aque­le; em ter­ra alam o cabo, sal­va três ou qua­tro; o seu ex­em­plo é segui­do por vários ofi­ci­ais cora­josos, que fazem out­ro tan­to. O chefe Scar­nichia salta igual­mente com quan­to tem a bor­do da Vas­co e vai so­cor­ren­do aque­les que con­seguem chegar vivos ao ro­lo da pra­ia. O es­pec­tácu­lo era hor­ren­do, dezenas de cadáveres jazi­am pela areia, ali aban­don­ados pela maré vazante, out­ros flu­tu­avam en­voltos na es­puma, mem­bros dis­per­sos apare­ci­am aqui e ali; mas o que causa­va maior lás­ti­ma era ver ain­da um cen­to de in­fe­lizes ap­in­hados so­bre os dois pedaços da fra­ga­ta, ace­nan­do e pedin­do so­cor­ro, sem se lho poder levar, de­spren­den­do-​se um ou out­ro, im­peli­do pela on­da, que lo­go o en­go­lia. No meio des­ta an­siedade, dão to­dos um gri­to: 

  -Ai, que lá se sub­mergiu a proa! 

  Uma va­ga im­petu­osís­si­ma des­faz o caste­lo e dis­per­sa os seus madeiros que, cheios de pre­gos, vão ferindo e di­laceran­do os des­graça­dos que nadam em procu­ra da ter­ra. 

  Na parte restante da tol­da e popa acha­va-​se o cau­sador des­ta catástrofe, bem co­mo al­guns ofi­ci­ais e mar­in­heiros, to­dos es­peran­do a morte, e ven­do o mo­do de es­capar-​lhe. O gen­eroso e va­lente Fran­cis­co Max­imi­ano ia a lançar-​se ao mar, se­guro a dois pedaços de cor­tiça da trincheira que apan­hara, quan­do o tenente Figueiras lhe diz: 

  -Ó Fran­cis­co, tu sabes nadar e eu não, nem este fil­ho; tu podes es­capar, porém nós mor­rere­mos am­bos; se tu me dess­es es­sa cor­tiça, de­cer­to es­caparia eu e este in­ocente, que não pos­so largar aqui. 

  O ra­paz­in­ho se­gu­ra­va-​se ao pai e este ao cabrestante, para não ser lev­ado pelas on­das. 

  -Pois sim, toma lá, ain­da que eu mor­ra não faço fal­ta a ninguém e tu es­tás car­rega­do de família; deixa cair o pe­queno que eu o agar­ro.

  -Deus te dará o pa­go! 

  -Larga-​te e deixa-​te ir sem te im­por­tar mais na­da, que a on­da te levará à pra­ia; eu te acom­pan­ho. 

  Lançaram-​se to­dos três à água, ele e mais os dois, mas Deus não quis sal­var a to­dos, so­mente o homem gen­eroso teve o prémio da sua boa acção, os out­ros chegaram a ela mor­tos, o pai abraça­do com o fil­ho! Das trezen­tas e cin­quen­ta praças que havia a bor­do às qua­tro ho­ras da man­hã, quan­do er­am oito ape­nas ex­is­ti­am cen­to e cin­quen­ta, ten­do pere­ci­do duzen­tas neste hor­rív­el naufrá­gio. Scar­nichia e o comis­sário-​ger­al da es­quadra, o Sr. João Bap­tista da Sil­va, aju­da­dos pelas primeiras pes­soas de Gibral­tar, tin­ham feito coz­er nas casas mais próx­imas gal­in­has e va­ca para acud­irem aos ex­ten­ua­dos de forças, agasal­haram os feri­dos, ve­sti­ram os nus, fornece­ram roupa aos que a tin­ham mol­ha­da e de­ram-​lh­es to­da a sorte de con­so­lação. A fra­ga­ta de­sa­pare­ceu lo­go de­pois. 

  Mal que os náufra­gos pud­er­am cam­in­har, di­ri­gi­ram-​se à praça: a pro­cis­são era ed­if­icante, quan­do en­traram na igre­ja católi­ca a dar graças, tu­do foram lá­gri­mas e soluços, mul­heres, home­ns, cri­anças, po­bres e ri­cos tu­do chora­va, pois nun­ca ali se tin­ha vis­to coisa mais las­ti­mosa; ol­han­do o po­vo com ran­cor para o homem sober­bo e ig­no­rante, cu­jo en­durec­imen­to e mal­dade fiz­era tan­tas ví­ti­mas, para Ro­dri­go José Fer­reira Lobo, que tam­bém es­capara! 

  Este ofi­cial não era teóri­co, nem mes­mo tin­ha out­ros es­tu­dos; per­ten­cen­do, não sei porquê, à casa dos Mar­ial­vas e de­ven­do a um de­les, quan­do gov­er­nador da Baía, a sua pas­sagem para a Mar­in­ha; de capitão de ar­til­haria, que era da mes­ma provín­cia, gal­gou os pos­tos até chegar ao de capitão-​de-​mar-​e-​guer