{\pwi, TahomaCourier New/=  =@MM}9####}##5#####"#################%###### T###"###,###(###)U###<g########"#!####X### ,######l###e###### ###"###4######,###########&#-####R####x##################?###6#####&#'####'######L###EI###3###[###b### ###/###T#########,# V########## ############### G########"#$#%####-###h#########@### )###x###y######### ###*###########>###]###E###W##.### ######### ###j###### ############### # ;###;###n######1######### ###-##A#9@" Zeimoto d Primeira Espingarda aos Japes PeregrinaoB"   A# " B" A# " Ferno Mendes PintoB" A# " B" A#(}" A publicao dos captulos 132 a 135, 214 e 226 do livro Peregrinao, foi gentilmente autorizada por Maria Alberta Menres.B"       A# " B" A#5<" 1998, Maria Alberta Menres e Parque EXPO 98. S.A.B"  A# " B" A# " ISBN 972-8396-42-2B" A#" Lisboa, Maro de 1998B" A# " B" A#")" Verso para dispositivos mveis: B"`   A#$" 2009, Instituto Cames, I.P.B" A# " B" A#  " ***B"l A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A# " ZEIMOTO D PRIMEIRAB" A#" ESPINGARDA AOS JAPESB" A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A##*" Como nos partimos desta cidade de B"<  h A#%," Uzangu, e do que nos aconteceu at B"  A##*" Chegarmos ilha de Tanixum, que B"  A##" a primeira terra do JapoB" A# " B" A# " B" A#T[ " Com o alvoroo e contentamento que se pode imaginar que teramos ao cabo de tantos trabalhos e desventuras como at ento tnhamos passado, de que por ento nos vamos livres, nos partimos desta cidade de Uzangu, aos doze dias do ms de Janeiro, e fizemos nosso caminho por um grande rio de gua doce, de mais de uma lgua em largo, levando a proa a diversos rumos por causa das voltas que o rio fazia, vendo sempre por espao de sete dias que por ele corremos, muitos e muito nobres lugares, tanto vilas como cidades, que, segundo o aparato de fora, parecia que deviam ser povos muito ricos, pela sumptuosidade dos edifcios que neles se viam, tanto de casas particulares como de templos com coruchus cobertos de ouro, e pela grande multido de embarcaes de remo que ali se viam com toda a sorte de mercadorias e mantimentos em muita abundncia. B"P@       `        <           `      A# " B" A# " B" A#"" Chegando ns a uma cidade muito nobre a que chamavam Quangeparu, que teria quinze ou vinte mil vizinhos, o naudelum, que era o que por mandado do rei nos levava, se deteve nela doze dias, fazendo sua veniaga com os da terra, a troco de prata e de prolas, em que nos confessou que de um fizera catorze, mas que se levasse sal, se no contentaria com dobrar o dinheiro trinta vezes. Nesta cidade nos afirmaram que tinha el-rei de renda todos os anos, s das minas de prata, dois mil e quinhentos picos, que so quatro mil quintais, e fora esta renda tem outras muitas de muitas coisas diferentes. Esta cidade no tem mais fora para a sua defesa, que um s fraco muro de tijolo de oito palmos dos meus, de largo, e uma cava de cinco braas de largo e sete palmos de fundo. Os moradores dela so gente fraca e desarmada, nem tem artilharia nem coisa que possa prejudicar quaisquer bons soldados que a acometerem. B"U   `         `  `  `     <         `     A# " B" A# " B" A#1," Daqui nos partimos uma tera-feira pela manh, e continumos por nossa rota mais treze dias, no fim dos quais chegmos ao porto de Sancho, no reino da China, que a ilha onde depois faleceu o bem-aventurado padre mestre Francisco, como adiante se dir. E no achando ali j a este tempo navio de Malaca, por haver nove dias que eram partidos, nos fomos a outro porto mais adiante sete lguas, de nome Lampacau, onde achmos dois juncos da costa do Malaio, um de Patane e outro de Lugor. E como a natureza desta nossa nao portuguesa sermos muito afeioados a nossos pareceres, houve aqui entre ns oito tanta diferena e desconformidade de opinies sobre uma coisa em que o que mais nos valia era termos muita paz e concrdia, que quase nos houvramos de vir a matar uns aos outros, de maneira que por ser assaz vergonhoso contar o que se passou, no direi mais seno que o necod da lorcha que ali nos trouxe de Uzangu, espantado deste nosso barbarismo, se partiu muito enfadado, sem querer levar carta nem recado nosso que nenhum de ns lhe desse, dizendo que antes queria que el-rei por isso lhe mandasse cortar a cabea, que ofender a Deus em levar coisa nossa onde ele fosse. B"n      ` `                     `          `     @ A# " B" A# " B" A#"(" E assim diferentes e mal-avindos, ficmos aqui nesta pequena ilha mais nove dias, em que os juncos ambos se partiram, sem tambm nenhum deles nos querer levar consigo, pelo que nos foi foroso ficar ali metidos no mato, arriscados a muitos e grandes perigos, dos quais ponho em muita dvida podermos escapar, se Deus Nosso Senhor se no lembrasse de ns, porque havendo j dezassete dias que aqui estvamos em grande misria e esterilidade, veio ali por acaso surgir um corsrio de nome Samipocheca, que vinha desbaratado, fugindo da armada do aitau do Chinchu, que, de vinte e oito barcos que tinha, lhe tomara vinte e seis, e ele lhe escapara com somente aquelas duas que trazia consigo, nas quais trazia a maior parte da gente muito ferida, pelo que lhe foi foroso deter-se ali vinte dias para que a curasse. E a ns os oito, constrangidos pela necessidade, nos foi foroso assentarmos partido com ele para que nos levasse consigo por onde quer que fosse, at que Deus nos melhorasse noutra embarcao mais segura e que nos fssemos para Malaca.B"d    <          <     <     `    `        <  <  A# " B" A# " B" A#U\)" Passados estes vinte dias em que os feridos se curaram, sem em todo este tempo haver entre ns reconciliao da desavena passada, nos embarcmos ainda assim mal-avindos, com este corsrio, trs no junco em que ele vinha, e cinco no outro de que era capito um seu sobrinho, e partidos daqui para um porto que se chamava Lail, adiante de Chinchu sete lguas, e desta ilha oitenta, seguimos por nossa rota com ventos bonanosos ao longo da costa de Lamau, por espao de nove dias. E sendo uma manh quase noroeste-sueste com o rio do sal, que est abaixo do Chabaqu cinco lguas, nos acometeu um ladro com sete juncos muito alterosos, e pelejando connosco das seis horas da manh at s dez, em que tivemos uma briga assaz travada de muitos arremessos, tanto de