Zeimoto dá Primeira Espingarda aJqt„ReÀReÀTEXtREAdÿÿÿ& ®¼¼ ¼0¼@¼P¼`¼p¼€¼¼ ¼¼p Title: Zeimoto dá Primeira Espingarda aos Japões "Peregrinação" Author: Fernão Mendes Pinto CreationDate: Thu Jul 30 11:23:00 BST 2009 ModificationDate: Wed Mar 04 13:00:00 GMT 1970 Genre: Description: Zeimoto dá Primeira Espingarda aos Japões "Peregrinação" Fernão Mendes Pinto A publicação dos capítulos 132 a 135, 214 e 226 do livro Peregrinação, foi gentilmente autorizada por Maria Alberta Menéres. © 1998, Maria Alberta Menéres e Parque EXPO 98. S.A. ISBN 972-8396-42-2 Lisboa, Março de 1998 Versão para dispositivos móveis: 2009, Instituto Camões, I.P. *** ZEIMOTO DÁ PRIMEIRA ESPINGARDA AOS JAPÕES Como nos partimos desta cidade de Uzangué, e do que nos aconteceu até Chegarmos à ilha de Tanixumá, que é a primeira terra do Japão Com o alvoroço e contentamento que se pode imaginar que teríamos ao cabo de tantos trabalhos e desventuras como até então tínhamos passado, de que por então nos víamos livres, nos partimos desta cidade de Uzangué, aos doze dias do mês de Janeiro, e fizemos nosso caminho por um grande rio de água doce, de mais de uma légua em largo, levando a proa a diversos rumos por causa das voltas que o rio fazia, vendo sempre por espaço de sete dias que por ele corremos, muitos e muito nobres lugares, tanto vilas como cidades, que, segundo o aparato de fora, parecia que deviam ser povos muito ricos, pela sumptuosidade dos edifícios que neles se viam, tanto de casas particulares como de templos com coruchéus cobertos de ouro, e pela grande multidão de embarcações de remo que ali se viam com toda a sorte de mercadorias e mantimentos em muita abundância. Chegando nós a uma cidade muito nobre a que chamavam Quangeparu, que teria quinze ou vinte mil vizinhos, o naudelum, que era o que por mandado do rei nos levava, se deteve nela doze dias, fazendo sua veniaga com os da terra, a troco de prata e de pérolas, em que nos confessou que de um fizera catorze, mas que se levasse sal, se não contentaria com dobrar o dinheiro trinta vezes. Nesta cidade nos afirmaram que tinha el-rei de renda todos os anos, só das minas de prata, dois mil e quinhentos picos, que são quatro mil quintais, e fora esta renda tem outras muitas de muitas coisas diferentes. Esta cidade não tem mais força para a sua defesa, que um só fraco muro de tijolo de oito palmos dos meus, de largo, e uma cava de cinco braças de largo e sete palmos de fundo. Os moradores dela são gente fraca e desarmada, nem tem artilharia nem coisa que possa prejudicar quaisquer bons soldados que a acometerem. Daqui nos partimos uma terça-feira pela manhã, e continuámos por nossa rota mais treze dias, no fim dos quais chegámos ao porto de Sanchão, no reino da China, que é a ilha onde depois faleceu o bem-aventurado padre mestre Francisco, como adiante se dirá. E não achando ali já a este tempo navio de Malaca, por haver nove dias que eram partidos, nos fomos a outro porto mais adiante sete léguas, de nome Lampacau, onde achámos dois juncos da costa do Malaio, um de Patane e outro de Lugor. E como a natureza desta nossa nação portuguesa é sermos muito afeiçoados a nossos pareceres, houve aqui entre nós oito tanta diferença e desconformidade de opiniões sobre uma coisa em que o que mais nos valia era termos muita paz e concórdia, que quase nos houvéramos de vir a matar uns aos outros, de maneira que por ser assaz vergonhoso contar o que se passou, não direi mais senão que o necodá da lorcha que ali nos trouxe de Uzangué, espantado deste nosso barbarismo, se partiu muito enfadado, sem querer levar carta nem recado nosso que nenhum de nós lhe desse, dizendo que antes queria que el-rei por isso lhe mandasse cortar a cabeça, que ofender a Deus em levar coisa nossa onde ele fosse. E assim diferentes e mal-avindos, ficámos aqui nesta pequena ilha mais nove dias, em que os juncos ambos se partiram, sem também nenhum deles nos querer levar consigo, pelo que nos foi forçoso ficar ali metidos no mato, arriscados a muitos e grandes perigos, dos quais ponho em muita dúvida podermos escapar, se Deus Nosso Senhor se não lembrasse de nós, porque havendo já dezassete dias que aqui estávamos em grande miséria e esterilidade, veio ali por acaso surgir um corsário de nome Samipocheca, que vinha desbaratado, fugindo da armada do aitau do Chinchéu, que, de vinte e oito barcos que tinha, lhe tomara vinte e seis, e ele lhe escapara com somente aquelas duas que trazia consigo, nas quais trazia a maior parte da gente muito ferida, pelo que lhe foi forçoso deter-se ali vinte dias para que a curasse. E a nós os oito, constrangidos pela necessidade, nos foi forçoso assentarmos partido com ele para que nos levasse consigo por onde quer que fosse, até que Deus nos melhorasse noutra embarcação mais segura e que nos fôssemos para Malaca. Passados estes vinte dias em que os feridos se curaram, sem em todo este tempo haver entre nós reconciliação da desavença passada, nos embarcámos ainda assim mal-avindos, com este corsário, três no junco em que ele vinha, e cinco no outro de que era capitão um seu sobrinho, e partidos daqui para um porto que se chamava Lailó, adiante de Chinchéu sete léguas, e desta ilha oitenta, seguimos por nossa rota com ventos bonançosos ao longo da costa de Lamau, por espaço de nove dias. E sendo uma manhã quase noroeste-sueste com o rio do sal, que está abaixo do Chabaqué cinco léguas, nos acometeu um ladrão com sete juncos muito alterosos, e pelejando connosco