er­cador muito ri­co que nos ban­que­teou muito larga­mente, tan­to nes­ta noite co­mo em doze dias mais que pousá­mos com ele.

  Da hon­ra que o nau­taquim fez a um dos

  nos­sos por o ver ati­rar com uma es­pin­gar­da, 

  e do que daí sucedeu

  Lo­go ao out­ro dia seguinte, este necodá chim de­sem­bar­cou em ter­ra to­da a sua fazen­da co­mo o nau­taquim lhe tin­ha man­da­do, e a me­teu nu­mas boas casas que para is­so lhe de­ram, a qual fazen­da to­da se vendeu em três dias, tan­to por ser pou­ca co­mo porque es­ta­va a ter­ra fal­ta dela, na qual este corsário fez tan­to proveito que de to­do fi­cou restau­ra­do da per­da dos vinte e seis bar­cos que os chins lhe tomaram, porque pe­lo preço que ele que­ria pôr na fazen­da, lha tomavam lo­go, de maneira que nos con­fes­sou ele que com só dois mil e quin­hen­tos taéis que lev­ava de seu, fiz­era ali mais de trin­ta mil.

  Nós os três por­tugue­ses, co­mo não tín­hamos ve­ni­aga em que nos ocupásse­mos, gastá­va­mos o tem­po em pescar e caçar, e ver tem­plos dos seus pagodes que er­am de mui­ta ma­jes­tade e riqueza, nos quais os bon­zos, que são os seus sac­er­dotes, nos fazi­am muito gasal­ha­do, porque to­da gente do Japão é nat­ural­mente muito bem in­cli­na­da e con­ver­sado­ra. No meio des­ta nos­sa ociosi­dade, um dos três que éramos, de nome Dio­go Zeimo­to, toma­va al­gu­mas vezes por pas­satem­po ati­rar com uma es­pin­gar­da que tin­ha de seu, a que era muito in­cli­na­do, e na qual era as­saz de­stro. E ac­er­tan­do um dia de ir ter a um paul onde havia grande so­ma de aves de to­da a sorte, ma­tou nele com a mu­nição, umas vinte e seis mar­recas.

  Os japões, ven­do aque­le no­vo mod­elo de tiros que nun­ca até en­tão tin­ham vis­to, de­ram re­bate dis­so ao nau­taquim que neste tem­po an­da­va ven­do cor­rer uns cav­al­os que lhe tin­ham trazi­do de fo­ra, o qual es­pan­ta­do des­ta novi­dade, man­dou lo­go chamar o Zeimo­to ao paul onde es­ta­va caçan­do, e quan­do o viu vir com a es­pin­gar­da às costas, e dois chins car­rega­dos de caça, fez dis­to taman­ho ca­so que em to­das as coisas se lhe enx­er­ga­va o gos­to do que via, porque co­mo até en­tão naque­la ter­ra nun­ca se tin­ha vis­to tiro de fo­go, não sabi­am de­ter­mi­nar o que aqui­lo era, nem en­ten­di­am o seg­re­do da pólvo­ra, e as­sen­taram to­dos que era feitiçaria. 

  O Zeimo­to, ven­do-​os tão pas­ma­dos e o nau­taquim tão con­tente, fez per­ante eles três tiros em que ma­tou um mil­hano e duas ro­las, e para não gas­tar palavras no en­car­ec­imen­to deste negó­cio, e para es­cusar de con­tar tu­do o que se pas­sou nele, porque era coisa para se não cr­er, não di­rei mais senão que o nau­taquim lev­ou o Zeimo­to nas an­cas de um cav­alo em que ia, acom­pan­hado de mui­ta gente, e qua­tro porteiros com bastões fer­ra­dos nas mãos, os quais bradan­do ao po­vo que era neste tem­po sem con­to, diziam: 

  -O nau­taquim, príncipe des­ta il­ha de Tanix­umá e sen­hor de nos­sas cabeças, man­da e quer que to­dos vós out­ros, e as­sim os mais que habitam a ter­ra de en­tre am­bos os mares, hon­rem e venerem este chenchicogim do cabo do mun­do, porque de ho­je por di­ante o faz seu par­ente, as­sim co­mo os facharões que se sen­tam jun­to de sua pes­soa, sob pe­na de perder a cabeça o que is­to não fiz­er de boa von­tade. 

  A que to­do o po­vo re­spon­dia: 

  -As­sim se fará para sem­pre. 

  E chegan­do o Zeimo­to com es­ta pom­pa mun­dana ao primeiro ter­reiro dos paços, descav­al­gou o nau­taquim e o to­mou pela mão, fi­can­do nós os dois um bom es­paço atrás, e o lev­ou sem­pre jun­to de si até uma casa onde o sen­tou à mesa con­si­go, na qual tam­bém para lhe faz­er a maior hon­ra de to­das, quis que dormisse aque­la noite,