ca; quan­to dei­ta? 

  -Sete mil­has. 

  -Ve­ja bem, torne a deitar; quan­to? 

  -Sete mil­has e qua­tro déci­mos. 

  -Abate muito? 

  -Não sen­hor, fi­ca a es­teira pela al­heta, não chega à quar­ta e meia.

  -An­dar as­sim; às sete de­ve­mos ter mon­ta­do a Ro­ca: onde es­tá a proa? 

  -Norte quar­ta do noroeste, com a ra­ja­da chega à quar­ta e meia. 

  -Não é pre­ciso gri­var, deixe-​a seguir, sem ar­rib­ar da quar­ta. 

  Andá­mos as­sim até to­carem seis am­pul­hetas, cav­al­gan­do as on­das de uma ban­da à out­ra da fra­ga­ta; diz o co­man­dante: 

  -A Ro­ca já fi­ca pela popa, fal­ta a Berlen­ga, se o ven­to não es­cassear, have­mos diminuir de pano antes da meia-​noite. 

  Neste mo­men­to veio out­ra on­da imen­sa que fez adornar a fra­ga­ta, até as­sen­tar a trincheira da tol­da na água; quan­do adriçou ou­viu-​se um forte es­ticão; era o es­caler dos tur­cos de es­ti­bor­do, que, enchen­do-​se dela, tin­ha ar­reben­ta­do tal­has e fun­da e lá ia pe­lo mar fo­ra. Gri­ta o homem do leme: 

  -O leme dá mui­ta força, a ro­da não quer an­dar! 

  -Que dizes? 

  -O leme es­tá para­do. 

  -Sen­hor Sil­veira, vá lá abaixo com o mestre e um carpin­teiro ver o que tem o leme.

  Chega o calafate e diz: 

  -Há mui­ta água na bom­ba. 

  -Is­so não é na­da -re­sponde o co­man­dante, sem­pre sen­hor de si -, temos as amar­ras talin­gadas e é água que en­tra pe­los es­cov­éns e ba­te­ria, vai do con­vés à cober­ta e talvez ao porão: toque à bom­ba, se não bastarem duas, toque a to­das qua­tro. 

  Voltou o capitão-​tenente Sil­veira, dizen­do que o leme não gi­ra­va e pare­cia muito afas­ta­do do cadaste. 

  -Dêem tal­has à cabeça e atraquem-​no para vante: vão gov­er­nan­do as­sim, pon­do gente que acuse a voz do pi­lo­to, para an­dar com o leme a bom­bor­do ou es­ti­bor­do. 

  Es­ta situ­ação era na ver­dade hor­rív­el, não de­víamos es­tar meia mil­ha longe da ter­ra e se a fra­ga­ta fi­cas­se sem gov­er­no ia de en­con­tro às pe­dras, sem es­per­ança de sal­vação para ninguém. Davam oito. 

  -Onde es­tá a proa? 

  -Nor-​noroeste por barlaven­to. 

  -En­tão já é oeste? 

  -Sim, sen­hor. 

  -An­dar as­sim, fol­ga­do. Bote a bar­ca. 

  -Oito mil­has. 

  -Bem, daqui a bo­ca­do poder­emos desvele­jar. 

  As re­fre­gas e a pe­dra que chovia não deix­avam ol­har para o hor­izonte, mas os relâm­pa­gos e a enx­ofria do es­car­céu que ala­ga­va a fra­ga­ta bem nos mostra­va a cur­vatu­ra dos mas­tros e dos mas­taréus to­dos a so­taven­to. Nes­ta ocasião vem uma ser­ra de água que alagou o navio to­do, o qual adorme­ceu por mais de um min­uto, cai-​lhe a maior re­fre­ga que ain­da não tín­hamos sen­ti­do, ar­reben­ta o braço do tra­que­te, parte-​se a ver­ga de en­con­tro ao es­tai e fi­ca pen­dura­da pe­los lais­es nos pun­hos do vela­cho. Com es­ta fal­ta de pano à proa a fra­ga­ta adriçou, mas vin­do a ven­to, caiu a ré e deu uma cu­la­pa­da que jul­gá­mos ir lo­go a pique, em­bar­can­do o mar por to­das as ban­das.

  -Car­rega a vela grande, ar­ria gáveas, iça a vela de es­tai do tra­que­te con­tro, con­tro. 

  Tu­do as­sim se fez, a fra­ga­ta ar­ri­bou e tornou a seguir; de­ram seis am­pul­hetas, tín­hamos an­da­do 53 mil­has, es­tá­va­mos ao norte da Berlen­ga! 

  Pas­sa­dos onze dias en­trou a fra­ga­ta em Lis­boa com três home­ns de menos, per­di­dos naque­la noite; al­guns com per­nas, out­ros com braços que­bra­dos e to­da a gente com cara de fome, ten­do an­da­do a um quar­to de ração e um quar­til­ho de água, de­pois de su­por­tar uma tor­men­ta que lhe fez par­tir to­dos os ma­chos do leme, menos o úl­ti­mo de baixo, a ver­ga do tra­que­te, um es