das seis horas da manhã até às dez, em que tivemos uma briga assaz travada de muitos arremessos, tanto de lanças como de fogo, por fim se queimaram três barcos, dois do ladrão e um dos nossos, que foi o junco em que iam os cinco portugueses, a que por nenhuma via pudemos ser bons, por já a este tempo termos a maior parte da gente ferida. E refrescando-nos sobre a tarde a viração, prouve a Nosso Senhor que lhes fugimos e escapámos das suas mãos. E continuando a nossa viagem assim destroçados como íamos, mais três dias, nos deu um temporal de vento esgarrão por cima da terra tão impetuoso que naquela mesma noite a perdemos de vista, e como então já a não podíamos tornar a tomar, nos foi forçoso arribarmos em popa à ilha dos léquios onde este corsário era muito conhecido, tanto do rei como da outra gente da terra; e navegando nós com esta determinação por este arquipélago de ilhas adiante, como neste tempo não levávamos piloto, por nos ter sido morto na briga passada, e os ventos nordestes nos eram ponteiros, e as águas corriam muito contra nós, bordejámos às voltas de um rumo no outro vinte e três dias com assaz de trabalho, no fim dos quais prouve a Nosso Senhor que vimos terra, e chegando-nos bem a ela para vermos se dava de si alguma mostra de angra ou porto de bom surgidouro, lhe enxergámos da parte do sul, quase ao horizonte do mar, um grande fogo, por onde imaginámos que devia ser povoada de alguma gente que por nosso dinheiro nos provesse de água, de que vínhamos faltos, E surgindo nós no rosto da ilha, em setenta braças, nos saíram da terra duas almadias pequenas em que vinham seis homens, os quais chegando a bordo, depois de nos fazerem suas salvas e cortesias a seu modo, nos perguntaram donde vinha o junco, a que se respondeu que da China, com mercadorias para se fazer ali veniaga com eles, se para isso nos dessem licença. Um dos seis nos respondeu que a licença, o nautarel senhor daquela ilha Tanixumá, a daria de boa vontade se lhe pagássemos os direitos que se costumavam pagar no Japão, que era aquela grande terra que defronte nos aparecia. E com isto nos deu relação de tudo o mais que nos convinha, e nos mostrou o porto onde havíamos de ir surgir. Nós, com este alvoroço, levantámos logo as amarras e nos fomos com o batel pela proa, meter em uma calheta que a terra fazia da banda do sul, onde estava uma grande povoação a que chamavam Miaygimá, da qual logo nos vieram a bordo muitos paraus com refresco que lhes comprámos. Como desembarcámos nesta ilha de Tanixumá, e do que passámos com o senhor dela Não havia ainda bem duas horas que estávamos surtos nesta calheta de Miaygimá, quando o nautaquim, príncipe desta ilha de Tanixumá, veio ao nosso junco acompanhado de muitos mercadores e de gente nobre, com grande soma de caixões cheios de prata para fazer fazenda. E depois de se fazerem de parte a parte as cortesias costumadas, e ele ter seguro para se poder chegar a nós, se chegou logo, e vendo-nos aos três portugueses, perguntou que gente éramos, porque na diferença do rosto e barbas, entendia que não éramos chins. O capitão corsário lhe respondeu que éramos de uma terra que se chamava Malaca, para onde havia muitos anos tínhamos vindo de outra a que chamavam Portugal, cujo rei, segundo nos tinha ouvido algumas vezes, habitava no cabo da grandeza do mundo. Do que o nautaquim fez um grande espanto e disse para os seus que estavam presentes: -Que me matem, se não são estes os chenchicogins de que está escrito em nossos volumes que voando por cima das águas, têm senhoriado ao longo delas os habitadores das terras onde Deus criou as riquezas do mundo, pelo que nos cairá em boa sorte se eles vierem a esta nossa com título de boa amizade. E chamando então para junto de si, sua mulher léquia, que era a intérprete por quem se entendia com o capitão chim, senhor do junco, lhe disse: -Pergunta ao necodá onde achou estes homens, ou com que título os traz consigo a esta nossa terra do Japão. Ao que respondeu que sem falta nenhuma éramos mercadores e gente boa, e que por nos achar perdidos em Lampacau, nos recolhera para nos ajudar com suas esmolas, como tinha por costume fazer a outros que já assim achara, para que Deus permitisse livrá-lo a ele das adversidades impetuosas que cursavam por cima do mar, com as quais se perdiam os navegantes. Ao nautaquim pareceram tão boas estas razões do corsário, que entrou logo no junco e mandou aos seus que por serem muitos não entrassem mais que os que ele dissesse. E depois de andar vendo todas as particularidades do junco, tanto da popa como da proa, se sentou numa cadeira junto da tolda, e nos esteve inquirindo de algumas coisas particulares que desejou saber de nós, a que respondemos ao gosto que nele enxergámos, de que ele mostrava muito contentamento. Nestas práticas se gastou connosco um grande espaço, mostrando em todas as suas perguntas ser homem curioso e inclinado a coisas novas, e se despediu de nós e do necodá chim, que dos mais não fez muito caso, dizendo: -Amanhã ide ver-me a minha casa, e levai-me um grande presente de novas desse grande mundo por onde andastes e das terras que tendes visto, e como se chamam, porque vos afirmo que essa só mercadoria comprarei mais a meu gosto que todas as outras. E com isto se tornou para terra. E quando ao outro dia foi manhã clara, nos mandou ao junco um grande parau de refresco, em que entravam uvas, peras, melões, e toda a sorte de hortaliça que há nesta terra, com cuja vista demos