caler de menos, as trincheiras e quase to­do o pano.

  O co­man­dante dela era o Sr. Manuel de Vas­con­ce­los, to­dos os seus ofi­ci­ais er­am sol­da­dos e dis­cípu­los da Academia, menos um, que, fal­tan­do-​lhe o cur­so matemáti­co, tin­ha mui­ta práti­ca e havia en­tra­do de cri­ança para a Mar­in­ha, seguin­do com hon­ra os pos­tos des­de sar­gen­to-​de-​mar-​e-​guer­ra até primeiro-​tenente; este ofi­cial era o bom ca­ma­ra­da França. 

  A PRE­SA

  Pela tarde do dia 19 de Setem­bro de 1820, nave­ga­va a es­cu­na Maria Tere­sa, a so­taven­to da fra­ga­ta União, na cos­ta de An­go­la, em procu­ra de uns corsários que havi­am apre­sa­do difer­entes navios do comér­cio, rouban­do out­ros e pos­to em con­ster­nação os povos daque­la provín­cia, sendo o mais temív­el e afama­do de­les um brigue de vinte peças, bem trip­ula­do e veleiro. O ven­to as­so­pra­va bo­nançoso, a fra­ga­ta menos an­dado­ra do que a es­cu­na, ia fi­can­do a ré e o co­man­dante des­ta, para não pas­sar a proa do out­ro mais anti­go, man­dara atrav­es­sar o vela­cho. 

  Era is­to per­to da baía de Lu­an­go, onde, por práti­ca havi­da com o Ma­fu­ca em Cabin­da, con­sta­va achar-​se o brigue pi­ra­ta. O ven­to foi en­fraque­cen­do e já quase que nem lev­an­ta­va o cataven­to de pe­nas. Fez a fra­ga­ta sinal de força de vela à es­cu­na, o co­man­dante man­dou marear o vela­cho, largar joanete e gafe de tope e içar a gi­ba, seguin­do em de­man­da do an­co­radouro; per­to do pôr do Sol. pôde de­sco­bri-​lo, até que ao anoite­cer deu vista de em­bar­cação nele sur­ta, que pare­cia brigue. A fra­ga­ta fun­deara des­gov­er­na­da e a es­cu­na que era navio fi­no, com as bafa­gens, tin­ha avança­do obra de 12 a 15 mil­has, até que de to­do elas mor­reram, fun­de­an­do tam­bém para não se so­taven­tar. 

  Es­ta­va cal­ma po­dre, o céu leve, o mar es­tanhado; ren­deu-​se o quar­to, puser­am-​se vi­gias do­bradas e to­da a gente fi­cou em cima, co­brindo-​se as ar­mas por causa da cacim­ba. Cor­reram qua­tro am­pul­hetas sem toque de sino, ou gri­ta de «aler­ta», con­ver­san­do o co­man­dante mansa­mente com o ofi­cial ac­er­ca da em­bar­cação sus­pei­ta, quan­do este diz: 

  -Parece-​me que ouço a mo­do de bater de re­mos! 

  -Is­so é son­ho -re­sponde o primeiro -, es­ta­mos doze a quinze mil­has da fra­ga­ta e talvez mais da ter­ra, mas o que for soará, es­cute­mos; de que la­do pare­ceu que re­mavam? 

  -Do la­do da ter­ra, na di­recção donde ao anoite­cer mar­cá­mos o brigue. 

  Chegaram-​se para a trincheira e com efeito ou­vi­ram muito ao longe a bul­ha com­pas­sa­da dos re­mos na água. 

  -Aci­ma gente, aci­ma -diz o co­man­dante -, silên­cio, pe­ga em ar­mas, presto, le­va ru­mor, não quero ou­vir ninguém, pro­lon­ga pela amu­ra­da, es­cor­va, e tu­do es­te­ja pron­to à primeira voz. 

  Es­cu­taram de no­vo, o bater dos re­mos foi-​se perceben­do mel­hor, até que fi­nal­mente se enx­er­gou o vul­to ne­gro da em­bar­cação. Ou­viu-​se o sus­sur­ro de vozes, ces­san­do a bo­ga, e ime­di­ata­mente per­guntarem pela buz­ina em in­glês: 

  -Ó do navio! 

  -Que dirá? -re­spon­der­am na mes­ma lín­gua. 

  -Que navio é esse? 

  -Uma es­cu­na de guer­ra in­gle­sa; que es­caler é esse? 

  -Do brigue es­pan­hol que es­tá fun­dea­do à ter­ra; que em­bar­cações são aque­las que fun­dear­am antes da noite?

  -São da con­ser­va des­ta es­cu­na: ven­ha a bor­do esse es­caler. 

  Ba­teu re­mos, endi­re­itou para a es­cu­na, pro­lon­gou-​se com o por­taló, subiu uma pes­soa que con­duzi­ram à câ­mara; e no en­tan­to saltam dez ou doze home­ns ao es­caler, apoder­am-​se dele e fazem subir a sua guarnição sur