lanas como de fogo, por fim se queimaram trs barcos, dois do ladro e um dos nossos, que foi o junco em que iam os cinco portugueses, a que por nenhuma via pudemos ser bons, por j a este tempo termos a maior parte da gente ferida. E refrescando-nos sobre a tarde a virao, prouve a Nosso Senhor que lhes fugimos e escapmos das suas mos. B"g          `          <                     A# " B" A# " B" A#gn<" E continuando a nossa viagem assim destroados como amos, mais trs dias, nos deu um temporal de vento esgarro por cima da terra to impetuoso que naquela mesma noite a perdemos de vista, e como ento j a no podamos tornar a tomar, nos foi foroso arribarmos em popa ilha dos lquios onde este corsrio era muito conhecido, tanto do rei como da outra gente da terra; e navegando ns com esta determinao por este arquiplago de ilhas adiante, como neste tempo no levvamos piloto, por nos ter sido morto na briga passada, e os ventos nordestes nos eram ponteiros, e as guas corriam muito contra ns, bordejmos s voltas de um rumo no outro vinte e trs dias com assaz de trabalho, no fim dos quais prouve a Nosso Senhor que vimos terra, e chegando-nos bem a ela para vermos se dava de si alguma mostra de angra ou porto de bom surgidouro, lhe enxergmos da parte do sul, quase ao horizonte do mar, um grande fogo, por onde imaginmos que devia ser povoada de alguma gente que por nosso dinheiro nos provesse de gua, de que vnhamos faltos, E surgindo ns no rosto da ilha, em setenta braas, nos saram da terra duas almadias pequenas em que vinham seis homens, os quais chegando a bordo, depois de nos fazerem suas salvas e cortesias a seu modo, nos perguntaram donde vinha o junco, a que se respondeu que da China, com mercadorias para se fazer ali veniaga com eles, se para isso nos dessem licena. Um dos seis nos respondeu que a licena, o nautarel senhor daquela ilha Tanixum, a daria de boa vontade se lhe pagssemos os direitos que se costumavam pagar no Japo, que era aquela grande terra que defronte nos aparecia. B"        <                          `   `  `    <  `  <       `      A# " B" A# " B" A#i" E com isto nos deu relao de tudo o mais que nos convinha, e nos mostrou o porto onde havamos de ir surgir. Ns, com este alvoroo, levantmos logo as amarras e nos fomos com o batel pela proa, meter em uma calheta que a terra fazia da banda do sul, onde estava uma grande povoao a que chamavam Miaygim, da qual logo nos vieram a bordo muitos paraus com refresco que lhes comprmos.B"#              A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A#")" Como desembarcmos nesta ilha de B" l A#!(" Tanixum, e do que passmos com B"  A# " o senhor delaB" A# " B" A# " B" A#X_" No havia ainda bem duas horas que estvamos surtos nesta calheta de Miaygim, quando o nautaquim, prncipe desta ilha de Tanixum, veio ao nosso junco acompanhado de muitos mercadores e de gente nobre, com grande soma de caixes cheios de prata para fazer fazenda. E depois de se fazerem de parte a parte as cortesias costumadas, e ele ter seguro para se poder chegar a ns, se chegou logo, e vendo-nos aos trs portugueses, perguntou que gente ramos, porque na diferena do rosto e barbas, entendia que no ramos chins. O capito corsrio lhe respondeu que ramos de uma terra que se chamava Malaca, para onde havia muitos anos tnhamos vindo de outra a que chamavam Portugal, cujo rei, segundo nos tinha ouvido algumas vezes, habitava no cabo da grandeza do mundo. Do que o nautaquim fez um grande espanto e disse para os seus que estavam presentes: B"N`            `    <  <       `     < A# " B" A# " B" A#S,3 " -Que me matem, se no so estes os chenchicogins de que est escrito em nossos volumes que voando por cima das guas, tm senhoriado ao longo delas os habitadores das terras onde Deus criou as riquezas do mundo, pelo que nos cair em boa sorte se eles vierem a esta nossa com ttulo de boa amizade. B"          < A# " B" A# " B" A#-" E chamando ento para junto de si, sua mulher lquia, que era a intrprete por quem se entendia com o capito chim, senhor do junco, lhe disse: B"      A# " B" A# " B" A##ls" -Pergunta ao necod onde achou estes homens, ou com que ttulo os traz consigo a esta nossa terra do Japo.B" `    A# " B" A# " B" A#bel" Ao que respondeu que sem falta nenhuma ramos mercadores e gente boa, e que por nos achar perdidos em Lampacau, nos recolhera para nos ajudar com suas esmolas, como tinha por costume fazer a outros que j assim achara, para que Deus permitisse livr-lo a ele das adversidades impetuosas que cursavam por cima do mar, com as quais se perdiam os navegantes. B"#`        `       A# " B" A# " B" A#" Ao nautaquim pareceram to boas estas razes do corsrio, que entrou logo no junco e mandou aos seus que por serem muitos no entrassem mais que os que ele dissesse. E depois de andar vendo todas as particularidades do junco, tanto da popa como da proa, se sentou numa cadeira junto da tolda, e nos esteve inquirindo de algumas coisas particulares que desejou saber de ns, a que respondemos ao gosto que nele enxergmos, de que ele mostrava muito contentamento. Nestas prticas se gastou connosco um grande espao, mostrando em todas as suas perguntas ser homem curioso e inclinado a coisas novas, e se despediu de ns e do necod chim, que dos mais no fez muito caso, dizendo: B"A             `          <   A# " B" A# " B" A#F " -Amanh ide ver-me a minha casa, e levai-me um grande presente de novas desse grande mundo por onde andastes e das terras que tendes visto, e como se chamam, porque vos afirmo que essa s mercadoria comprarei mais a meu gosto que todas as outras. B"  <   <      A# " B" A# " B" A#")" E com isto se tornou para terra. B"  A# " B" A# " B" A#4;" E quando ao outro dia foi manh clara, nos mandou ao junco um grande parau de refresco, em que entravam uvas, peras, meles, e toda a sorte de hortalia que h nesta terra, com cuja vista demos muitas graas e louvores a Nosso Senhor. O necod do junco lhe mandou pelo mensageiro algumas peas ricas e brincos da China, em retorno do refresco, e lhe mandou dizer que quando o junco ancorasse no surgidouro onde estivesse seguro do tempo, o iria logo ver a terra e levar-lhe as amostras da fazenda que trazia para vender. E ao outro dia, logo que foi