muitas graças e louvores a Nosso Senhor. O necodá do junco lhe mandou pelo mensageiro algumas peças ricas e brincos da China, em retorno do refresco, e lhe mandou dizer que quando o junco ancorasse no surgidouro onde estivesse seguro do tempo, o iria logo ver a terra e levar-lhe as amostras da fazenda que trazia para vender. E ao outro dia, logo que foi manhã, desembarcou em terra e nos levou consigo a todos três, com mais dez ou doze chins, os que lhe pareceram mais graves e autorizados em suas pessoas, quais os ele queria para o ornamento desta primeira visita, em que esta gente costuma mostrar-se com muita vaidade. Chegando nós a casa do nautaquim, fomos todos muito bem recebidos por ele, e o necodá lhe deu um bom presente, e após isto lhe mostrou as amostras de toda a sorte de fazenda que trazia, de que ele ficou satisfeito e mandou logo chamar os principais mercadores da terra, com os quais se tratou do preço dela, e concertados nele se assentou que ao outro dia se trouxesse a uma casa que mandou dar ao necodá, em que se agasalhasse com a sua gente até se tornar para a China. Isto ordenado, o nautaquim tornou de novo a praticar connosco e a perguntar-nos por muitas coisas miudamente, a que respondemos mais conforme ao gosto que nele víamos, que não ao que realmente era verdade, mas isto foi em certas perguntas em que foi necessário ajudarmo-nos de algumas coisas fingidas, para não desfazermos o crédito que ele tinha desta nossa pátria. A primeira foi dizer-nos que lhe tinham dito os chins e léquios, que Portugal era muito maior em quantidade tanto de terra, como de riqueza, que todo o império da China, o que nós lhe concedemos. A segunda, que também lhe tinham certificado que tinha o nosso rei subjugado por conquista de mar, a maior parte do mundo, o que também dissemos que era verdade. A terceira, que era tão rico o nosso rei, de ouro e de prata, que se afirmava que tinha mais de duas mil casas cheias até ao telhado, e a isto respondemos que do número de duas mil casas, nos não certificávamos, por ser a terra e o reino em si tamanho, e ter tantos tesouros e povos, que era impossível poder-se dizer-lhe a certeza disso. E nestas perguntas e em outras desta maneira, nos deteve mais de duas horas, e disse para os seus: -É certo que se não deve de haver por ditoso nenhum rei de quantos agora sabemos na terra, senão só o que for vassalo de tamanho monarca como é o imperador desta gente. E despedindo o necodá com toda a sua companhia, nos rogou que quiséssemos ficar aquela noite com ele em terra, porque se não fartava de nos perguntar muitas coisas do mundo, a que era muito inclinado, e que pela manhã nos mandaria dar umas casas em que pousássemos junto com as suas, por ser o melhor lugar da cidade, o que nós fizemos de boa vontade, e nos mandou agasalhar com um mercador muito rico que nos banqueteou muito largamente, tanto nesta noite como em doze dias mais que pousámos com ele. Da honra que o nautaquim fez a um dos nossos por o ver atirar com uma espingarda, e do que daí sucedeu Logo ao outro dia seguinte, este necodá chim desembarcou em terra toda a sua fazenda como o nautaquim lhe tinha mandado, e a meteu numas boas casas que para isso lhe deram, a qual fazenda toda se vendeu em três dias, tanto por ser pouca como porque estava a terra falta dela, na qual este corsário fez tanto proveito que de todo ficou restaurado da perda dos vinte e seis barcos que os chins lhe tomaram, porque pelo preço que ele queria pôr na fazenda, lha tomavam logo, de maneira que nos confessou ele que com só dois mil e quinhentos taéis que levava de seu, fizera ali mais de trinta mil. Nós os três portugueses, como não tínhamos veniaga em que nos ocupássemos, gastávamos o tempo em pescar e caçar, e ver templos dos seus pagodes que eram de muita majestade e riqueza, nos quais os bonzos, que são os seus sacerdotes, nos faziam muito gasalhado, porque toda gente do Japão é naturalmente muito bem inclinada e conversadora. No meio desta nossa ociosidade, um dos três que éramos, de nome Diogo Zeimoto, tomava algumas vezes por passatempo atirar com uma espingarda que tinha de seu, a que era muito inclinado, e na qual era assaz destro. E acertando um dia de ir ter a um paul onde havia grande soma de aves de toda a sorte, matou nele com a munição, umas vinte e seis marrecas. Os japões, vendo aquele novo modelo de tiros que nunca até então tinham visto, deram rebate disso ao nautaquim que neste tempo andava vendo correr uns cavalos que lhe tinham trazido de fora, o qual espantado desta novidade, mandou logo chamar o Zeimoto ao paul onde estava caçando, e quando o viu vir com a espingarda às costas, e dois chins carregados de caça, fez disto tamanho caso que em todas as coisas se lhe enxergava o gosto do que via, porque como até então naquela terra nunca se tinha visto tiro de fogo, não sabiam determinar o que aquilo era, nem entendiam o segredo da pólvora, e assentaram todos que era feitiçaria. O Zeimoto, vendo-os tão pasmados e o nautaquim tão contente, fez perante eles três tiros em que matou um milhano e duas rolas, e para não gastar palavras no encarecimento deste negócio, e para escusar de contar tudo o que se passou nele, porque era coisa para se não crer, não direi mais senão que o nautaquim levou o Zeimoto nas ancas de um cavalo em que ia, acompanhado de muita gente, e quatro porteiros com bastões ferrados nas mãos, os quais bradando ao povo que era neste tempo sem conto, diziam: -O nautaquim, príncipe