 mais ale­gre e menos sisu­do, para que agrade mais aos japões e desme­lan­col­ize o en­fer­mo, porque gravi­dade pe­sa­da co­mo a destoutro, en­tre doentes não serve de mais que para causar tris­teza e melan­co­lia, e acres­cen­tar o fas­tio a quem o tiv­er.

  E grace­jan­do com os seus so­bre es­ta matéria, com al­guns di­tos e galan­tarias a que nat­ural­mente são muito in­cli­na­dos, chegou o Fin­ge­an­dono, ao qual me ele lo­go en­tre­gou com palavras de muito en­car­ec­imen­to ac­er­ca da se­gu­rança de min­ha pes­soa, de que eu me tive por muito sat­is­feito, e fiquei fo­ra de al­guns re­ceios que antes se me ap­re­sen­tavam, pe­lo pouco con­hec­imen­to que até en­tão tin­ha des­ta gente, e me man­dou dar duzen­tos taéis para o cam­in­ho, com os quais me fiz prestes o mais de­pres­sa que pude, e nos par­ti­mos, o Fin­ge­an­dono e eu, em uma em­bar­cação de re­mo a que eles chamam funce. E atrav­es­san­do em uma só noite daqui des­ta il­ha de Tanix­umá, fo­mos aman­hecer no ros­to da ter­ra, em uma an­gra de nome Hia­mangó, e daí a uma boa cidade a que chamavam Quangix­umá, e, vele­jan­do as­sim por nos­sa ro­ta com monção ten­dente de ven­tos bo­nançosos, chegá­mos ao out­ro dia a um lu­gar no­bre de nome Tanorá, e deste fo­mos ao out­ro dia dormir a out­ro que se chama­va Mi­na­to, e daí a Fi­ungá. E fazen­do as­sim nos­sos pousos em ter­ra ca­da dia, onde nos províamos de bons re­fres­cos, chegá­mos a uma for­taleza de el-​rei do Bun­go, chama­da Os­quy, a sete léguas da cidade, na qual for­taleza este Fin­ge­an­dono se de­teve dois dias porque o capitão dela que era seu cun­hado, es­ta­va muito doente.

  Aqui deixou a em­bar­cação em que tín­hamos vin­do e nos fo­mos por ter­ra para a cidade.

  Chegá­mos ao meio-​dia, e por não ser tem­po de poder falar a el-​rei, foi de­scer à sua casa onde da mul­her e dos fil­hos foi muito bem re­ce­bido, e a mim me fiz­er­am muito gasal­ha­do. E de­pois que jan­tou e des­can­sou do tra­bal­ho do cam­in­ho, se pôs de vesti­dos de corte, e com al­guns par­entes seus se foi ao paço e me lev­ou con­si­go a cav­alo. El-​rei, saben­do da sua vin­da, o man­dou re­ce­ber ao ter­reiro do paço por um seu fil­ho moço, ao que pare­cia, de nove até dez anos, o qual vin­ha acom­pan­hado de mui­ta gente no­bre, e ele vin­ha ri­ca­mente vesti­do, com seus porteiros de maças adi­ante; e toman­do o Fin­ge­an­dono pela mão, lhe disse com ros­to ale­gre e bem as­som­bra­do:

  -A tua en­tra­da nes­ta casa de el-​rei meu sen­hor, se­ja de taman­ha hon­ra e con­tenta­men­to para ti, que mere­cerão teus fil­hos, por serem teus fil­hos, com­er à mesa comi­go nas fes­tas do ano.

  A que ele, prostra­do por ter­ra, re­spon­deu: 

  -Os moradores do céu, de quem, sen­hor, apren­deste a ser tão bom, re­spon­dam por mim, ou me dêem lín­gua de rés­tia de sol para grat­ificar com músi­ca ale­gre a tuas orel­has, es­ta grande hon­ra que me ago­ra fazes, por tua grandeza, porque sem is­so pecarei se falar, co­mo os in­gratos que habitam no mais baixo la­go da côn­ca­va es­cu­ra da casa do fu­mo.

  E com is­to, ar­reme­tendo ao terça­do que o meni­no tin­ha na cin­ta, para lho bei­jar, ele lho não con­sen­tiu, mas toman­do-​o pela mão, acom­pan­hado daque­les sen­hores que com ele vier­am, o lev­ou con­si­go até o me­ter na casa onde el-​rei es­ta­va, o qual, ain­da que jazesse na ca­ma doente, o re­ce­beu com out­ra no­va cer­imó­nia de que me es­cu­so de dar re­lação, para não faz­er a história pro­lixa. E de­pois que leu a car­ta que ele trouxe do nau­taquim, e lhe per­gun­tar por al­gu­mas no­vas par­tic­ular­idades de sua fil­ha, lhe disse que me chamasse, porque a esse tem­po es­ta­va eu um pouco afas­ta­do atrás. Ele me chamou lo­go 