go quan­do can­tar o api­to. 

  O mestre api­tou para a gávea grande. 

  -Sen­hor? 

  -Cute­lo e pau den­tro. 

  Api­tou para a de proa. 

  -Sen­hor? 

  -Cute­los e pau den­tro, à uma: obras da barredoira, ca­bos da vela grande e do tra­que­te; es­tá tu­do pron­to. 

  -Apite. 

  Api­tou, car­regou-​se tu­do co­mo por en­can­ta­men­to, fi­can­do a corve­ta em gáveas e joanetes. En­tão aprox­imou-​se a fra­ga­ta que, ao pro­lon­gar-​se com a corve­ta a tiro de pis­to­la, car­regou pa­pa-​fi­gos e joanetes, dizen­do-​se de seu bor­do em es­pan­hol: 

  -Ó da corve­ta, ar­ria a tua ban­deira, que es­ta fra­ga­ta é france­sa e de quarenta e qua­tro peças. 

  O co­man­dante re­spon­deu-​lhe: 

  -Es­ta corve­ta é por­tugue­sa, não ar­ria a ban­deira a ninguém; ar­ria tu a tua. 

  -Ar­ria (dizem de lá) que não te faço mal, senão meto-​te no fun­do. 

  -Não ar­rio: fo­go! 

  To­da a ar­til­haria se dis­parou ao mes­mo tem­po, a corve­ta parece que saltou fo­ra da água, enchen­do-​se de fu­mo. 

  -Fo­go à von­tade, fo­go, mas vi­vo, vi­vo. 

  Com efeito era um nun­ca acabar; da fra­ga­ta co­mo que tar­daram três ou qua­tro min­utos, porém rompeu com uma descar­ga ger­al, con­tin­uan­do o fo­go por brigadas in­teiras. Da corve­ta sus­ten­ta­va-​se ad­mi­rav­el­mente, sem grande pre­juí­zo; porque, sendo pe­que­na e rasa e a fra­ga­ta al­terosa, e es­tando além dis­to a to­car-​se com os lais das ver­gas, fi­ca­va ela de­baixo da ba­te­ria, cu­jas pon­tarias sal­vavam a bor­da, não lhe ofend­en­do o cas­co e em­pre­gan­do-​se to­da a mu­nição no ar­vore­do. De mais a mais, o fu­mo que se tin­ha con­den­sa­do pe­lo pouco ven­to ou cal­ma que reina­va en­co­bria a corve­ta, ocul­tan­do a sua ver­dadeira posição ao in­imi­go. 

  As­sim se bat­er­am por es­paço de cin­co quar­tos de ho­ra que, sendo per­to das oito, já os mas­taréus e ver­gas em­pachavam o con­vés, fi­can­do to­da des­man­te­la­da. O co­man­dante, ven­do diminuir o fo­go, diz para o capitão-​tenente: 

  -Sen­hor Sil­va, porque afrouxa o fo­go? Es­sa briga­da do por­taló es­tá muito mal servi­da! 

  -Não pode es­tar mel­hor, sen­hor, ven­ha ver; a vela grande, a gávea e ca­bos de joanete tu­do aqui veio cair, que ninguém é ca­paz de mover uma peça e à proa acon­tece o mes­mo; a von­tade não fal­ta, ninguém daqui arredou pé, mas tu­do es­tá em­pacha­do. 

  -Es­ta é boa, en­tão vis­to is­so não pode jog­ar a ar­til­haria? 

  -Não, sen­hor. 

  -Es­tá bem, le­va mão, chega tu­do cá para ré; es­tá tu­do? 

  -Sim, sen­hor! 

  -Bem. Temos cumpri­do a nos­sa obri­gação, en­quan­to 

  as peças pud­er­am jog­ar, to­dos tra­bal­haram, ago­ra que o con­vés es­tá em­pacha­do com o pano, ca­bos e ver­gas, na­da se pode faz­er; a nos­sa ban­deira vai ar­ri­ar-​se, porém creio que is­so nos não causará ver­gonha: agradeço à guarnição e mais ca­ma­radas o mo­do por que se con­duzi­ram; as­sim era de es­per­ar de por­tugue­ses. Sen­hor Sil­va, ar­rie a ban­deira. 

  Da fra­ga­ta falaram: 

  -Ven­ha a bor­do o es­caler com o co­man­dante. 

  -Não é pos­sív­el porque to­dos es­tão ar­rom­ba­dos. 

  De­mor­ou-​se al­gum tem­po, vin­do por fim um da fra­ga­ta com o seu ime­di­ato para capitão de pre­sa, o qual para en­trar o por­taló se de­mor­ou bas­tante, sendo mis­ter acabar de cor­tar a vela grande que o co­bria. Em­bar­cou o co­man­dante e ofi­ci­ais subi­ram para a fra­ga­ta; e quan­do, ao en­trar na tol­da, aque­le foi en­tre­gar a es­pa­da ao co­man­dante in­imi­go, este, ofer­ecen­do-​lhe a mão, diz-​lhe: 

  -Um ofi­cial que se bate com tan­ta hon­ra não deve largar a es­pa­da; sois um v