manh, desembarcou em terra e nos levou consigo a todos trs, com mais dez ou doze chins, os que lhe pareceram mais graves e autorizados em suas pessoas, quais os ele queria para o ornamento desta primeira visita, em que esta gente costuma mostrar-se com muita vaidade.B"N  `             ` `        <   `     A# " B" A# " B" A#" Chegando ns a casa do nautaquim, fomos todos muito bem recebidos por ele, e o necod lhe deu um bom presente, e aps isto lhe mostrou as amostras de toda a sorte de fazenda que trazia, de que ele ficou satisfeito e mandou logo chamar os principais mercadores da terra, com os quais se tratou do preo dela, e concertados nele se assentou que ao outro dia se trouxesse a uma casa que mandou dar ao necod, em que se agasalhasse com a sua gente at se tornar para a China. B"-         `         A# " B" A# " B" A#+," Isto ordenado, o nautaquim tornou de novo a praticar connosco e a perguntar-nos por muitas coisas miudamente, a que respondemos mais conforme ao gosto que nele vamos, que no ao que realmente era verdade, mas isto foi em certas perguntas em que foi necessrio ajudarmo-nos de algumas coisas fingidas, para no desfazermos o crdito que ele tinha desta nossa ptria. A primeira foi dizer-nos que lhe tinham dito os chins e lquios, que Portugal era muito maior em quantidade tanto de terra, como de riqueza, que todo o imprio da China, o que ns lhe concedemos. A segunda, que tambm lhe tinham certificado que tinha o nosso rei subjugado por conquista de mar, a maior parte do mundo, o que tambm dissemos que era verdade. A terceira, que era to rico o nosso rei, de ouro e de prata, que se afirmava que tinha mais de duas mil casas cheias at ao telhado, e a isto respondemos que do nmero de duas mil casas, nos no certificvamos, por ser a terra e o reino em si tamanho, e ter tantos tesouros e povos, que era impossvel poder-se dizer-lhe a certeza disso. E nestas perguntas e em outras desta maneira, nos deteve mais de duas horas, e disse para os seus: B"n          <        <  <                        A# " B" A# " B" A#3" - certo que se no deve de haver por ditoso nenhum rei de quantos agora sabemos na terra, seno s o que for vassalo de tamanho monarca como o imperador desta gente. B"     `  A# " B" A# " B" A#" E despedindo o necod com toda a sua companhia, nos rogou que quisssemos ficar aquela noite com ele em terra, porque se no fartava de nos perguntar muitas coisas do mundo, a que era muito inclinado, e que pela manh nos mandaria dar umas casas em que pousssemos junto com as suas, por ser o melhor lugar da cidade, o que ns fizemos de boa vontade, e nos mandou agasalhar com um mercador muito rico que nos banqueteou muito largamente, tanto nesta noite como em doze dias mais que pousmos com ele.B"0   <  <    `           A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A#&-" Da honra que o nautaquim fez a um dosB"   A#-4" nossos por o ver atirar com uma espingarda, B" @ A#" e do que da sucedeuB" A# " B" A# " B" A#RY" Logo ao outro dia seguinte, este necod chim desembarcou em terra toda a sua fazenda como o nautaquim lhe tinha mandado, e a meteu numas boas casas que para isso lhe deram, a qual fazenda toda se vendeu em trs dias, tanto por ser pouca como porque estava a terra falta dela, na qual este corsrio fez tanto proveito que de todo ficou restaurado da perda dos vinte e seis barcos que os chins lhe tomaram, porque pelo preo que ele queria pr na fazenda, lha tomavam logo, de maneira que nos confessou ele que com s dois mil e quinhentos tais que levava de seu, fizera ali mais de trinta mil.B"7     <         `         A#" Ns os trs portugueses, como no tnhamos veniaga em que nos ocupssemos, gastvamos o tempo em pescar e caar, e ver templos dos seus pagodes que eram de muita majestade e riqueza, nos quais os bonzos, que so os seus sacerdotes, nos faziam muito gasalhado, porque toda gente do Japo naturalmente muito bem inclinada e conversadora. No meio desta nossa ociosidade, um dos trs que ramos, de nome Diogo Zeimoto, tomava algumas vezes por passatempo atirar com uma espingarda que tinha de seu, a que era muito inclinado, e na qual era assaz destro. E acertando um dia de ir ter a um paul onde havia grande soma de aves de toda a sorte, matou nele com a munio, umas vinte e seis marrecas.B"?                  `       D A# " B" A# " B" A#x" Os japes, vendo aquele novo modelo de tiros que nunca at ento tinham visto, deram rebate disso ao nautaquim que neste tempo andava vendo correr uns cavalos que lhe tinham trazido de fora, o qual espantado desta novidade, mandou logo chamar o Zeimoto ao paul onde estava caando, e quando o viu vir com a espingarda s costas, e dois chins carregados de caa, fez disto tamanho caso que em todas as coisas se lhe enxergava o gosto do que via, porque como at ento naquela terra nunca se tinha visto tiro de fogo, no sabiam determinar o que aquilo era, nem entendiam o segredo da plvora, e assentaram todos que era feitiaria. B":    `        `      `     A# " B" A# " B" A#" O Zeimoto, vendo-os to pasmados e o nautaquim to contente, fez perante eles trs tiros em que matou um milhano e duas rolas, e para no gastar palavras no encarecimento deste negcio, e para escusar de contar tudo o que se passou nele, porque era coisa para se no crer, no direi mais seno que o nautaquim levou o Zeimoto nas ancas de um cavalo em que ia, acompanhado de muita gente, e quatro porteiros com bastes ferrados nas mos, os quais bradando ao povo que era neste tempo sem conto, diziam: B"0<                `    A# " B" A# " B" A#k" -O nautaquim, prncipe desta ilha de Tanixum e senhor de nossas cabeas, manda e quer que todos vs outros, e assim os mais que habitam a terra de entre ambos os mares, honrem e venerem este chenchicogim do cabo do mundo, porque de hoje por diante o faz seu parente, assim como os fachares que se sentam junto de sua pessoa, sob pena de perder a cabea o que isto no fizer de boa vontade. B"&     `  <       @ A# " B" A# " B" A#%" A que todo o povo respondia: B" A# " B" A# " B" A#$" -Assim se far para sempre. B" A# " B" A# " B" A#o" E chegando o Zeimoto com esta pompa mundana ao primeiro terreiro dos paos, descavalgou o nautaquim e o tomou pela mo, ficando ns os dois um bom espao