Title: Zeimoto dá Primeira Espingarda aos Japões "Peregrinação"
Author: Fernão Mendes Pinto
CreationDate: Thu Jul 30 11:23:00 BST 2009
ModificationDate: Wed Mar 04 13:00:00 GMT 1970
Genre: 
Description: 
  Zeimo­to dá Primeira Es­pin­gar­da aos Japões “Pere­gri­nação”

  Fer­não Mendes Pin­to

  A pub­li­cação dos capí­tu­los 132 a 135, 214 e 226 do livro Pere­gri­nação, foi gen­til­mente au­tor­iza­da por Maria Al­ber­ta Menéres.

  © 1998, Maria Al­ber­ta Menéres e Par­que EX­PO 98. S.A.

  IS­BN 972-8396-42-2

  Lis­boa, Março de 1998

  Ver­são para dis­pos­itivos móveis: 

  2009, In­sti­tu­to Camões, I.P.

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  ZEIMO­TO DÁ PRIMEIRA

  ES­PIN­GAR­DA AOS JAPÕES

  Co­mo nos par­ti­mos des­ta cidade de 

  Uzan­gué, e do que nos acon­te­ceu até 

  Chegar­mos à il­ha de Tanix­umá, que 

  é a primeira ter­ra do Japão

  Com o alvoroço e con­tenta­men­to que se pode imag­inar que teríamos ao cabo de tan­tos tra­bal­hos e desven­turas co­mo até en­tão tín­hamos pas­sa­do, de que por en­tão nos víamos livres, nos par­ti­mos des­ta cidade de Uzan­gué, aos doze dias do mês de Janeiro, e fize­mos nos­so cam­in­ho por um grande rio de água doce, de mais de uma légua em largo, levan­do a proa a di­ver­sos ru­mos por causa das voltas que o rio fazia, ven­do sem­pre por es­paço de sete dias que por ele cor­re­mos, muitos e muito no­bres lu­gares, tan­to vi­las co­mo cidades, que, se­gun­do o apara­to de fo­ra, pare­cia que de­vi­am ser povos muito ri­cos, pela sump­tu­osi­dade dos ed­ifí­cios que ne­les se vi­am, tan­to de casas par­tic­ulares co­mo de tem­plos com coruchéus cober­tos de ouro, e pela grande mul­ti­dão de em­bar­cações de re­mo que ali se vi­am com to­da a sorte de mer­cado­rias e man­ti­men­tos em mui­ta abundân­cia. 

  Chegan­do nós a uma cidade muito no­bre a que chamavam Quangeparu, que teria quinze ou vinte mil viz­in­hos, o naudelum, que era o que por man­da­do do rei nos lev­ava, se de­teve nela doze dias, fazen­do sua ve­ni­aga com os da ter­ra, a tro­co de pra­ta e de péro­las, em que nos con­fes­sou que de um fiz­era catorze, mas que se lev­asse sal, se não con­tentaria com do­brar o din­heiro trin­ta vezes. Nes­ta cidade nos afir­maram que tin­ha el-​rei de ren­da to­dos os anos, só das mi­nas de pra­ta, dois mil e quin­hen­tos pi­cos, que são qua­tro mil quin­tais, e fo­ra es­ta ren­da tem out­ras muitas de muitas coisas difer­entes. Es­ta cidade não tem mais força para a sua de­fe­sa, que um só fra­co muro de ti­jo­lo de oito pal­mos dos meus, de largo, e uma ca­va de cin­co braças de largo e sete pal­mos de fun­do. Os moradores dela são gente fra­ca e de­sar­ma­da, nem tem ar­til­haria nem coisa que pos­sa prej­udicar quais­quer bons sol­da­dos que a acome­terem. 

  Daqui nos par­ti­mos uma terça-​feira pela man­hã, e con­tin­uá­mos por nos­sa ro­ta mais treze dias, no fim dos quais chegá­mos ao por­to de Sanchão, no reino da Chi­na, que é a il­ha onde de­pois fale­ceu o bem-​aven­tu­ra­do padre mestre Fran­cis­co, co­mo adi­ante se dirá. E não achan­do ali já a este tem­po navio de Mala­ca, por haver nove dias que er­am par­tidos, nos fo­mos a out­ro por­to mais adi­ante sete léguas, de nome Lam­pacau, onde achá­mos dois jun­cos da cos­ta do Malaio, um de Patane e out­ro de Lu­gor. E co­mo a na­tureza des­ta nos­sa nação por­tugue­sa é ser­mos muito afeiçoa­dos a nos­sos pare­ceres, hou­ve aqui en­tre nós oito tan­ta difer­ença e de­scon­formi­dade de opiniões so­bre uma coisa em que o que mais nos valia era ter­mos mui­ta paz e con­cór­dia, que quase nos hou­véramos de vir a matar uns aos out­ros, de maneira que por ser as­saz ver­gonhoso con­tar o que se pas­sou, não di­rei mais senão que o necodá da lor­cha que ali n