desta ilha de Tanixumá e senhor de nossas cabeças, manda e quer que todos vós outros, e assim os mais que habitam a terra de entre ambos os mares, honrem e venerem este chenchicogim do cabo do mundo, porque de hoje por diante o faz seu parente, assim como os facharões que se sentam junto de sua pessoa, sob pena de perder a cabeça o que isto não fizer de boa vontade. A que todo o povo respondia: -Assim se fará para sempre. E chegando o Zeimoto com esta pompa mundana ao primeiro terreiro dos paços, descavalgou o nautaquim e o tomou pela mão, ficando nós os dois um bom espaço atrás, e o levou sempre junto de si até uma casa onde o sentou à mesa consigo, na qual também para lhe fazer a maior honra de todas, quis que dormisse aquela noite, e sempre dali por diante o favoreceu muito, e a nós por seu respeito, em alguma maneira. E entendendo então o Diogo Zeimoto que em nenhuma coisa podia melhor satisfazer ao nautaquim alguma parte destas honras que lhe fizera, e que nada lhe daria mais gosto que lhe dar a espingarda, lha ofereceu um dia que vinha da caça com muita soma de pombas e rolas, a qual ele aceitou por peça de muito preço e lhe afirmou que a estimava muito mais que todo o tesouro da China, e lhe mandou dar por ela mil taéis de prata, e lhe rogou muito que o ensinasse a fazer a pólvora, porque sem ela ficava a espingarda sendo um pedaço de ferro desaproveitado, o que o Zeimoto lhe prometeu e lho cumpriu. E como dali por diante o gosto e passatempo do nautaquim era no exercício desta espingarda, vendo os seus que em nenhuma coisa o podiam contentar mais que naquela de que ele mostrava tanto gosto, ordenaram mandar fazer, por aquela, outras do mesmo teor, e assim o fizeram logo. De maneira que o fervor deste apetite e curiosidade foi dali por diante em tamanho crescimento que já quando dali nos partimos, que foi dali a cinco meses e meio, havia na terra passante de seiscentas. E depois a derradeira vez que me lá mandou o Vice-Rei D. Afonso de Noronha, com um presente para o rei do Bungo, que foi no ano de 1556, me afirmaram os japões que naquela cidade do Fuchéu, que é a metrópole deste reino, havia mais de trinta mil. E fazendo eu disto grande espanto, por me parecer que não era possível que esta coisa fosse em tanta multiplicação, me disseram alguns mercadores, homens nobres e de respeito, e mo afirmaram com muitas palavras, que em toda a ilha do Japão havia mais de trezentas mil espingardas, e que eles somente tinham levado de veniaga para os léquios, em seis vezes que lã tinham ido, vinte e cinco mil. De modo que por esta só que o Zeimoto aqui deu ao nautaquim, com boa tenção e por boa amizade, e para lhe satisfazer parte das honras e mercês que tinha recebido dele, como atrás fica dito, se encheu a terra delas em tanta quantidade que não há já aldeia nem lugar por pequeno que seja, donde não saiam de cento para cima, e nas cidades e vilas mais notáveis, não se fala senão por muitos milhares delas. E por aqui se saberá que gente esta é, e quão inclinada por natureza ao exercício militar no qual se deleita mais que todas as outras nações que agora se sabem. Como este nautaquim me mandou mostrar ao rei do Bungo, e do que vi e passei até chegar onde ele estava Havendo já vinte e três dias que estávamos nesta ilha de Tanixumá, descansados e contentes, passando o tempo em muitos desenfadamentos de pescarias e caças a que estes japões comummente são muito inclinados, chegou a este porto uma nau do reino de Bungo, em que vinham muitos mercadores, os quais desembarcando em terra foram logo visitar o nautaquim com seus presentes, como têm por costume. Entre estes, vinha um homem velho e bem acompanhado, e a quem todos os outros falavam com acatamento, o qual posto de joelhos diante do nautaquim, lhe deu uma carta, e um rico terçado guarnecido de ouro, e uma boceta cheia de abanos, que o nautaquim tomou com grande cerimónia. E depois de estar com ele um grande espaço perguntando-lhe por algumas particularidades, leu a carta para si e entendendo a substância dela, ficou algum tanto mais carregado, e despedindo de si o que lha trouxera, mandando-o agasalhar honradamente, nos chamou para junto de si e acenou ao intérprete que estava um pouco mais afastado, e nos disse por ele: -Rogo-vos muito, amigos meus, que ouçais esta carta que me agora deram, de el-rei do Bungo, meu senhor e tio, e então vos direi o que quero de vós. E dando-a a um seu tesoureiro, lhe mandou que a lesse, a qual dizia assim: <> Depois de lida esta carta, nos disse o nautaquim: -Este rei do Bungo é meu senhor e meu tio, irmão de minha mãe, e sobretudo é meu bom pai, e ponho-lhe este nome porque o é de minha mulher, pelas quais razões me tem tanto amor como aos seus mesmos filhos, e eu, pela grande obrigação que por isto lhe tenho, vos certifico que estou tão desejoso de lhe fazer a vontade, que dera agora grande parte da minha terra para que Deus me fizera um de vós outros, tanto para o ir ver como para lhe dar este gosto que eu entendo, pelo muito que sei da sua condição, que ele estimará mais que todo o tesouro da China. E já que de mim tendes entendida esta vontade, vos rogo muito que conformeis a vossa com ela, e que queira um de vós ambos ir a Bungo ver este rei que eu tenho por pai e senhor, porque estoutro a que dei nome e ser de parente não o hei-de apartar de mim até que de todo me não ensine a atirar como ele. Nós os dois, Cristóvão Borralho e eu, lhe respondemos que beijávamos as mãos de sua