atrs, e o levou sempre junto de si at uma casa onde o sentou mesa consigo, na qual tambm para lhe fazer a maior honra de todas, quis que dormisse aquela noite, e sempre dali por diante o favoreceu muito, e a ns por seu respeito, em alguma maneira. B"&              @ A# " B" A# " B" A#?" E entendendo ento o Diogo Zeimoto que em nenhuma coisa podia melhor satisfazer ao nautaquim alguma parte destas honras que lhe fizera, e que nada lhe daria mais gosto que lhe dar a espingarda, lha ofereceu um dia que vinha da caa com muita soma de pombas e rolas, a qual ele aceitou por pea de muito preo e lhe afirmou que a estimava muito mais que todo o tesouro da China, e lhe mandou dar por ela mil tais de prata, e lhe rogou muito que o ensinasse a fazer a plvora, porque sem ela ficava a espingarda sendo um pedao de ferro desaproveitado, o que o Zeimoto lhe prometeu e lho cumpriu. E como dali por diante o gosto e passatempo do nautaquim era no exerccio desta espingarda, vendo os seus que em nenhuma coisa o podiam contentar mais que naquela de que ele mostrava tanto gosto, ordenaram mandar fazer, por aquela, outras do mesmo teor, e assim o fizeram logo. De maneira que o fervor deste apetite e curiosidade foi dali por diante em tamanho crescimento que j quando dali nos partimos, que foi dali a cinco meses e meio, havia na terra passante de seiscentas. E depois a derradeira vez que me l mandou o Vice-Rei D. Afonso de Noronha, com um presente para o rei do Bungo, que foi no ano de 1556, me afirmaram os japes que naquela cidade do Fuchu, que a metrpole deste reino, havia mais de trinta mil. E fazendo eu disto grande espanto, por me parecer que no era possvel que esta coisa fosse em tanta multiplicao, me disseram alguns mercadores, homens nobres e de respeito, e mo afirmaram com muitas palavras, que em toda a ilha do Japo havia mais de trezentas mil espingardas, e que eles somente tinham levado de veniaga para os lquios, em seis vezes que l tinham ido, vinte e cinco mil.B"                   <  `               `   `        `           <     A# " B" A# " B" A#6=" De modo que por esta s que o Zeimoto aqui deu ao nautaquim, com boa teno e por boa amizade, e para lhe satisfazer parte das honras e mercs que tinha recebido dele, como atrs fica dito, se encheu a terra delas em tanta quantidade que no h j aldeia nem lugar por pequeno que seja, donde no saiam de cento para cima, e nas cidades e vilas mais notveis, no se fala seno por muitos milhares delas. E por aqui se saber que gente esta , e quo inclinada por natureza ao exerccio militar no qual se deleita mais que todas as outras naes que agora se sabem.B"5         <   `         A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A#&-" Como este nautaquim me mandou mostrarB"  A#'." ao rei do Bungo, e do que vi e passei B"  D A##" at chegar onde ele estava B" A# " B" A# " B" A#  '" Havendo j vinte e trs dias que estvamos nesta ilha de Tanixum, descansados e contentes, passando o tempo em muitos desenfadamentos de pescarias e caas a que estes japes comummente so muito inclinados, chegou a este porto uma nau do reino de Bungo, em que vinham muitos mercadores, os quais desembarcando em terra foram logo visitar o nautaquim com seus presentes, como tm por costume. Entre estes, vinha um homem velho e bem acompanhado, e a quem todos os outros falavam com acatamento, o qual posto de joelhos diante do nautaquim, lhe deu uma carta, e um rico terado guarnecido de ouro, e uma boceta cheia de abanos, que o nautaquim tomou com grande cerimnia. E depois de estar com ele um grande espao perguntando-lhe por algumas particularidades, leu a carta para si e entendendo a substncia dela, ficou algum tanto mais carregado, e despedindo de si o que lha trouxera, mandando-o agasalhar honradamente, nos chamou para junto de si e acenou ao intrprete que estava um pouco mais afastado, e nos disse por ele:B"b  <                       <    `      `    A# " B" A# " B" A#-" -Rogo-vos muito, amigos meus, que ouais esta carta que me agora deram, de el-rei do Bungo, meu senhor e tio, e ento vos direi o que quero de vs.B"      A# " B" A# " B" A#LS" E dando-a a um seu tesoureiro, lhe mandou que a lesse, a qual dizia assim: B"   A# " B" A# " B" A#IPE" Olho direito do meu rosto, sentado a par de mim como cada um dos meus amados, Hyascaro goxo Nautaquim de Tanixum, eu, Oregend, vosso pai no amor verdadeiro de minhas entranhas, como aquele de quem tomastes o nome e o ser de vossa pessoa, Rei do Bungo e Facat, senhor da grande casa de Fiancima, e Tosa, e Bandou, cabea suprema dos reis pequenos das ilhas do Goto e Xamanaxeque, vos fao saber, filho meu, pelas palavras de minha boca ditas a vossa pessoa, que em dias passados me certificaram homens que vieram dessa terra, que tnheis nessa vossa cidade uns trs chenchicogins do cabo do mundo, gente muito apropriada aos japes, e que vestem seda e cingem espadas, no como mercadores que fazem fazenda, seno como homens amigos de honra, e que pretendem por ela dourar seus nomes, e que de todas as coisas do mundo que l vo por fora, vos tm dado grandes informaes, nas quais afirmam em sua verdade que h outra terra muito maior que esta nossa, e de gentes pretas e baas, coisas incrveis ao nosso juzo, pelo que vos peo muito como a filho igual aos meus, que por Fingeandono, por quem mando visitar minha filha, me queirais mandar mostrar um desses trs que me l dizem que tendes, pois como sabeis, mo est pedindo a minha prolongada doena e m disposio, cercada de dores, e de muita tristeza, e de grande fastio, e se tiverem nisto algum pejo, os segurareis na vossa e na minha verdade, que logo sem falta o tornarei a mandar a salvo; e como filho que deseja agradar a seu pai, fazei que me alegre com sua vista, e que me cumpra este desejo. E o mais que nesta deixo de vos dizer, vos dir Fingeandono, pelo qual vos peo que liberalmente repartais comigo de boas novas de vossa pessoa e de minha filha, pois sabeis que ela a sobrancelha do meu olho direito, com cuja vista se alegra meu rosto. Da casa do Fuchu, aos sete mamocos da lua.B"  `                < `  `            `           <      `   <        `         A# " B" A# " B" A#3:" Depois de lida esta carta, nos disse o nautaquim: