tregue e lo­go a cab­ine pronta para me acol­her até ao Pireu. Sim­ples, sem com­pli­cações, sem na­da, tu­do bran­co. Pos­so diz­er que aban­donei a il­ha co­mo mais pode­ria de­se­jar, mas co­mo nun­ca havia pen­sa­do. 

  O breu imer­gia-​me no azul, caldea­do na im­agem bran­ca do balouçar via calças e mais calças a serem cor­tadas para os deuses e a afog­arem os úl­ti­mos sons que De­bussy lança­va num S.O.S. à min­ha procu­ra.

  E Petrus? É um con­to que per­tence a My­conos e irei con­tar.

  Quem é Petrus? 

  In­difer­ente ao ruí­do, passe­an­do-​se nu­ma qui­etude onde o cor­po acom­pan­ha um queixo es­guio, Petrus é o rei de My­conos. So­lene, ao mes­mo tem­po da­do, a sua cor-​de-​rosa re­flecte nas pare­des ca­iadas das casas e no azul tran­qui­lo da baía a im­agem ver­dadeira de um pel­icano.

  Os home­ns, as mesas, os bar­cos, as lo­jas, a ge­ografia da il­ha, os pescadores de pe­queno cur­so, quem en­tra ou sai do por­to, o peixe cober­to de sangue e já sem re­mor­sos, as cadeiras de­sal­in­hadas na es­plana­da, os sen­ti­men­tos que cruzam out­ros sen­ti­men­tos, dis­traem a vi­da do ser mais solitário da il­ha. 

  Er­am cin­co. O Verão pas­sara-​se naque­les la­gos da Fin­lân­dia, per­to das ter­ras da Lapó­nia onde o Sol não se dei­ta, na com­pan­hia de ban­dos de ami­gos que na pesca se en­tretêm para tirar a so­bre­vivên­cia. Ao sinal de que Agos­to já anun­cia In­ver­no, os pel­icanos lev­an­taram voo ru­mo ao Egip­to para hi­bernarem jun­to dos faraós e do calor. Ao so­brevoarem My­conos, os cin­co de­sce­ram para com­boiarem um de­les que, de bi­co par­tido, ne­ces­si­ta­va cuida­dos. Ficaram. Sen­ti­ram-​se acar­in­hados, mas três não re­si­sti­ram à nos­tal­gia e mor­reram. O quar­to -o de bi­co par­tido -foi cuida­dosa­mente trata­do pe­lo den­tista da il­ha que lhe colo­cou um bi­co de plás­ti­co. Fi­cou co­mo no­vo. O médi­co, cirurgião, den­tista, vet­er­inário, pro­pri­etário destas múlti­plas funções, con­seguiu resta­bele­cer as­sim cor­agem no ami­go de Petrus. Er­am ain­da dois. No en­tan­to foi de pou­ca du­ra tão grande car­in­ho. Triste, mal acli­mata­do, com di­fi­cul­dade de en­golir o peixe que vin­ha na babugem, este pel­icano anón­imo mor­reu disc­re­ta­mente, talvez mes­mo para deixar Petrus rei da il­ha.

  Fi­cou Petrus -rei. 

  Petrus vivia sat­is­feito. O com­er apare­cia-​lhe abun­dante -pesca­va na baía e re­ce­bia as dá­di­vas dos súb­di­tos que sen­ti­am obri­gação de o al­imen­tar. Aos poucos afeiçoara-​se e os habi­tantes de My­conos re­tribuíam es­sa sim­pa­tia abri­gan­do-​o ao calor da lareira nos meses de In­ver­no. En­tão, de casa em casa, us­an­do mais as patas do que as asas, Petrus vis­ita­va os seus vas­sa­los na cal­ma de um silên­cio bem an­imal. Aguar­da­va a Pri­mav­era para voar. Es­col­hia as pe­que­nas en­seadas, es­paire­cia das lon­gas noites de um re­splen­dor fin­gi­do, ia ter com al­gum pescador que o mi­ma­va com peixe vi­vo. Out­ra vez voa­va mais longe, à procu­ra de um iso­la­men­to para con­ver­sar sem dis­tracção. Mas ao cair da tarde, quan­do a som­bra oblíqua cor­ta em meia laran­ja a luz da baía, Petrus passea­va-​se na es­plana­da de My­conos, em­pre­stando uma cor que con­fun­dia os re­flex­os rox­os ain­da pen­dura­dos na cal das pare­des, com uma plumagem que se cam­bi­ava do rosa para o ma­tiz bran­co da pre­sença. Re­ce­bia carí­cias, cam­in­ha­va en­tre bar­quitos esta­ciona­dos no plano in­cli­na­do do cais e na sua com­pos­tu­ra era um ver­dadeiro rei. 

  Um dia, co­mo nas histórias que não pare­cem reais, Petrus teve aque­la in­tu­ição muito es­pe­cial de que só os bi­chos são ca­pazes -ao voar so­bre My­conos sen­tiu qu