has de atracar a pe­ga ao cadaste; atrav­es­san­do-​se de bom­bor­do a es­ti­bor­do pelas por­tas de­les, a ver­ga de so­bres­se­lente da gávea com out­ras tal­has fixas nos lais­es para aju­dar a gov­ernar por fo­ra. Mas por is­so que as port­in­ho­las es­tavam aber­tas, tal força de água en­tra­va por elas que ninguém po­dia tra­bal­har, in­un­dan­do-​se to­do o navio! O de­salen­to era ger­al e quase que nem se atre­vi­am a mover um braço! Fi­nal­mente con­seguiu-​se no dia 8, com in­crív­el fadi­ga e risco, calar o leme e dis­por con­ve­nien­te­mente o seu apar­el­ho. 

  Graças a Deus que já gov­er­na! Es­ta­mos salvos! O leme gi­ra bem! E com efeito o Ma­ia e Car­doso ar­ri­bou, deu a al­heta ao mar e pôs a proa a és-​nordeste, puxan­do-​se lo­go com tra­que­te e vela­cho para o canal de Moçam­bique. As sen­ho­ras e até os home­ns choravam de ale­gria, a va­ga na al­heta afronta­va menos a em­bar­cação, dan­do-​se em con­se­quên­cia dis­so or­dem a faz­er al­gu­ma coisa de co­zin­ha, pois havia uma se­mana que na­da se tin­ha co­mi­do quente. Porém, com este bom suces­so não find­aram as atribu­lações e peri­gos dos trezen­tos e dez vian­dantes, os quais não ven­do nem por­tas nem can­ce­las em to­do o oceano, vi­am ape­nas, e is­so bas­ta­va, que ele, em­brave­ci­do, lh­es prepar­ava a morte, ora el­evan­do às nu­vens o de­scon­jun­ta­do navio, ora sepul­tan­do-​o no cen­tro de ser­ras de água, que de to­dos os la­dos ameaçavam en­goli-​lo! O ca­so foi que, ou a obra não fo­ra fei­ta com a necessária solidez, ou a força das on­das era muito su­pe­ri­or a to­dos estes meios pro­visórios de gov­er­no, uma va­ga apodera-​se dele, faz tu­do pedaços e deixa o navio em situ­ação mais ar­risca­da que dantes, ten­do ago­ra a bater-​lhe no costa­do os restos do tal leme, pre­sos pelas tal­has e cor­rentes. Picaram-​se es­tas e aque­las, e eis de no­vo o Ma­ia e Car­doso à ma­tro­ca, já cor­ren­do para o sul, já para o norte! No dia II en­saiou-​se a fac­tura de out­ro leme de toros de amar­ra, o qual fi­cou pron­to a 14, mas nesse dia era tão medonho o tem­po, tais os bal­anços e tan­ta a água den­tro do navio, que ape­nas trataram de tapar o bu­ra­co da eno­ra do leme e as duas por­tas por onde saía a ver­ga, com colchões e tabua­do, a fim de se es­go­tar o porão. Al­ijou-​se mais car­ga ao mar; a riqueza de uns, o remé­dio e o fru­to de grandes econo­mias de out­ros lá foram pela bor­da fo­ra, para a sal­vação de to­dos. No dia 20, achan­do-​se en­tão em trin­ta e cin­co graus sul e pouco mais a oeste da baía de S. Fran­cis­co, abo­nançou al­gu­ma coisa o ven­to, pud­er­am bo­tar o leme fo­ra e gov­ernar com ele menos mal. Nes­tas al­turas, a va­ga é de uma grandeza que ninguém faz ideia, senão ven­do-​a, e a vi­olên­cia do ven­to pe­ga nela com tan­to ím­peto, que nen­hum navio lhe pode re­si­stir muitas ho­ras, ad­mi­ran­do co­mo o Ma­ia e Car­doso su­por­tou aque­le com­bate sem se des­faz­er! Out­ros navios, cor­ri­dos em ár­vore se­ca ou em vela­cho so­bre a pe­ga, pas­savam por ele; mas não lhe dan­do, nem po­den­do dar auxílio, no meio de uma tor­men­ta que os ameaça­va com igual sorte. A mar­in­hagem, ex­ci­ta­da pe­los pas­sageiros que de tu­do mur­mu­ravam, começou a de­sa­ten­der os seus próprios ofi­ci­ais, sendo necessário pren­der à or­dem da rain­ha o de­sem­bar­gador Lou­sa­da, mais tur­bu­len­to, para resta­bele­cer a dis­ci­plina e in­fundir al­gum re­speito aos ofi­ci­ais de trans­porte que, cen­suran­do sem­pre, por sua ig­norân­cia da profis­são, as coisas mais ac­er­tadas que ali se fazem, tin­ham de­masi­ados mo­tivos para ex­ercer a sua maledicên­cia.

  No dia 21, en­fim, prou­ve a Deus que o leme pudesse tra