a­lente e há­bil mar­in­heiro, vin­de comi­go e o vos­so es­ta­do-​maior. 

  Con­duz­iu-​os à câ­mara, e ali, di­rigin­do-​se a to­da a sua ofi­cial­idade, diz-​lhe: 

  -Con­vi­do-​vos a be­ber um copo de mosca­tel à saúde deste bra­vo co­man­dante e de to­da a sua in­trép­ida guarnição; con­fes­sai que nen­hum de vós, nem eu, es­perá­va­mos de navio tão pe­queno taman­ha temeri­dade. 

  Be­ber­am to­dos, e ele, pe­gan­do noutra gar­rafa, con­tin­uou: 

  -Quem visse uma corve­ta ao pé de uma fra­ga­ta não daria na­da por ela; porém, de­pois de pres­en­ciar o com­bate que sus­ten­tou, hon­rar-​se-​ia da acção; é por is­so que de no­vo vos con­vi­do a be­ber um copo de Madeira à saúde do sober­ano que gov­er­na o país cu­jos cidadãos o sabem de­fend­er tão bem. 

  O co­man­dante da corve­ta, pedin­do li­cença para agrade­cer, be­beu e repetiu o brinde pela glória das ar­mas france­sas e con­clusão de paz ger­al. 

  Ao aman­hecer, via-​se a corve­ta ape­nas em paus reais, co­mo um bote, ao pé da fra­ga­ta, com to­do o seu pano e apar­el­ho por cima da bor­da ar­rom­ba­da, ou de ro­jo na água, ad­mi­ran­do-​se to­dos de não ter ido a pique. For­mou-​se a guarnição, amar­raram dezas­seis mar­in­heiros e sol­da­dos às cu­la­tras das peças, dizen­do-​lh­es o co­man­dante: 

  -Vão ser cas­ti­ga­dos na pre­sença dos seus in­imi­gos para maior ver­gonha; são uns co­bardes. E vi­ran­do-​se para o co­man­dante da corve­ta:

  -Não são france­ses, nem quero saber a sua pá­tria; estes vis aban­donaram a ba­te­ria à primeira ban­da com que vós re­spon­destes à min­ha in­ti­mação; fo­go, e ri­jo, que lh­es ras­guem bem as carnes. 

  Ca­da um lev­ou cem açoites, de­pois do que disse aos por­tugue­ses: 

  -Na ver­dade, ninguém es­per­ava semel­hante ar­ro­jo da vos­sa parte! 

  -Era min­ha obri­gação -re­sponde o co­man­dante. Os nos­sos ar­ti­gos de guer­ra man­dam que a ban­deira não se ar­rie senão na úl­ti­ma ex­trem­idade, e o ca­so ex­tremo só chegou uma ho­ra de­pois. 

  -Mas se eu vos metesse a pique? 

  -Lá es­ta­va a pos­teri­dade. 

  Recol­heu-​se à câ­mara com o es­ta­do-​maior, fez con­sel­ho ac­er­ca da sorte da corve­ta, haven­do opiniões de a me­ter no fun­do, ou queimá-​la, sendo im­pos­sív­el dar-​lhe um des­ti­no con­ve­niente; porém, ocor­reu a ideia de que, in­do a fra­ga­ta de ca­bos aden­tro, taman­ho acrésci­mo de gente causaria em­baraço na lon­ga vi­agem, por fal­ta de man­ti­men­tos. Por­tan­to, con­cluíram por tirar-​lhe as ar­mas e ape­tre­chos, en­tre­gan­do-​a à guarnição se quisesse ca­pit­ular, prom­etendo não pe­gar em ar­mas con­tra a França até ser tro­ca­da, ou à con­clusão da paz. Is­to pro­pos­to e aceite, pas­saram os france­ses a bor­do da corve­ta, lançaram-​lhe a ar­til­haria ao mar, recol­hen­do na fra­ga­ta ban­deiras, pólvo­ra, ar­mas, mu­nições, car­tas, in­stru­men­tos béli­cos e náu­ti­cos, deixan­do ape­nas uma só ban­deira, uma ag­ul­ha e um oi­tante de pau para procu­rarem a ter­ra. 

  Duas se­manas de­pois en­tra­va na Baía um pe­queno navio de três mas­tros, em guin­dolas, cheio de rom­bos, sem ar­til­haria, mas de flâ­mu­la, surgin­do no an­co­radouro dos navios de guer­ra, com ger­al es­pan­to dos marí­ti­mos daque­la cidade! Era a corve­ta An­dor­in­ha, de vinte e qua­tro caron­adas de 18, e cen­to e vinte praças de guarnição, cu­jo co­man­dante, o in­trépi­do In­ácio da Cos­ta Quin­tela, tin­ha ti­do a au­dá­cia de a ex­por por es­paço de cin­co quar­tos de ho­ra ao fo­go da fra­ga­ta france­sa Chif­fone, de 44; e que, ba­ten­do-​se den­odada­mente com forças tão dis­paratadas, soube con­ser­var a hon­r