alteza pela mercê que nos fazia em se querer servir de nós, e já que nisso mostrava gosto, ordenasse qual de nós queria que fosse, porque se iria logo fazer prestes, ao que ele depois de estar um pouco pensativo na deliberação da escolha, apontando para mim, respondeu: -Este, que é mais alegre e menos sisudo, para que agrade mais aos japões e desmelancolize o enfermo, porque gravidade pesada como a destoutro, entre doentes não serve de mais que para causar tristeza e melancolia, e acrescentar o fastio a quem o tiver. E gracejando com os seus sobre esta matéria, com alguns ditos e galantarias a que naturalmente são muito inclinados, chegou o Fingeandono, ao qual me ele logo entregou com palavras de muito encarecimento acerca da segurança de minha pessoa, de que eu me tive por muito satisfeito, e fiquei fora de alguns receios que antes se me apresentavam, pelo pouco conhecimento que até então tinha desta gente, e me mandou dar duzentos taéis para o caminho, com os quais me fiz prestes o mais depressa que pude, e nos partimos, o Fingeandono e eu, em uma embarcação de remo a que eles chamam funce. E atravessando em uma só noite daqui desta ilha de Tanixumá, fomos amanhecer no rosto da terra, em uma angra de nome Hiamangó, e daí a uma boa cidade a que chamavam Quangixumá, e, velejando assim por nossa rota com monção tendente de ventos bonançosos, chegámos ao outro dia a um lugar nobre de nome Tanorá, e deste fomos ao outro dia dormir a outro que se chamava Minato, e daí a Fiungá. E fazendo assim nossos pousos em terra cada dia, onde nos províamos de bons refrescos, chegámos a uma fortaleza de el-rei do Bungo, chamada Osquy, a sete léguas da cidade, na qual fortaleza este Fingeandono se deteve dois dias porque o capitão dela que era seu cunhado, estava muito doente. Aqui deixou a embarcação em que tínhamos vindo e nos fomos por terra para a cidade. Chegámos ao meio-dia, e por não ser tempo de poder falar a el-rei, foi descer à sua casa onde da mulher e dos filhos foi muito bem recebido, e a mim me fizeram muito gasalhado. E depois que jantou e descansou do trabalho do caminho, se pôs de vestidos de corte, e com alguns parentes seus se foi ao paço e me levou consigo a cavalo. El-rei, sabendo da sua vinda, o mandou receber ao terreiro do paço por um seu filho moço, ao que parecia, de nove até dez anos, o qual vinha acompanhado de muita gente nobre, e ele vinha ricamente vestido, com seus porteiros de maças adiante; e tomando o Fingeandono pela mão, lhe disse com rosto alegre e bem assombrado: -A tua entrada nesta casa de el-rei meu senhor, seja de tamanha honra e contentamento para ti, que merecerão teus filhos, por serem teus filhos, comer à mesa comigo nas festas do ano. A que ele, prostrado por terra, respondeu: -Os moradores do céu, de quem, senhor, aprendeste a ser tão bom, respondam por mim, ou me dêem língua de réstia de sol para gratificar com música alegre a tuas orelhas, esta grande honra que me agora fazes, por tua grandeza, porque sem isso pecarei se falar, como os ingratos que habitam no mais baixo lago da côncava escura da casa do fumo. E com isto, arremetendo ao terçado que o menino tinha na cinta, para lho beijar, ele lho não consentiu, mas tomando-o pela mão, acompanhado daqueles senhores que com ele vieram, o levou consigo até o meter na casa onde el-rei estava, o qual, ainda que jazesse na cama doente, o recebeu com outra nova cerimónia de que me escuso de dar relação, para não fazer a história prolixa. E depois que leu a carta que ele trouxe do nautaquim, e lhe perguntar por algumas novas particularidades de sua filha, lhe disse que me chamasse, porque a esse tempo estava eu um pouco afastado atrás. Ele me chamou logo e me apresentou a el-rei, o qual fazendo-me gasalhado, me disse: -A tua chegada a esta terra de que eu sou senhor, seja ante mim tão agradável como a chuva do céu no meio do campo dos nossos arrozes. Eu, achando-me assaz embaraçado com a novidade daquela saudação e daquelas palavras, lhe não respondi por então, coisa alguma. Ele, então, olhando para os senhores que estavam presentes, lhes disse: -Sinto turvação neste estrangeiro, e será por ver tanta gente, de que pode ser que venha desacostumado, pelo que será bom deixarmos isto para outro dia, porque se fará mais à casa e não estranhará ver-se no que agora se vê. A isto respondi eu então pelo meu intérprete, que levava muito bom, que quanto ao que sua alteza dizia de me sentir turvado, lhe confessava, mas não por causa da muita gente de que me via cercado, porque já outras vezes tinha visto outra em muito maior quantidade, mas que quando eu imaginava que me via diante dos seus pés, isso só bastava para eu ficar mudo cem mil anos, se tantos tivera de vida, porque os que estavam à roda eram homens como eu, porém sua alteza o fizera Deus em tão alto grau avantajado a todos, que logo quisera que fosse senhor e os outros fossem servos, e que eu fosse formiga tão pequena em comparação da sua grandeza, que por ser pequeno nem ele me enxergasse nem eu soubesse responder a suas perguntas. Da qual tosca e grosseira resposta, todos os que estavam presentes fizeram tamanho caso que batendo as palmas a modo de espanto, disseram para el-rei: -Vê vossa alteza como fala a propósito? Não deve este homem ser mercador que trate em baixeza de comprar e vender, senão bonzo pregador que ministre sacrifício ao povo, um homem que se criou para corsário do mar. A que el-rei respondeu: -Tendes razão, e a mim assim mo