­riv­el­mente até que, nu­ma das cabeçadas, às vinte e duas ho­ras do dia 28, par­tiu o leme, levan­do este a se­gun­da e quar­ta fêmeas e aluin­do com o seu choque to­da a parte in­fe­ri­or da almei­da, a pon­to de en­trar um grande jor­ro de água pe­lo gio, que subia no porão, a cin­quen­ta e oito e sessen­ta pole­gadas por ho­ra! Tu­do a bor­do foi con­fusão, to­dos que­ri­am coisas di­ver­sas, ca­da qual da­va a sua opinião e o bar­co sem gov­er­no, à ma­tro­ca, atrav­es­sa­do ao mar, que o co­bria: ora me­tendo o gu­rupés e a proa de­baixo de água, ora cain­do a bom­bor­do, a pon­to tal que o sino tan­gia sem ninguém lhe mex­er. Pran­to das sen­ho­ras, pra­gas dos mar­in­heiros, cen­suras dos de­sem­bar­gadores, ad­vertên­cias dos ofi­ci­ais de trans­porte; de maneira que nun­ca se tin­ha vis­to maior anar­quia den­tro de out­ra em­bar­cação de guer­ra, com a qual os peri­gos au­men­tavam e a ne­ces­si­dade de acud­ir-​lhe se tor­na­va mais ur­gente. Ala braços por aqui, tesa por acolá, car­rega a mezena, car­rega a re­be­ca, larga o vela­cho; mas a char­rua não ar­riban­do, na mais críti­ca de to­das as posições, à mer­cê das on­das e do ven­to! A água no porão, ca­da vez mais, to­ca­va-​se re­don­do às qua­tro bom­bas, sem ela diminuir, pe­garam nos gamotes, em que to­dos tra­bal­haram, não haven­do nes­ta la­bo­riosa faina difer­ença de class­es; e só de­pois de at­uradís­si­ma diligên­cia se foi ven­cen­do a maior força, al­ijan­do-​se parte da car­ga ao mar, não só por es­tar ar­ru­ina­da e cheia de avaria, co­mo para ficar a em­bar­cação mais boiante.

  Lem­brou o capitão-​tenente Pus­sich a vul­gar es­padela, me­ter­am mãos à obra, mas de tal mo­do nis­to se hou­ver­am que, por sua pés­si­ma es­tru­tu­ra e de­sapro­pri­ada colo­cação, nun­ca chegou a faz­er serviço, levan­do-​se em ten­ta­ti­vas in­úteis e dis­paratadas até ao dia 30. A to­das as ho­ras se es­per­ava que o mar en­golisse o navio ou que este abrindo, pe­lo choque das on­das, fos­se lo­go a pique. Um tenente man­da­va alar o braço grande, o co­man­dante largar o vela­cho, o capitão-​tenente o tra­que­te, o mestre a vela de es­tai de proa, repetindo-​se es­tas e out­ras vozes, sem um pen­sa­men­to fixo e sem que a char­rua vari­asse de posição! Os navios têm si­do por vezes com­para­dos ao cav­alo fo­goso, que só obe­dece ao cav­aleiro de­stro; as­sim um ofi­cial in­struí­do ao cataven­to parece dom­inar as va­gas e im­prim­ir a sua von­tade àquela ad­miráv­el máquina, que em to­das as cir­cun­stân­cias obe­dece à sua im­pe­riosa voz! O Ma­ia e Car­doso não re­speita­va o cav­aleiro, na­da­va à tona de água, o seu el­eva­do tombadil­ho e salientes al­forges ofer­eci­am re­sistên­cia ao ven­to, igual a uma vela ré; e por is­so para ele ar­rib­ar lo­go se de­vera ter pi­ca­do o mas­tro da mezena, o que nun­ca se chegou a faz­er. No dia 30 o mestre e ofi­ci­ais de proa lem­braram a con­strução de um leme de pe­ga, cu­ja madre fos­se o mas­taréu do vela­cho; es­ta ideia, ób­via e sem­pre segui­da, abraçou-​se avi­da­mente, to­dos fiz­er­am quan­to dele de­pen­dia para o seu acaba­men­to, que ter­mi­nou no dia 4 de Jun­ho; mas o tem­po­ral era en­tão medonho, o frio in­ten­so, a sarai­va re­tal­han­do as mãos e o ros­to de quem a su­por­ta­va, as ra­jadas fortís­si­mas e o es­car­céu fu­rioso, a cu­ja vista muitos iam des­fale­cen­do, ex­aus­tos de ân­imo e forças. 

  Os ca­marotes daque­le navio er­am, e ho­je ain­da são, no con­vés, à ré do mas­tro grande; nos dois fron­teiros ao mas­tro da mezena, em que vin­ham o de­sem­bar­gador Lou­sa­da com sua família, e o ex-​con­ta­dor Pos­so­lo e sua jovem es­posa, se colo­caram as cor­rentes e tal­