a o ba­tel, e ele lhe re­spon­deu que por razão nat­ural era im­pos­sív­el deixar de es­tar per­di­do, com mares tão grossos co­mo aque­les, e que pres­su­pos­to que Deus mi­la­grosa­mente o quisesse sal­var, nos fi­ca­va já a mais de cin­quen­ta léguas, A que o padre lhe tornou: 

  -As­sim parece nat­ural­mente, mas fol­gar­ia eu, pi­lo­to, já que se nis­so não perde na­da, que por amor de Deus quisés­seis ir à gávea, ou man­dar lá al­gum mar­in­heiro que de lá de cima vigie to­do o mar, para que ao menos nos não fique is­to por faz­er. 

  E o pi­lo­to lhe disse que ele iria lá de boa von­tade, E subindo aci­ma, e o mestre com ele, mais para sat­is­faz­erem o de­se­jo que vi­am no padre, que por lh­es pare­cer que po­di­am ver al­gu­ma coisa, co­mo pare­cia que es­ta­va em razão, se de­tiver­am lá um grande es­paço, e en­fim afir­maram que em to­do o mal não vi­am coisa nen­hu­ma, de que o padre, ao pare­cer de to­dos, fi­cou as­saz triste, E en­co­stan­do a cabeça no prepau do chapitéu, es­teve as­sim com aque­la tris­teza um pouco im­pan­do co­mo que a quer­er chorar, e já por der­radeiro, abrindo a bo­ca e toman­do fôlego, co­mo quem desabafa­va daque­la tris­teza que tin­ha, e lev­an­tan­do as mãos ao céu, disse com lá­gri­mas: 

  -Je­sus Cristo, meu ver­dadeiro Deus e Sen­hor, peço-​te pelas dores da tua sacratís­si­ma morte e paixão, que ha­jas mis­er­icór­dia de nós, e nos salves as al­mas dos fiéis que vão naque­le ba­tel. 

  E tor­nan­do com is­to a re­cli­nar a cabeça so­bre o prepau a que es­ta­va en­costa­do, se deixou as­sim es­tar co­mo que a dormir, cer­ca de dois a três cre­dos, quan­do um meni­no que es­ta­va sen­ta­do na enxár­cia, começou a gri­tar dizen­do: «Mi­la­gre, mi­la­gre, que eis aqui o nos­so ba­tel.» 

  A es­ta voz ar­reme­teu to­da a gente as­sim co­mo es­ta­va, à parte de bom­bor­do onde o meni­no gri­ta­va, e viu vir o ba­tel afas­ta­do da nau cer­ca de um tiro de es­pin­gar­da pouco mais ou menos, e es­pan­ta­dos to­dos de tão no­vo e de­sacos­tu­ma­do ca­so, choravam uns com os out­ros co­mo cri­anças, de maneira que não havia quem se pudesse ou­vir em to­da a nau, com os ur­ros da gente.

  To­dos ar­reme­ter­am en­tão ao padre para se lhe lançarem aos pés, porém ele o não con­sen­tiu, e se recol­heu para a câ­mara do capitão e se fe­chou por den­tro para que ninguém lhe falasse. 

  Os com­pan­heiros que vin­ham no ba­tel foram lo­go recol­hi­dos den­tro da nau, com aque­le gos­to e alvoroço que to­dos po­dem en­ten­der, e por is­so en­tão deixo ago­ra de con­tar aqui as par­tic­ular­idades deste re­ce­bi­men­to, porque são elas mais para se cuidarem que para se es­creverem. 

  Pas­sa­do as­sim aque­le pe­queno es­paço em que a noite se cer­rou de to­do, que po­dia ser de pouco mais de meia ho­ra, man­dou o padre por um meni­no chamar o pi­lo­to e lhe disse que lou­vasse a Deus Nos­so Sen­hor, de quem er­am aque­las obras, e man­dasse faz­er lo­go a nau prestes porque aque­le con­traste não du­raria muito. E sat­is­fazen­do-​se com to­da a presteza pos­sív­el, e com mui­ta de­voção, ao que o padre man­dara, prou­ve a Nos­so Sen­hor que lo­go de im­pro­vi­so, antes que a ver­ga grande es­tivesse em cima e as ve­las fos­sem mareadas, a tor­men­ta acal­mou de to­do e nos as­saltou o ven­to norte, com o qual por monção ten­dente seguimos nos­sa vi­agem com bem de ale­gria e con­tenta­men­to de to­dos; e este mi­la­gre que con­tei, acon­te­ceu a dezas­sete de Dezem­bro de 1551.

  Do que pas­sei de­pois que par­ti­mos 

  deste por­to de Xeque até chegar à 

  Ín­dia, e daí a este reino

  Vele­jan­do nós deste por­to do Xeque por nos­sa ro­ta, com ven­tos nortes de monção ten­dente, chegá­mos a Lam­p