B" < A# " B" A# " B" A#[b" -Este rei do Bungo meu senhor e meu tio, irmo de minha me, e sobretudo meu bom pai, e ponho-lhe este nome porque o de minha mulher, pelas quais razes me tem tanto amor como aos seus mesmos filhos, e eu, pela grande obrigao que por isto lhe tenho, vos certifico que estou to desejoso de lhe fazer a vontade, que dera agora grande parte da minha terra para que Deus me fizera um de vs outros, tanto para o ir ver como para lhe dar este gosto que eu entendo, pelo muito que sei da sua condio, que ele estimar mais que todo o tesouro da China. E j que de mim tendes entendida esta vontade, vos rogo muito que conformeis a vossa com ela, e que queira um de vs ambos ir a Bungo ver este rei que eu tenho por pai e senhor, porque estoutro a que dei nome e ser de parente no o hei-de apartar de mim at que de todo me no ensine a atirar como ele.B"N`    `                       <    A# " B" A# " B" A#abi" Ns os dois, Cristvo Borralho e eu, lhe respondemos que beijvamos as mos de sua alteza pela merc que nos fazia em se querer servir de ns, e j que nisso mostrava gosto, ordenasse qual de ns queria que fosse, porque se iria logo fazer prestes, ao que ele depois de estar um pouco pensativo na deliberao da escolha, apontando para mim, respondeu:B"#           <   h A# " B" A# " B" A#H " -Este, que mais alegre e menos sisudo, para que agrade mais aos japes e desmelancolize o enfermo, porque gravidade pesada como a destoutro, entre doentes no serve de mais que para causar tristeza e melancolia, e acrescentar o fastio a quem o tiver.B"  d         A# " B" A# " B" A#E/" E gracejando com os seus sobre esta matria, com alguns ditos e galantarias a que naturalmente so muito inclinados, chegou o Fingeandono, ao qual me ele logo entregou com palavras de muito encarecimento acerca da segurana de minha pessoa, de que eu me tive por muito satisfeito, e fiquei fora de alguns receios que antes se me apresentavam, pelo pouco conhecimento que at ento tinha desta gente, e me mandou dar duzentos tais para o caminho, com os quais me fiz prestes o mais depressa que pude, e nos partimos, o Fingeandono e eu, em uma embarcao de remo a que eles chamam funce. E atravessando em uma s noite daqui desta ilha de Tanixum, fomos amanhecer no rosto da terra, em uma angra de nome Hiamang, e da a uma boa cidade a que chamavam Quangixum, e, velejando assim por nossa rota com mono tendente de ventos bonanosos, chegmos ao outro dia a um lugar nobre de nome Tanor, e deste fomos ao outro dia dormir a outro que se chamava Minato, e da a Fiung. E fazendo assim nossos pousos em terra cada dia, onde nos provamos de bons refrescos, chegmos a uma fortaleza de el-rei do Bungo, chamada Osquy, a sete lguas da cidade, na qual fortaleza este Fingeandono se deteve dois dias porque o capito dela que era seu cunhado, estava muito doente.B"v` <        `     <    `   `       ` `    `   <         `  A# " B" A# " B" A#T[" Aqui deixou a embarcao em que tnhamos vindo e nos fomos por terra para a cidade.B"  `   A# " B" A# " B" A#" Chegmos ao meio-dia, e por no ser tempo de poder falar a el-rei, foi descer sua casa onde da mulher e dos filhos foi muito bem recebido, e a mim me fizeram muito gasalhado. E depois que jantou e descansou do trabalho do caminho, se ps de vestidos de corte, e com alguns parentes seus se foi ao pao e me levou consigo a cavalo. El-rei, sabendo da sua vinda, o mandou receber ao terreiro do pao por um seu filho moo, ao que parecia, de nove at dez anos, o qual vinha acompanhado de muita gente nobre, e ele vinha ricamente vestido, com seus porteiros de maas adiante; e tomando o Fingeandono pela mo, lhe disse com rosto alegre e bem assombrado:B"?                `          A# " B" A# " B" A#6" -A tua entrada nesta casa de el-rei meu senhor, seja de tamanha honra e contentamento para ti, que merecero teus filhos, por serem teus filhos, comer mesa comigo nas festas do ano.B"       A# " B" A# " B" A#,3" A que ele, prostrado por terra, respondeu: B"`  A#^V] " -Os moradores do cu, de quem, senhor, aprendeste a ser to bom, respondam por mim, ou me dem lngua de rstia de sol para gratificar com msica alegre a tuas orelhas, esta grande honra que me agora fazes, por tua grandeza, porque sem isso pecarei se falar, como os ingratos que habitam no mais baixo lago da cncava escura da casa do fumo.B"!`     `       @ A# " B" A# " B" A#" E com isto, arremetendo ao terado que o menino tinha na cinta, para lho beijar, ele lho no consentiu, mas tomando-o pela mo, acompanhado daqueles senhores que com ele vieram, o levou consigo at o meter na casa onde el-rei estava, o qual, ainda que jazesse na cama doente, o recebeu com outra nova cerimnia de que me escuso de dar relao, para no fazer a histria prolixa. E depois que leu a carta que ele trouxe do nautaquim, e lhe perguntar por algumas novas particularidades de sua filha, lhe disse que me chamasse, porque a esse tempo estava eu um pouco afastado atrs. Ele me chamou logo e me apresentou a el-rei, o qual fazendo-me gasalhado, me disse:B"?           `       <       A#*" -A tua chegada a esta terra de que eu sou senhor, seja ante mim to agradvel como a chuva do cu no meio do campo dos nossos arrozes.B"      A# " B" A# " B" A#:" Eu, achando-me assaz embaraado com a novidade daquela saudao e daquelas palavras, lhe no respondi por ento, coisa alguma. Ele, ento, olhando para os senhores que estavam presentes, lhes disse:B"        A# " B" A# " B" A#@ " -Sinto turvao neste estrangeiro, e ser por ver tanta gente, de que pode ser que venha desacostumado, pelo que ser bom deixarmos isto para outro dia, porque se far mais casa e no estranhar ver-se no que agora se v.B"       `   A# " B" A# " B" A#" A isto respondi eu ento pelo meu intrprete, que levava muito bom, que quanto ao que sua alteza dizia de me sentir turvado, lhe confessava, mas no por causa da muita gente de que me via cercado, porque j outras vezes tinha visto outra em muito maior quantidade, mas que quando eu imaginava que me via diante dos seus ps, isso s bastava para eu ficar mudo cem mil anos, se tantos tivera de vida, porque os que estavam roda eram homens como eu, porm sua alteza o fizera Deus em to alto grau avantajado a todos, que logo quisera que fosse senhor e os