­ma amu­ra, que ain­da há muito mar para cor­rer; se ele tem me­do, que passe para bor­do da Golfin­ho, que talvez o Garção goste de con­sel­hos; cá por mim não pre­ciso de­les. 

  Fran­cis­co Max­imi­ano, pois era ele, que grandes brios an­imavam, pou­ca atenção deu ao úl­ti­mo perío­do, porque par­ti­ra quan­do o co­man­dante disse «con­tin­ue», e ao em­bo­car pela meia-​laran­ja, fer­ran­do os dentes: 

  -Cão! Tan­ta gente sac­ri­fi­ca­da sem proveito, por es­tupi­dez! 

  Foi para o de­grau sem diz­er palavra e o práti­co tor­na a per­gun­tar: 

  -En­tão, sen­hor capitão-​de-​fra­ga­ta, na­da de vi­rar? 

  -Na­da, deixe ir. 

  -Ai que des­graça! Não ar­ri­bou, por des­feit­ear o out­ro, e ago­ra não vi­ra por teima; maldito navio! 

  O mestre, que havia muito se acha­va ao pé do cabrestante, ad­ver­tido pe­lo práti­co, cheio de sus­to ape­sar de ser mar­in­heiro vel­ho e va­lente, chegou-​se ao ime­di­ato.

  -En­tão, sen­hor capitão-​de-​fra­ga­ta, mor­rere­mos aqui to­dos sem mais nem menos? Nun­ca tive me­do de na­da quan­do é pre­ciso ex­por-​me, mas ago­ra sem ne­ces­si­dade…

  -Bas­ta! Se tem al­gu­ma ob­ser­vação a faz­er desça à câ­mara, que lá es­tá o co­man­dante ... 

  -Mas ... 

  -Ten­ho di­to! 

  Tu­do fi­cou mu­do; porém chegan­do-​se para a amu­ra­da, jun­tos do de­grau, para acud­irem à primeira voz, tran­si­dos de frio e sus­to; quan­do se sente um choque ex­traordinário, uma pan­ca­da nun­ca ou­vi­da, um es­ta­lar medonho, su­pe­ri­or às re­fre­gas do fu­racão que as­so­pra­va e lo­go após out­ro ain­da maior, pre­ce­di­do de uma va­ga que ati­ran­do com a fra­ga­ta aci­ma das pe­dras lhe faz deitar os mas­taréus e ver­gas de joanetes pela bor­da fo­ra. 

  -Mis­er­icór­dia! En­cal­hou!... En­cal­hou! -Gri­tam na cober­ta: -Mis­er­icór­dia! 

  Quem es­ta­va em baixo não pôde subir ao con­vés, a fra­ga­ta caíra so­bre o por­taló de bom­bor­do, en­tran­do-​lhe a água até à braço­la da es­cotil­ha grande; tu­do era des­or­dem, tu­do alar­ido, ninguém ati­na­va com o que fazia, tu­do era es­curidão, água e ven­to. As va­gas en­capelavam por cima do costa­do, e iam levan­do quan­to es­ta­va na tol­da; an­te­nas, mas­taréus e gente, a qual ia sendo es­ma­ga­da pe­los pedaços de es­caleres des­feitos; pe­los madeiros de que se desta­cavam mas­tros e ver­gas que se par­ti­am e jo­gavam uns con­tra out­ros, se­guros por al­guns ca­bos! Este hor­ror mais se au­men­tou, se is­so foi pos­sív­el, com a sep­aração da fra­ga­ta em duas metades, fi­can­do o caste­lo e bailéus muito afas­ta­dos da tol­da. O co­man­dante fala­va, ninguém o aten­dia; e ca­da qual procu­ra­va sal­var-​se, mas pere­cen­do no meio das va­gas; out­ros, agar­ran­do-​se a al­gu­ma car­reta de es­ti­bor­do, es­per­avam que aman­hecesse, mas lá vin­ha a on­da que a de­satra­ca­va, es­ma­gan­do com ela os mis­eráveis que a tin­ham procu­ra­do para abri­go: tu­do era de­stroço e morte; quem caiu ou se deitou ao mar foi por este en­goli­do ou ar­ro­ja­do à pra­ia e en­volto na areia pela ressaca, que to­da es­puma acaba­va de su­fo­car quem tin­ha ali chega­do com vi­da! 

  Por mi­la­gre o sol­da­do «Gal­rão»  da briga­da tornou pé, se­guro a um re­mo, corre à praça, dá avi­so, a pop­ulação de Gibral­tar acor­da, sabe o ca­so, corre to­da à pra­ia de Es­tepona, com ar­chotes, ca­bos e quan­tas coisas supõem necessárias para acud­ir aos náufra­gos; o dia aman­hece es­curo, corno a noite, porém com su­fi­ciente clar­idade para alu­mi­ar aque­la hor­ro­rosa ce­na. O co­man­dante da nau in­gle­sa Mal­ta acode com parte da sua gente, lança-​se às on­das amar­ra­do a um cabo, agar­ra este e 