parece, mas já que largou os fechos à covardia, vamos adiante com nossas perguntas, e ninguém fale nada, porque eu só quero ser o que pergunte, que vos afirmo que tenho gosto de falar com ele, tanto que quiça comerei daqui a um pouco, qualquer bocado, porque não sinto agora nenhuma dor em mim. De que a rainha e suas filhas que estavam junto com ele, com grande contentamento e com os joelhos em terra, levantaram as mãos ao céu e deram a Deus muitas graças por aquela mercê que lhes fizera. Da grande tormenta que passámos, indo do Japão para a China, e como fomos livres dela por orações deste servo de Deus Ao outro dia pela manhã, depois que o nosso santo padre com todos os portugueses se despediu de el-rei, o qual nesta despedida lhe fez as honras e o gasalhado que sempre costumara, nos fomos a embarcar e nos partimos desta cidade Fuchéu, velejámos por nossa rota à vista de terra até uma ilha de el-rei de Minacó, chamada Meleitor, e atravessando daqui com ventos de monção tendente, continuámos nosso caminho por espaço de sete dias, no fim dos quais o tempo, com a conjunção da lua nova, nos saltou ao sul, e ameaçando-nos com chuveiros e mostras de inverno, veio em tamanho crescimento que nos foi forçoso arribar enfim de roda com a proa ao rumo de nor-nordeste por mar incógnito e nunca navegado por nação nenhuma, sem sabermos por onde íamos, entregues de todo ao arbítrio da fortuna e do tempo, com uma tão brava e tão excessiva tormenta, qual os homens nunca imaginaram, que nos durou cinco dias. E como em todos eles nunca vimos o sol, para o piloto saber por que altura caminhava, só pela sua fraca estimativa, sem conta de graus nem de minutos, pouco mais ou menos foi demandar a paragem das ilhas dos papuas, celebes e mindanaus, que distavam dali seiscentas léguas. No segundo dia desta tormenta, já sobre a tarde, foi crescendo o mar de escarcéu com vagas tão altas que o ímpeto da nau as não podia romper, pelo que se assentou, por parecer dos oficiais, que as obras do chapitéu e dos castelos de avante se arrasassem até ao andar do convés, para que assim pudesse a nau ficar mais afrontada, e obedecer aos lanços do leme. Feito isto com toda a presteza possível, porque todos, sem ficar nenhum, se ocuparam neste trabalho, se entendeu logo em se segurar o batel, o qual com assaz de trabalho foi atracado a bordo, e lhe guarneceram logo um cabo de duas amarras de cairo novo. E porque já quando esta obra se acabou, a cerração da noite era muito grande, não foi possível recolher-se à nau a gente que estava nele, pelo que foi forçoso ficarem aquela noite lá todos, que foram quinze, de que cinco eram portugueses, e os outros escravos e marinheiros. Em todos estes trabalhos e infortúnios nos acompanhou sempre este bem-aventurado padre, tanto de noite corno de dia, por uma parte trabalhando por sua pessoa corno cada um dos outros, e por outra animando e consolando a todos, de maneira que depois de Deus, ele só era o capitão que nos esforçava e nos dava alento para de todo nos não rendermos ao trabalho e nos entregarmos de todo à ventura, corno alguns quiseram fazer algumas vezes, se ele não fosse. Sendo já quase meia-noite, os quinze que iam no batel deram urna grande grita de <>, e acudindo toda a gente na nau a saber o que aquilo era, viram ao horizonte do mar o batel ir atravessado, porque se lhe quebraram os bragueiros ambos com que estava amarrado. O capitão, com a dor daquele desastre, sem consideração alguma nem atentar no que fazia, mandou arribar a nau pela esteira do batel, parecendo-lhe que o poderia salvar, mas como ela era má de governo, e acudia devagar ao leme por causa da pouca vela de que era ajudada, ficou atravessada entre duas vagas, onde a encapelou uma grande serra por cima da popa, e lhe lançou no convés tamanho peso de água, que de todo a teve soçobrada, a que a gente com uma grande grita que rompia o ar, chamou com muita instância por Nossa Senhora que lhe valesse. A isto acudiu o padre muito depressa, que neste tempo estava posto de joelhos debruçado sobre uma caixa na câmara do capitão, e vendo a nau da maneira que estava, e nós pelas amuradas uns sobre os outros, escalavrados os mais deles, das capoeiras do convés, levantando as mãos ao céu, disse alto: -Ó Jesus Cristo, amores de mi anima, vale-nos, Senhor, pelas cinco chagas que por nós padeceste na árvore da vera Cruz! E logo naquele breve instante milagrosamente a nau tornou a surdir sobre a vaga do mar, e acudindo logo com muita pressa a marear a mo neta que ia guarnecida por papa-figo ao pé do traquete, prouve a Nosso Senhor que ficou direita, e logo mareada em popa, e o batel desapareceu de todo pela esteira da nau, de que todos ficaram chorando e rezando pelas almas dos que iam nele. Desta maneira corremos tudo o que restava da noite, com assaz de trabalho, e quando foi manhã clara, em todo o mar quanto alcançava a vista da gávea, não aparecia coisa nenhuma mais que somente o escarcéu da tormenta que rebentava em flor. E sendo passado pouco mais de meia hora de dia, o padre que então estava recolhido na câmara do capitão, veio ao chapitéu onde estavam o mestre e o piloto com mais seis ou sete portugueses, e depois de dar a todos os bons-dias com semblante alegre e quieto, perguntou se aparecia o batel, e lhe foi respondido que não; e rogando ao mestre que quisesse mandar um marinheiro à gávea para que visse se aparecia lá de cima, um dos que ali estavam lhe disse que apareceria quando se perdesse outro, a que