade visív­el da fé nas suas trezen­tas e sessen­ta igre­jas e capelas, número mag­no para qua­tro mil habi­tantes. Num largo bran­co, pe­queno, frente ao mar, com o úni­co plá­tano da il­ha, há cin­co capelas com uma igre­ja no cen­to, tu­do aten­to para bran­quear a al­ma. Pas­seio mais, ruas de uma Alfama imac­ula­da, mais es­tre­itas no ca­da vez, a um de frente, em bicha, sem cruza­men­tos. Chega no­va bar­ca­da de tur­is­tas e salpi­cam mo­men­tanea­mente a il­ha de en­car­na­dos, amare­los, azuis, pre­tos, calças listradas, sacos mul­ti­col­ores. E o bran­co re­siste, é forte, cromáti­co. Con­tin­uo es­táti­co, in­difer­ente aos que chegam ou partem.

  Joseph aparece. Acabou de cor­tar mais meia dúzia de calças. Aparece e sen­ta-​se na pon­ta da baía, na primeira taber­na com mesas e cadeiras frente ao semicír­cu­lo do cais. Sen­ta-​se e lo­go uma ro­da de ami­gos faz com­pan­hia, man­da ofer­ecer, -ofer­ece anis com ge­lo, café tur­co, ofer­ece o que se quis­er tomar. Man­da vir um pra­to com várias tiras de ros­tbeef com batatas fritas a faz­erem de gi­ras­sol. Um pra­to, uma fa­ca e cin­co gar­fos. O grande Joseph -Jupi­en faz o corte da carne e ca­da um de gar­fo em pun­ho vai tiran­do uma las­ca. A qual­quer ho­ra do dia, tan­to faz, Joseph começa nu­ma pon­ta do cais, às qua­tro ho­ras já es­tá a meio, e ao fim da tarde aca­ba no out­ro ex­tremo, sem­pre nu­ma mesa grande rec­hea­da de ami­gos e es­tran­hos -mel­hor, os es­tran­hos tam­bém são os ami­gos em My­conos. Ami­gos sem­pre difer­entes, de no­va col­hei­ta, de out­ros mun­dos. Ali, sen­ta­do co­mo so­ba da il­ha -Joseph, o úni­co católi­co de My­conos, afir­ma que é ele quem tem a chave da igre­ja -ele é tu­do -padre, sac­ristão, con­fes­sor, san­to missal e a água ben­ta. E é ali, em mi­no­ria de um, que a re­ligião católi­ca tem o seu de­fen­sor mais acér­ri­mo, o úni­co ser da il­ha que pede ao padre de Tinos para três a qua­tro vezes por ano vir diz­er mis­sa à sua capela.

  Joseph man­da vir out­ra ro­da­da 