acau aos qua­tro de Dezem­bro, onde achá­mos seis naus por­tugue­sas, de que era capitão-​mor um mer­cador que se chama­va Fran­cis­co Mar­tins, feitor de Fran­cis­co Bar­reto que en­tão gov­er­na­va o Es­ta­do da Ín­dia por sucessão de D. Pe­dro Mas­caren­has. E porque já a este tem­po a monção da Ín­dia era já quase gas­ta, não fez aqui o nos­so capitão D. Fran­cis­co Mas­caren­has mais de­tença que en­quan­to se proveu de man­ti­men­tos para a vi­agem.

  Deste por­to de Lam­pacau par­ti­mos na primeira oita­va do Na­tal, e chegá­mos a Goa aos dezas­sete de Fevereiro, onde lo­go dei con­ta a Fran­cis­co Bar­reto da car­ta que trazia do rei do Japão, e ele me man­dou que lha lev­asse ao out­ro dia, e eu lha lev­ei com as ar­mas, e terça­dos, e com as mais peças do pre­sente que lev­ava.

  Ele de­pois que es­teve ven­do tu­do muito de­va­gar, me disse: 

  -Cer­ti­fi­co-​vos em to­da a ver­dade que tan­to pre­zo es­tas ar­mas e peças que me ago­ra troux­este, co­mo a própria gov­er­nança da Ín­dia, porque com elas e com es­ta car­ta de el-​rei do Japão, es­pero agradar tan­to a el-​rei nos­so sen­hor que, de­pois de Deus, elas me livrem do caste­lo de Lis­boa, onde os mais dos que gov­er­namos este Es­ta­do va­mos de­sem­bar­car, por nos­sos peca­dos.

  E em sat­is­fação deste tra­bal­ho e dos gas­tos que tin­ha feito de min­ha fazen­da, me fez muitos ofer­ec­imen­tos que eu por en­tão lhe não quis aceitar, mas jus­ti­fiquei per­ante ele, por doc­umen­tos e teste­munhas de vista, quan­tas vezes por serviço de el-​rei nos­so sen­hor, eu fo­ra cati­vo e min­ha fazen­da rouba­da, pare­cen­do-​me que is­so só bas­taria para que nes­ta min­ha pá­tria se não ne­gasse o que por meus serviços eu cuidei que me era de­vi­do.

  Ele me man­dou pas­sar um doc­umen­to de to­das es­tas coisas, e jun­tou a ele as mais cer­tidões que lhe ap­re­sen­tei, e me deu uma car­ta para sua al­teza, com o que me fez tão cer­to sobe­jar-​me cá a sat­is­fação destes serviços, que con­fi­ado eu nes­tas es­per­anças e na razão tão clara que eu en­tão cui­da­va que tin­ha por min­ha parte, me em­bar­quei para este reino, tão con­tente e tão ufano com os pa­péis que trazia, que tin­ha para mim que aque­le era o mel­hor cabe­dal que trazia de meu, porque es­ta­va per­sua­di­do que me não tar­daria mais a mer­cê, que en­quan­to a não re­quer­esse.

  Prou­ve a Nos­so Sen­hor que cheguei a sal­va­men­to à cidade de Lis­boa, aos vinte e dois de Setem­bro do ano de 1558, gov­er­nan­do en­tão este reino a rain­ha Dona Cata­ri­na, nos­sa sen­ho­ra que san­ta glória ha­ja, a quem dei a car­ta que lhe trazia do gov­er­nador da Ín­dia, e lhe re­latei por palavras tu­do o que me pare­ceu que fazia a bem do meu negó­cio. Ela me reme­teu ao ofi­cial que en­tão tin­ha a car­go tratar destes negó­cios, o qual com boas palavras e mel­hores es­per­anças, que eu en­tão tin­ha por muito cer­tas, pe­lo que me ele dizia, me teve os tristes pa­péis qua­tro anos e meio, no fim dos quais não tirei out­ro fru­to senão os tra­bal­hos e pe­sad­umes que pas­sei no re­quer­imen­to, que não sei se di­ga que me foram mais pe­sa­dos que quan­tos pas­sei no de­cur­so do tem­po atrás.

  E ven­do eu quão pouco me fun­di­am tan­to os tra­bal­hos e serviços pas­sa­dos, co­mo o re­quer­imen­to pre­sente, de­ter­minei de me recol­her com es­sa mis­éria que troux­era comi­go, adquiri­da por meio de muitos tra­bal­hos e in­fortúnios, e que era o resto do que tin­ha gas­to em serviço deste reino, e deixar o feito à justiça div­ina, o que lo­go pus em obra, pe­san­do-​me ain­da por que o não fiz­era mais ce­do, porque se as­sim o fizesse, quiçá me pouparia nis­so um bom pedaço de fazen­da.

  E nis­to vier­am a p