e de gar­fo em pun­ho to­dos metem o be­del­ho no pra­to. Começam a chegar os tur­is­tas, são seis da tarde, Joseph es­tá na pon­ta da il­ha por onde eles en­tram. Primeiro ol­ha à dis­tân­cia, de­pois fixa-​se nas calças e de ol­ho caí­do por uma leve dis­tracção nem as persegue. «Calças de ter­ceira classe» -di­go eu. -«Nem de quar­ta», re­sponde-​me com ar de ligeira con­sti­pação. Pas­sam mais tur­is­tas e Joseph con­tin­ua a ol­har para as calças com in­ter­esse clíni­co, repara no corte da raba­da, «mal feitas», «pou­ca al­tura de an­ca», «es­tre­itas no rabo». Joseph co­man­da o an­da­men­to da il­ha, to­dos o ado­ram, to­dos vêm ter com ele. A casa de Joseph é um museu de ded­icatórias de to­dos os cos­tureiros de Paris, de to­das as mul­heres céle­bres do uni­ver­so. E ele é um homem sim­ples, o úni­co na il­ha de My­conos que usa co­lete. Se al­guém pas­sa de calças mais bem feitas, Jupi­en lev­an­ta-​se da cadeira, ol­ha aten­to, e de­va­gar vai à sua lo­ja. É ele que tem a chave no bol­so e a bicha de pes­soas es­pera o cu­ran­deiro, o homem que in­difer­ente à cele­bri­dade, cor­ta as mel­hores calças do mun­do. Na lo­ja man­da lo­go vir café para to­dos, dá cigar­ros, faz preços para voltar, cor­ta lo­go, risca e começa a tra­bal­har, de­pois en­tre­ga o resto às cos­tureiras. Ter­mi­na­da a op­er­ação, as en­fer­meiras que se di­vir­tam com os restos dos clientes -ele na­da mais faz. Vol­ta à baía. Sen­ta-​se. Man­da vir no­va ro­da­da de anis, café e um pra­to de tiras de per­na de carneiro e batatas fritas. Out­ra vez muitos gar­fos e ele co­man­da no­va­mente. Faz o corte, risca os bo­ca­dos e ofer­ece o gar­fo para ca­da um provar o orig­inal. 

  É uma il­ha em que ca­da homem tem uma história e ca­da casa é bran­ca e só bran­ca. Por­tuguês de paleio, em carne e os­so, que quisesse provar o sa­bor de My­conos, só eu ain­da tin­ha por lá paira­do! Novos ami­gos sen­tam-​se à mesa: gre­gos que vi­ajaram oceanos e pas­saram por Lis­boa. Con­tam histórias em várias lín­guas. São famílias so­bre famílias, pri­mos to­dos uns dos out­ros -o capitão Lui­gio Guarouni que me tin­ha lev­ado a De­los era sogro de um per­son­agem de Uliss­es -um homen­zarrão que es­ta­va no cais quan­do eu cheguei. Es­ta­va a re­ce­ber malas e car­regar fru­ta. De as­pec­to bru­tal. De­pois en­con­trei um tipo pare­ci­do, sen­ta­do nu­ma mesa da baía, ol­hei, pas­sei e con­tin­uei. A seguir en­trei nu­ma bou­tique e apare­ceu-​me esse homem já trans­for­ma­do em capitão de bar­co, pro­pri­etário do mel­hor caíque que le­va a De­los. Ca­da homem naque­la ter­ra é tu­do -car­regador, capitão de bar­co, ami­go, e nes­ta palavra vai a mel­hor gratidão aos Gre­gos -eles são ami­gos, acol­he­do­res, ben­vin­dos. Per­di­dos em ar­quipéla­gos sen­tem-​se re­con­for­ta­dos pe­los bens de out­ras gentes que os vêm vis­itar. 

  Na il­ha há três táx­is e uma camione­ta há várias pra­ias, há ven­to e moin­hos bran­cos, há capelin­has por to­da a parte. Dá a im­pressão de que em cer­to mo­men­to da vi­da deste po­vo de My­conos lo­go que nascia al­guém pa­gavam de trib­uto uma capelin­ha, er­guiam a Deus o seu agradec­imen­to. 

  Vou tomar ban­ho a uma pra­ia de­fen­di­da do ven­to e a água é cristali­na e pu­ra, quase fria, sem on­das. Es­ten­do-​me na pra­ia e oiço De­bussy, a mais com­ple­ta im­agem-​som que sen­ti na vi­da -oiço o pi­ano de muitos prelú­dios a rit­marem-​se em es­calas difer­entes. Vêm quase si­len­ciosos, falam em fras­es muito cur­tas, apare­cem e de­sa­pare­cem, vêem-​se no des­do­brar de sons minús­cu­los trazi­dos por uma on­da que se recol­he ca­da vez que se abre. É uma pra­ia de­ser­ta onde um bar­co lem­bra a