o padre, pesando-lhe o que ouvira, respondeu: -Ó irmão Pêro Velho (que assim se chamava ele), muito pequena fé é essa que tendes! E como? Haveis vós porventura que pode ser alguma coisa impossível a Deus Nosso Senhor? Pois eu confio nele e na sacratíssima Virgem Maria sua Mãe, a quem por ele tenho prometido três Missas na sua bendita casa do Outeiro, em Malaca, que há-de permitir que aquelas almas que vão nele se não percam -de que o Pêro Velho ficou corrido e não falou mais palavra nenhuma. O mestre então para satisfazer melhor ao rogo do padre, ele em pessoa com outro marinheiro se foram à gávea, e vigiando de lá de cima por espaço de quase meia hora, disseram que em todo o mar quanto lhes alcançava a vista, não aparecia coisa nenhuma, e o padre lhes respondeu: -Ora descei-vos, que não há já que fazer. E chamando-me então para o chapitéu onde ele estava, e ao parecer de todos bem triste, me disse se lhe queria mandar aquentar uma pouca de água para beber, porque trazia o estômago muito desconsolado, a que eu por meus pecados não satisfiz, por não haver fogão na nau, porque se tinha lançado ao mar no dia antes, quando se alijou o convés no princípio da tormenta. E queixando-se-me ele então que andava muito esvaído da cabeça, e com vágados que lhe acudiam de quando em quando, lhe respondi eu: -Não é de mais andar vossa reverência dessa maneira, pois há três noites que não dorme, e quiça que nem comeria bocado, porque assim me disse um moço de Duarte da Gama. A que ele respondeu: -Certifico-vos que hei dó dele, por quão desconsolado o vejo, porque esta noite depois que se perdeu o batel, nunca deixou de chorar por seu sobrinho Afonso Calvo, que vai nele com os mais companheiros. Eu então, porque vi o padre bocejar muitas vezes, lhe disse: -Vá-se vossa reverência encostar um pouco ali naquele meu camarote, e quiça que repousará -o que ele aceitou, dizendo que fosse pelo amor de Deus, e que me pedia muito que mandasse ao meu china que lhe fechasse a porta, e se não fosse dali, para que quando o chamasse lha abrisse. E isto podia ser das seis até às sete horas da manhã, pouco mais ou menos, e recolhido no camarote esteve nele todo o dia até quase sol-posto. E acertando eu neste comenos de chamar o china que estava à porta, da banda de fora, para que me desse um púcaro de água, lhe perguntei se dormia ainda o padre, e ele me respondeu: -Nunca dormiu, mas está de joelhos chorando de bruços sobre o catre. E eu lhe disse então que se tornasse a sentar à porta, e que acudisse quando chamasse. Desta maneira esteve o padre recolhido na sua oração até quase sol-posto, e então se saiu do camarote e se foi acima ao chapitéu onde os portugueses todos estavam sentados no chão por causa dos grandes pendores e balanços que dava a nau; e depois de os saudar a todos, perguntou ao piloto se aparecia o batel, e ele lhe respondeu que por razão natural era impossível deixar de estar perdido, com mares tão grossos como aqueles, e que pressuposto que Deus milagrosamente o quisesse salvar, nos ficava já a mais de cinquenta léguas, A que o padre lhe tornou: -Assim parece naturalmente, mas folgaria eu, piloto, já que se nisso não perde nada, que por amor de Deus quisésseis ir à gávea, ou mandar lá algum marinheiro que de lá de cima vigie todo o mar, para que ao menos nos não fique isto por fazer. E o piloto lhe disse que ele iria lá de boa vontade, E subindo acima, e o mestre com ele, mais para satisfazerem o desejo que viam no padre, que por lhes parecer que podiam ver alguma coisa, como parecia que estava em razão, se detiveram lá um grande espaço, e enfim afirmaram que em todo o mal não viam coisa nenhuma, de que o padre, ao parecer de todos, ficou assaz triste, E encostando a cabeça no prepau do chapitéu, esteve assim com aquela tristeza um pouco impando como que a querer chorar, e já por derradeiro, abrindo a boca e tomando fôlego, como quem desabafava daquela tristeza que tinha, e levantando as mãos ao céu, disse com lágrimas: -Jesus Cristo, meu verdadeiro Deus e Senhor, peço-te pelas dores da tua sacratíssima morte e paixão, que hajas misericórdia de nós, e nos salves as almas dos fiéis que vão naquele batel. E tornando com isto a reclinar a cabeça sobre o prepau a que estava encostado, se deixou assim estar como que a dormir, cerca de dois a três credos, quando um menino que estava sentado na enxárcia, começou a gritar dizendo: <> A esta voz arremeteu toda a gente assim como estava, à parte de bombordo onde o menino gritava, e viu vir o batel afastado da nau cerca de um tiro de espingarda pouco mais ou menos, e espantados todos de tão novo e desacostumado caso, choravam uns com os outros como crianças, de maneira que não havia quem se pudesse ouvir em toda a nau, com os urros da gente. Todos arremeteram então ao padre para se lhe lançarem aos pés, porém ele o não consentiu, e se recolheu para a câmara do capitão e se fechou por dentro para que ninguém lhe falasse. Os companheiros que vinham no batel foram logo recolhidos dentro da nau, com aquele gosto e alvoroço que todos podem entender, e por isso então deixo agora de contar aqui as particularidades deste recebimento, porque são elas mais para se cuidarem que para se escreverem. Passado assim aquele pequeno espaço em que a noite se cerrou de todo, que podia ser de pouco mais de meia hora, mandou o padre por um menino chamar o piloto e lhe disse que louvasse a Deus Nosso Senhor, de quem eram aquelas obras, e mandasse fazer logo a nau prestes