outros fossem servos, e que eu fosse formiga to pequena em comparao da sua grandeza, que por ser pequeno nem ele me enxergasse nem eu soubesse responder a suas perguntas.B"D                           h A# " B" A# " B" A#." Da qual tosca e grosseira resposta, todos os que estavam presentes fizeram tamanho caso que batendo as palmas a modo de espanto, disseram para el-rei:B"      A# " B" A# " B" A#>" -V vossa alteza como fala a propsito? No deve este homem ser mercador que trate em baixeza de comprar e vender, seno bonzo pregador que ministre sacrifcio ao povo, um homem que se criou para corsrio do mar.B" `  <     A# " B" A# " B" A#" A que el-rei respondeu:B"< A# " B" A# " B" A#ZGN " -Tendes razo, e a mim assim mo parece, mas j que largou os fechos covardia, vamos adiante com nossas perguntas, e ningum fale nada, porque eu s quero ser o que pergunte, que vos afirmo que tenho gosto de falar com ele, tanto que quia comerei daqui a um pouco, qualquer bocado, porque no sinto agora nenhuma dor em mim.B"            A# " B" A# " B" A#:" De que a rainha e suas filhas que estavam junto com ele, com grande contentamento e com os joelhos em terra, levantaram as mos ao cu e deram a Deus muitas graas por aquela merc que lhes fizera.B"   `     A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A#")" Da grande tormenta que passmos, B"  h A#$+" indo do Japo para a China, e como B"  A#%," fomos livres dela por oraes deste B"  A# " servo de DeusB" A# " B" A# " B" A#/-" Ao outro dia pela manh, depois que o nosso santo padre com todos os portugueses se despediu de el-rei, o qual nesta despedida lhe fez as honras e o gasalhado que sempre costumara, nos fomos a embarcar e nos partimos desta cidade Fuchu, velejmos por nossa rota vista de terra at uma ilha de el-rei de Minac, chamada Meleitor, e atravessando daqui com ventos de mono tendente, continumos nosso caminho por espao de sete dias, no fim dos quais o tempo, com a conjuno da lua nova, nos saltou ao sul, e ameaando-nos com chuveiros e mostras de inverno, veio em tamanho crescimento que nos foi foroso arribar enfim de roda com a proa ao rumo de nor-nordeste por mar incgnito e nunca navegado por nao nenhuma, sem sabermos por onde amos, entregues de todo ao arbtrio da fortuna e do tempo, com uma to brava e to excessiva tormenta, qual os homens nunca imaginaram, que nos durou cinco dias. E como em todos eles nunca vimos o sol, para o piloto saber por que altura caminhava, s pela sua fraca estimativa, sem conta de graus nem de minutos, pouco mais ou menos foi demandar a paragem das ilhas dos papuas, celebes e mindanaus, que distavam dali seiscentas lguas.B"q` `                `  @         `    `       ` <     A# " B" A# " B" A#bho" No segundo dia desta tormenta, j sobre a tarde, foi crescendo o mar de escarcu com vagas to altas que o mpeto da nau as no podia romper, pelo que se assentou, por parecer dos oficiais, que as obras do chapitu e dos castelos de avante se arrasassem at ao andar do convs, para que assim pudesse a nau ficar mais afrontada, e obedecer aos lanos do leme.B"#              A# " B" A# " B" A#" Feito isto com toda a presteza possvel, porque todos, sem ficar nenhum, se ocuparam neste trabalho, se entendeu logo em se segurar o batel, o qual com assaz de trabalho foi atracado a bordo, e lhe guarneceram logo um cabo de duas amarras de cairo novo. E porque j quando esta obra se acabou, a cerrao da noite era muito grande, no foi possvel recolher-se nau a gente que estava nele, pelo que foi foroso ficarem aquela noite l todos, que foram quinze, de que cinco eram portugueses, e os outros escravos e marinheiros.B"2      <   <   `     d ` < A# " B" A# " B" A#z" Em todos estes trabalhos e infortnios nos acompanhou sempre este bem-aventurado padre, tanto de noite corno de dia, por uma parte trabalhando por sua pessoa corno cada um dos outros, e por outra animando e consolando a todos, de maneira que depois de Deus, ele s era o capito que nos esforava e nos dava alento para de todo nos no rendermos ao trabalho e nos entregarmos de todo ventura, corno alguns quiseram fazer algumas vezes, se ele no fosse.B"-                 d A# " B" A# " B" A#@G" Sendo j quase meia-noite, os quinze que iam no batel deram urna grande grita de Senhor Deus misericrdia, e acudindo toda a gente na nau a saber o que aquilo era, viram ao horizonte do mar o batel ir atravessado, porque se lhe quebraram os bragueiros ambos com que estava amarrado. O capito, com a dor daquele desastre, sem considerao alguma nem atentar no que fazia, mandou arribar a nau pela esteira do batel, parecendo-lhe que o poderia salvar, mas como ela era m de governo, e acudia devagar ao leme por causa da pouca vela de que era ajudada, ficou atravessada entre duas vagas, onde a encapelou uma grande serra por cima da popa, e lhe lanou no convs tamanho peso de gua, que de todo a teve soobrada, a que a gente com uma grande grita que rompia o ar, chamou com muita instncia por Nossa Senhora que lhe valesse.B"N         `            `  <       @ A# " B" A# " B" A#S)0 " A isto acudiu o padre muito depressa, que neste tempo estava posto de joelhos debruado sobre uma caixa na cmara do capito, e vendo a nau da maneira que estava, e ns pelas amuradas uns sobre os outros, escalavrados os mais deles, das capoeiras do convs, levantando as mos ao cu, disse alto:B"  <        @ A# " B" A# " B" A#&x" - Jesus Cristo, amores de mi anima, vale-nos, Senhor, pelas cinco chagas que por ns padeceste na rvore da vera Cruz!B"  `    h A# " B" A# " B" A#gy" E logo naquele breve instante milagrosamente a nau tornou a surdir sobre a vaga do mar, e acudindo logo com muita pressa a marear a mo neta que ia guarnecida por papa-figo ao p do traquete, prouve a Nosso Senhor que ficou direita, e logo mareada em popa, e o batel desapareceu de todo pela esteira da nau, de que todos ficaram chorando e rezando pelas almas dos que iam nele.B"#   <           D A# " B" A# " B" A#" Desta maneira corremos tudo o que restava da noite, com assaz de trabalho, e quando foi manh clara, em todo o mar quanto alcanava a vista da gvea, no aparecia coisa nenhuma mais que somente o escarcu da tormenta que rebentava em flor. E sendo passado pouco mais de meia hora de