Época Medieval

Renascimento em Portugal

Sob o Signo das Luzes

A Filosofia Portuguesa do Séc. XIX
até à Proclamação da República
A Filosofia Portuguesa depois de 1910

Isaac Abravanel

Rabino lisbonense, natural de Lisboa (1437-1508) pai de Iehudah Abravanel (Leão Hebreu), distinguiu-se pelo seu labor crítico e exegético no comentário à Lei na Sinagoga de Lisboa. Membro de uma família proeminente, foi também estadista e diplomata durante o reinado de D. Afonso V. Todavia, com D. João II, viria a cair em desgraça, refugiando-se em Veneza, onde passou os seus últimos dias.

A sua obra é um cântico a Israel, distinguindo-se no entanto pelo aprofundado conhecimento dos doutores da Igreja, nomeadamente S. Tomás de Aquino, chegado mesmo a defender a validade da angeologia tomista.

Tomando partido no vasto debate em torno das relações entre a razão e a revelação, afirmou-se sobretudo como um defensor da fé, sem todavia desmerecer os direitos da razão inquiridora nos domínios da filosofia. Em todo o caso, a autoridade, a lei e a revelação assumem o estatuto de guias da razão humana, passível de falibilidade e de ilusão. Sendo anterior à filosofia, a palavra revelada contém em si o cerne da verdadeira sabedoria, situando neste contexto o papel da profecia.

Do ponto de vista exegético, sem negar a leitura alegórica dos enigmas, defendeu a interpretação literal da Escritura, devendo-se à seriedade da sua leitura e cabedal de erudição a tese da organicidade dos capítulos 21-24 do Êxodo, constituindo o Código da Aliança.

Do ponto de vista propriamente filosófico, entrou em desacordo, nas suas obras Das Obras de Deus e Céus Novos, com a tese averroísta da eternidade do mundo, a que contrapõe uma filosofia da história alicerçada em moldes escatológicos, providencialistas e messiânicos. O mundo foi criado a partir do nada, constituindo o processo dessa criação um mistério inacessível à razão.

Por sua vez, a sua confiança em Israel como «povo divino» traduziu-se na visão de uma idade messiânica, o Quinto Império, emergente das ruínas do império romano, onde nascera a Igreja e o Islão.

Obras
Hateret Zekenim (Coroa dos Anciãos), 1557; Mifalot Elohim (Das Obras de Deus) 1592; Shamayim Hadashim (Céus Novos) 1828; Comentário ao Guia dos Perplexos 1831-1832.

Bibliografia
Schwab, Abravanel et son époque.Paris, 1865; Guttmann, Die Religionsphilosophische Lehre des Isaac Abravanel, Breslau, 1916; Tanyahu, Don Isaac Abravanel, Statesman and Philosopher, Filadélfia, 1972; Pinharanda Gomes, A Filosofia Hebraico-Portuguesa, Porto, 1981 (contém ampla bibliografia); Gregório Ruiz, Don Isaac Abravanel y su Comentário al Libro de Amos, Madrid, 1984.

Pedro Calafate


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