­preen­di­da. Era gente e em­bar­cação do brigue, que com o seu primeiro pi­lo­to vin­ham não se sabe se roubar a es­cu­na, jul­gan­do-​a mer­cante, ou tomar lín­gua, supon­do-​a in­gle­sa: o cer­to foi que os pri­sioneiros puser­am-​se a bom re­ca­to e os por­tugue­ses dispon­do-​se para com­bat­er lo­go que pudessem. 

  Antes do ra­iar da au­ro­ra, começou a sen­tir-​se uma aragem de oeste a oés-​su­doeste; as­sim que calou diz o co­man­dante: 

  -Mestre! Va­mos a sus­pender, na­da de api­to e acusem as vozes de­va­gar: chega para as bar­ras, va­mos, vi­ra de lon­go, pou­ca bul­ha, que lo­go ter­emos ocasião de falar al­to. 

  Começaram a vi­rar ao cabrestante, sentin­do-​se ape­nas o baque dos linguetes, até que o mestre disse da proa: 

  -Es­tá a pique!

  O co­man­dante sobe ao de­grau de es­ti­bor­do e diz: 

  -Caça o vela­cho, iça a vela grande, iça a bu­jar­rona, larga as car­regadeiras do tra­que­te; ala tra­que­te e vela­cho a es­ti­bor­do, iça bem a pique; vol­ta; vi­ra ao cabrestante, de lon­go. 

  Pôs-​se o fer­ro em cima, a es­cu­na fez cabeça e foi puxan­do para o ló quan­to lhe da­va o ven­to, fazen­do proa do sul, quar­ta do sueste, onde lhe de­mor­ava o brigue ao anoite­cer. 

  De­spon­tou o sol claro e viu-​se en­tão o pi­ra­ta, que es­ta­va en­ver­gan­do a vela grande; lo­go que con­cluiu es­ta faina, caçou gáveas e joanetes que tin­ha içadas, largou a amar­ração nu­ma lan­cha que tin­ha à bor­da e deitou em cheio para a es­cu­na, force­jan­do até com as ve­las de en­tre mas­tros, para travar com­bate antes que a fra­ga­ta pudesse pro­tegê-​la. Pelas nove ho­ras acha­va-​se à fala, porém a barlaven­to, pois nave­ga­va largo e a es­cu­na de boli­na. Um homem de casaca, em pé na trincheira, diz com grande ar­rogân­cia:

  -Mande-​me já o es­caler para bor­do e o meu ofi­cial, senão meto-​o no fun­do. 

  Es­ta ameaça foi segui­da de in­júrias, mostran­do os mor­rões ace­sos e mui­ta gente de taifa, ar­riban­do, lo­go após, co­mo que para abor­dar a es­cu­na. O co­man­dante des­ta evi­tou o golpe, ace­nan­do ao homem do leme que orçasse e dizen­do:

  -Fo­go! 

  To­da a ar­til­haria se dis­parou a um tem­po e a es­cu­na pôs no out­ro bor­do. Do brigue re­spon­der­am igual­mente e mais uma descar­ga de fuzi­lar­ia, porém o seu fo­go não pro­duz­iu o efeito que era de es­per­ar, achan­do-​se a es­cu­na já em di­recção oblíqua, ao mes­mo tem­po que to­dos os tiros dela fiz­er­am grande es­tra­go ao in­imi­go, que tin­ha cometi­do o er­ro de começar a acção com to­do o seu pano largo. Muitos ca­bos se lhe cor­taram, braços e es­tingues, prin­ci­pal­mente os do tra­que­te, que fi­cou em­pan­deira­do, fazen­do porém muito fo­go em grande des­or­dem e alar­ido. O co­man­dante da es­cu­na, aprovei­tan­do-​se daque­le de­scui­do, deixou-​se ficar um pouco a ré do brigue, e daí o ba­teu a pon­to de que, às dez ho­ras, ele ar­riou a sua ban­deira es­pan­ho­la, em con­se­quên­cia dos muitos feri­dos e grande avaria que já tin­ha na mas­treação.

  Ces­sara o fo­go da es­cu­na, tam­bém mal­trata­da e com dezas­seis feri­dos, começan­do a saltar gente ao es­caler apre­sa­do para se apoder­ar do brigue, quan­do este, ten­do-​a pe­lo través, iça no­va­mente a ban­deira e rompe num fo­go vivís­si­mo. A es­ta traição in­es­per­ada os por­tugue­ses en­fure­cem-​se, o co­man­dante manobra opor­tu­na­mente e dá a voz de fo­go. 

  -Fo­go al­to ao ar­vore­do; ala tra­que­te e vela­cho, larga as es­pin­gar­das, fir­ma as pon­tarias. 

  Os tiros em­pregam-​se to­dos, de parte a parte havia a mes­ma von­tade, porém a es­cu­na gan­hara mel­hor posição, e tão bem tu­do se ex­ecutou que o pi­ra­ta, de