dia, o padre que ento estava recolhido na cmara do capito, veio ao chapitu onde estavam o mestre e o piloto com mais seis ou sete portugueses, e depois de dar a todos os bons-dias com semblante alegre e quieto, perguntou se aparecia o batel, e lhe foi respondido que no; e rogando ao mestre que quisesse mandar um marinheiro gvea para que visse se aparecia l de cima, um dos que ali estavam lhe disse que apareceria quando se perdesse outro, a que o padre, pesando-lhe o que ouvira, respondeu:B"I       `   `   <   ` <        `    A# " B" A# " B" A#y" - irmo Pro Velho (que assim se chamava ele), muito pequena f essa que tendes! E como? Haveis vs porventura que pode ser alguma coisa impossvel a Deus Nosso Senhor? Pois eu confio nele e na sacratssima Virgem Maria sua Me, a quem por ele tenho prometido trs Missas na sua bendita casa do Outeiro, em Malaca, que h-de permitir que aquelas almas que vo nele se no percam -de que o Pro Velho ficou corrido e no falou mais palavra nenhuma.B"+`     <             A# " B" A# " B" A#N " O mestre ento para satisfazer melhor ao rogo do padre, ele em pessoa com outro marinheiro se foram gvea, e vigiando de l de cima por espao de quase meia hora, disseram que em todo o mar quanto lhes alcanava a vista, no aparecia coisa nenhuma, e o padre lhes respondeu:B"  `       <  h A# " B" A# " B" A#*1" -Ora descei-vos, que no h j que fazer.B"  A#" E chamando-me ento para o chapitu onde ele estava, e ao parecer de todos bem triste, me disse se lhe queria mandar aquentar uma pouca de gua para beber, porque trazia o estmago muito desconsolado, a que eu por meus pecados no satisfiz, por no haver fogo na nau, porque se tinha lanado ao mar no dia antes, quando se alijou o convs no princpio da tormenta. E queixando-se-me ele ento que andava muito esvado da cabea, e com vgados que lhe acudiam de quando em quando, lhe respondi eu:B"0  < <   `    <   `  <   @ A# " B" A# " B" A#3" -No de mais andar vossa reverncia dessa maneira, pois h trs noites que no dorme, e quia que nem comeria bocado, porque assim me disse um moo de Duarte da Gama.B"       A# " B" A# " B" A#" A que ele respondeu: B" A# " B" A# " B" A#;" -Certifico-vos que hei d dele, por quo desconsolado o vejo, porque esta noite depois que se perdeu o batel, nunca deixou de chorar por seu sobrinho Afonso Calvo, que vai nele com os mais companheiros.B"  <    `  A#>E" Eu ento, porque vi o padre bocejar muitas vezes, lhe disse: B"   A# " B" A# " B" A#]d" -V-se vossa reverncia encostar um pouco ali naquele meu camarote, e quia que repousar -o que ele aceitou, dizendo que fosse pelo amor de Deus, e que me pedia muito que mandasse ao meu china que lhe fechasse a porta, e se no fosse dali, para que quando o chamasse lha abrisse. E isto podia ser das seis at s sete horas da manh, pouco mais ou menos, e recolhido no camarote esteve nele todo o dia at quase sol-posto. E acertando eu neste comenos de chamar o china que estava porta, da banda de fora, para que me desse um pcaro de gua, lhe perguntei se dormia ainda o padre, e ele me respondeu:B"7<        `              A# " B" A# " B" A#EL" -Nunca dormiu, mas est de joelhos chorando de bruos sobre o catre.B"   A# " B" A# " B" A#W^" E eu lhe disse ento que se tornasse a sentar porta, e que acudisse quando chamasse.B"   A# " B" A#.5" Desta maneira esteve o padre recolhido na sua orao at quase sol-posto, e ento se saiu do camarote e se foi acima ao chapitu onde os portugueses todos estavam sentados no cho por causa dos grandes pendores e balanos que dava a nau; e depois de os saudar a todos, perguntou ao piloto se aparecia o batel, e ele lhe respondeu que por razo natural era impossvel deixar de estar perdido, com mares to grossos como aqueles, e que pressuposto que Deus milagrosamente o quisesse salvar, nos ficava j a mais de cinquenta lguas, A que o padre lhe tornou: B"5            <    `     A# " B" A# " B" A#E " -Assim parece naturalmente, mas folgaria eu, piloto, j que se nisso no perde nada, que por amor de Deus quissseis ir gvea, ou mandar l algum marinheiro que de l de cima vigie todo o mar, para que ao menos nos no fique isto por fazer. B"         A# " B" A# " B" A#" E o piloto lhe disse que ele iria l de boa vontade, E subindo acima, e o mestre com ele, mais para satisfazerem o desejo que viam no padre, que por lhes parecer que podiam ver alguma coisa, como parecia que estava em razo, se detiveram l um grande espao, e enfim afirmaram que em todo o mal no viam coisa nenhuma, de que o padre, ao parecer de todos, ficou assaz triste, E encostando a cabea no prepau do chapitu, esteve assim com aquela tristeza um pouco impando como que a querer chorar, e j por derradeiro, abrindo a boca e tomando flego, como quem desabafava daquela tristeza que tinha, e levantando as mos ao cu, disse com lgrimas: B"<                ` <       h A# " B" A# " B" A#7" -Jesus Cristo, meu verdadeiro Deus e Senhor, peo-te pelas dores da tua sacratssima morte e paixo, que hajas misericrdia de ns, e nos salves as almas dos fiis que vo naquele batel. B"       A# " B" A# " B" A#M " E tornando com isto a reclinar a cabea sobre o prepau a que estava encostado, se deixou assim estar como que a dormir, cerca de dois a trs credos, quando um menino que estava sentado na enxrcia, comeou a gritar dizendo: Milagre, milagre, que eis aqui o nosso batel. B"    `        A# " B" A# " B" A#cjq" A esta voz arremeteu toda a gente assim como estava, parte de bombordo onde o menino gritava, e viu vir o batel afastado da nau cerca de um tiro de espingarda pouco mais ou menos, e espantados todos de to novo e desacostumado caso, choravam uns com os outros como crianas, de maneira que no havia quem se pudesse ouvir em toda a nau, com os urros da gente.B"#  `   `         A# " B" A# " B" A#6" Todos arremeteram ento ao padre para se lhe lanarem aos ps, porm ele o no consentiu, e se recolheu para a cmara do capito e se fechou por dentro para que ningum lhe falasse. B"  `  `   A# " B" A# " B" A#M " Os companheiros que vinham no batel foram logo recolhidos dentro da nau, com aquele gosto e alvoroo que todos podem entender, e por isso ento deixo agora de contar aqui as particularidades deste recebimento, porque so elas mais para se cuidarem que para se