Manuel Rui,
Quem me dera ser onda

Edições Cotovia
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1200-303 Lisboa

«Faustino só tirava o dedo do botão quando o elevador aparecia.
– Como é? Porco no elevador?
– Porco não. Leitão, camarada Faustino.
– Dá no mesmo em matéria de interpretação de leis.
– Quais leis?
– O problema é o que a gente combinou na assembleia de moradores e o camarada estava presente. Votação por unanimidade. Aqui no elevador só pessoas. E coisas só no monta-cargas.
– Mas leitão é coisa?
– Nada disso. Bichos ficou combinado cão, gato ou passarinho. Agora se for galinha morta depenada, leitão ou cabrito já morto, limpo e embrulhado, passa como carne, também está previsto. Leitão assim vivo é que não tem direito, camarada Diogo, cai na alçada da lei.
– Alçada como? Primeiro o monta-cargas está avariado. Um dia inteiro que a sua mulher andou a carregar embambas para cima e para baixo. E depois o monta-cargas, está a ver? Em segundo o leitão está em trânsito, não anda de cima para baixo e de baixo para cima. E foi este leitão que trouxe catolotolo aqui no prédio?
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© Instituto Camões, 2001