porque aquele contraste não duraria muito. E satisfazendo-se com toda a presteza possível, e com muita devoção, ao que o padre mandara, prouve a Nosso Senhor que logo de improviso, antes que a verga grande estivesse em cima e as velas fossem mareadas, a tormenta acalmou de todo e nos assaltou o vento norte, com o qual por monção tendente seguimos nossa viagem com bem de alegria e contentamento de todos; e este milagre que contei, aconteceu a dezassete de Dezembro de 1551. Do que passei depois que partimos deste porto de Xeque até chegar à Índia, e daí a este reino Velejando nós deste porto do Xeque por nossa rota, com ventos nortes de monção tendente, chegámos a Lampacau aos quatro de Dezembro, onde achámos seis naus portuguesas, de que era capitão-mor um mercador que se chamava Francisco Martins, feitor de Francisco Barreto que então governava o Estado da Índia por sucessão de D. Pedro Mascarenhas. E porque já a este tempo a monção da Índia era já quase gasta, não fez aqui o nosso capitão D. Francisco Mascarenhas mais detença que enquanto se proveu de mantimentos para a viagem. Deste porto de Lampacau partimos na primeira oitava do Natal, e chegámos a Goa aos dezassete de Fevereiro, onde logo dei conta a Francisco Barreto da carta que trazia do rei do Japão, e ele me mandou que lha levasse ao outro dia, e eu lha levei com as armas, e terçados, e com as mais peças do presente que levava. Ele depois que esteve vendo tudo muito devagar, me disse: -Certifico-vos em toda a verdade que tanto prezo estas armas e peças que me agora trouxeste, como a própria governança da Índia, porque com elas e com esta carta de el-rei do Japão, espero agradar tanto a el-rei nosso senhor que, depois de Deus, elas me livrem do castelo de Lisboa, onde os mais dos que governamos este Estado vamos desembarcar, por nossos pecados. E em satisfação deste trabalho e dos gastos que tinha feito de minha fazenda, me fez muitos oferecimentos que eu por então lhe não quis aceitar, mas justifiquei perante ele, por documentos e testemunhas de vista, quantas vezes por serviço de el-rei nosso senhor, eu fora cativo e minha fazenda roubada, parecendo-me que isso só bastaria para que nesta minha pátria se não negasse o que por meus serviços eu cuidei que me era devido. Ele me mandou passar um documento de todas estas coisas, e juntou a ele as mais certidões que lhe apresentei, e me deu uma carta para sua alteza, com o que me fez tão certo sobejar-me cá a satisfação destes serviços, que confiado eu nestas esperanças e na razão tão clara que eu então cuidava que tinha por minha parte, me embarquei para este reino, tão contente e tão ufano com os papéis que trazia, que tinha para mim que aquele era o melhor cabedal que trazia de meu, porque estava persuadido que me não tardaria mais a mercê, que enquanto a não requeresse. Prouve a Nosso Senhor que cheguei a salvamento à cidade de Lisboa, aos vinte e dois de Setembro do ano de 1558, governando então este reino a rainha Dona Catarina, nossa senhora que santa glória haja, a quem dei a carta que lhe trazia do governador da Índia, e lhe relatei por palavras tudo o que me pareceu que fazia a bem do meu negócio. Ela me remeteu ao oficial que então tinha a cargo tratar destes negócios, o qual com boas palavras e melhores esperanças, que eu então tinha por muito certas, pelo que me ele dizia, me teve os tristes papéis quatro anos e meio, no fim dos quais não tirei outro fruto senão os trabalhos e pesadumes que passei no requerimento, que não sei se diga que me foram mais pesados que quantos passei no decurso do tempo atrás. E vendo eu quão pouco me fundiam tanto os trabalhos e serviços passados, como o requerimento presente, determinei de me recolher com essa miséria que trouxera comigo, adquirida por meio de muitos trabalhos e infortúnios, e que era o resto do que tinha gasto em serviço deste reino, e deixar o feito à justiça divina, o que logo pus em obra, pesando-me ainda por que o não fizera mais cedo, porque se assim o fizesse, quiçá me pouparia nisso um bom pedaço de fazenda. E nisto vieram a parar meus serviços de vinte e um anos, nos quais fui treze vezes cativo e dezasseis vendido, por causa dos desventurados sucessos que atrás no decurso desta minha tão longa peregrinação, largamente deixo contados. Mas ainda que isto seja assim, não deixo de entender que ficar eu sem a satisfação que pretendia por tantos trabalhos e por tantos serviços, procedeu mais da providência divina que o permitiu assim por meus pecados, que de descuido ou falta alguma que houvesse em quem por ordem do céu tinha a seu cargo satisfazer-me, porque como eu em todos os reis deste reino (que são a fonte limpa donde emanam as satisfações, ainda que às vezes por canos mais afeiçoados que arrazoados) enxerguei sempre um zelo santo e agradecido, e um desejo larguíssimo e grandioso, não somente para galardoar a quem os serve, mas também para fazer muitas mercês ainda a quem os não serve, daqui se entende claramente que se eu e os outros tão desamparados como eu ficámos sem a satisfação dos nossos serviços, foi somente por culpa dos canos e não da fonte, ou antes, foi ordem da justiça divina, em que não pode haver erro, a qual dispõe todas as coisas como lhe melhor parece, e como a nós mais nos cumpre. Pelo que eu dou muitas graças ao Rei do céu, que quis que por esta via se cumprisse em mim a sua divina vontade, e não me queixo dos reis da terra, pois eu não mereci mais, por meus grandes pecados.