escreverem. B"      `   ` A# " B" A# " B" A#" Passado assim aquele pequeno espao em que a noite se cerrou de todo, que podia ser de pouco mais de meia hora, mandou o padre por um menino chamar o piloto e lhe disse que louvasse a Deus Nosso Senhor, de quem eram aquelas obras, e mandasse fazer logo a nau prestes porque aquele contraste no duraria muito. E satisfazendo-se com toda a presteza possvel, e com muita devoo, ao que o padre mandara, prouve a Nosso Senhor que logo de improviso, antes que a verga grande estivesse em cima e as velas fossem mareadas, a tormenta acalmou de todo e nos assaltou o vento norte, com o qual por mono tendente seguimos nossa viagem com bem de alegria e contentamento de todos; e este milagre que contei, aconteceu a dezassete de Dezembro de 1551.B"D `           `  <  `     `      A# " B" A# " B" A# " B" A# " B" A##*" Do que passei depois que partimos B"`  D A##*" deste porto de Xeque at chegar B"`  D A#!" ndia, e da a este reinoB" A# " B" A# " B" A# " Velejando ns deste porto do Xeque por nossa rota, com ventos nortes de mono tendente, chegmos a Lampacau aos quatro de Dezembro, onde achmos seis naus portuguesas, de que era capito-mor um mercador que se chamava Francisco Martins, feitor de Francisco Barreto que ento governava o Estado da ndia por sucesso de D. Pedro Mascarenhas. E porque j a este tempo a mono da ndia era j quase gasta, no fez aqui o nosso capito D. Francisco Mascarenhas mais detena que enquanto se proveu de mantimentos para a viagem.B"2  <   d <           <   A#W;B " Deste porto de Lampacau partimos na primeira oitava do Natal, e chegmos a Goa aos dezassete de Fevereiro, onde logo dei conta a Francisco Barreto da carta que trazia do rei do Japo, e ele me mandou que lha levasse ao outro dia, e eu lha levei com as armas, e terados, e com as mais peas do presente que levava.B"<             A# " B" A# " B" A#;B" Ele depois que esteve vendo tudo muito devagar, me disse: B"  A# " B" A# " B" A#dnu" -Certifico-vos em toda a verdade que tanto prezo estas armas e peas que me agora trouxeste, como a prpria governana da ndia, porque com elas e com esta carta de el-rei do Japo, espero agradar tanto a el-rei nosso senhor que, depois de Deus, elas me livrem do castelo de Lisboa, onde os mais dos que governamos este Estado vamos desembarcar, por nossos pecados.B"#`      <      <   A# " B" A# " B" A#u" E em satisfao deste trabalho e dos gastos que tinha feito de minha fazenda, me fez muitos oferecimentos que eu por ento lhe no quis aceitar, mas justifiquei perante ele, por documentos e testemunhas de vista, quantas vezes por servio de el-rei nosso senhor, eu fora cativo e minha fazenda roubada, parecendo-me que isso s bastaria para que nesta minha ptria se no negasse o que por meus servios eu cuidei que me era devido.B"(     `     ` `     A# " B" A# " B" A#18" Ele me mandou passar um documento de todas estas coisas, e juntou a ele as mais certides que lhe apresentei, e me deu uma carta para sua alteza, com o que me fez to certo sobejar-me c a satisfao destes servios, que confiado eu nestas esperanas e na razo to clara que eu ento cuidava que tinha por minha parte, me embarquei para este reino, to contente e to ufano com os papis que trazia, que tinha para mim que aquele era o melhor cabedal que trazia de meu, porque estava persuadido que me no tardaria mais a merc, que enquanto a no requeresse.B"7< `   `          <  <       A# " B" A# " B" A#" Prouve a Nosso Senhor que cheguei a salvamento cidade de Lisboa, aos vinte e dois de Setembro do ano de 1558, governando ento este reino a rainha Dona Catarina, nossa senhora que santa glria haja, a quem dei a carta que lhe trazia do governador da ndia, e lhe relatei por palavras tudo o que me pareceu que fazia a bem do meu negcio. Ela me remeteu ao oficial que ento tinha a cargo tratar destes negcios, o qual com boas palavras e melhores esperanas, que eu ento tinha por muito certas, pelo que me ele dizia, me teve os tristes papis quatro anos e meio, no fim dos quais no tirei outro fruto seno os trabalhos e pesadumes que passei no requerimento, que no sei se diga que me foram mais pesados que quantos passei no decurso do tempo atrs.B"F      `   `                `   A# " B" A# " B" A#}" E vendo eu quo pouco me fundiam tanto os trabalhos e servios passados, como o requerimento presente, determinei de me recolher com essa misria que trouxera comigo, adquirida por meio de muitos trabalhos e infortnios, e que era o resto do que tinha gasto em servio deste reino, e deixar o feito justia divina, o que logo pus em obra, pesando-me ainda por que o no fizera mais cedo, porque se assim o fizesse, qui me pouparia nisso um bom pedao de fazenda.B"-`        `           A# " B" A# " B" A#B " E nisto vieram a parar meus servios de vinte e um anos, nos quais fui treze vezes cativo e dezasseis vendido, por causa dos desventurados sucessos que atrs no decurso desta minha to longa peregrinao, largamente deixo contados.B"       `  A# " B" A# " B" A#1-" Mas ainda que isto seja assim, no deixo de entender que ficar eu sem a satisfao que pretendia por tantos trabalhos e por tantos servios, procedeu mais da providncia divina que o permitiu assim por meus pecados, que de descuido ou falta alguma que houvesse em quem por ordem do cu tinha a seu cargo satisfazer-me, porque como eu em todos os reis deste reino (que so a fonte limpa donde emanam as satisfaes, ainda que s vezes por canos mais afeioados que arrazoados) enxerguei sempre um zelo santo e agradecido, e um desejo largussimo e grandioso, no somente para galardoar a quem os serve, mas tambm para fazer muitas mercs ainda a quem os no serve, daqui se entende claramente que se eu e os outros to desamparados como eu ficmos sem a satisfao dos nossos servios, foi somente por culpa dos canos e no da fonte, ou antes, foi ordem da justia divina, em que no pode haver erro, a qual dispe todas as coisas como lhe melhor parece, e como a ns mais nos cumpre. Pelo que eu dou muitas graas ao Rei do cu, que quis que por esta via se cumprisse em mim a sua divina vontade, e no me queixo dos reis da terra, pois eu no mereci mais, por meus grandes pecados. B"q<   `   ` <    `       ` `      <    `                D A# " B"