«Não
há cidade como o Porto que não permaneça página em branco ao cabo de
linhas e linhas escritas. Cercam-no de histórias e de roteiros, de
romances e de crónicas, de poemas e de ensaios, de reportagens e de
antologias, e sempre o lugar se ergue, revoltado contra um excesso de
entulho, a demandar a coroa que lhe cinja a testa. Neste sentido poderá
dizer-se do Burgo que não será ele apenas Cidade da Virgem, mas Cidade
Virgem, com isto se significando a dourada permanência de uma
intangibilidade. Vezes sem conta fui solicitado para escrever sobre este
espaço, vezes sem conta julguei ter esgotado o assunto, vezes sem conta
agi de mãos vazias, e sem um adjectivo a que pudesse apegar-me. O Porto nasce e morre connosco, igual ao mais insatisfeito de quantos desejos nos visitaram. Quer isto dizer que se não esgota em topónimos, nem em cheiros ou paladares, nem em anedotas ou falas, nem naquilo a que mais usualmente o reduzem, uma teoria de neblinas, pronta a alimentar pintores de escassa e dessorada composição. É por isso que quem se fixar no casario da Ribeira, pensando ter aí detectado uma essência, cedo se dará conta de uma moradia do Bonfim, na qual Paris é mais Paris do que em França, presenciando uma festa de trufas servidas num serviço de Limoges, e de mulheres de boá que recitam Baudelaire. É assim mesmo, não minto, e ainda que não respeitasse a verdade, preferindo a homenagem da ficção, seria isso também ambiguidade local.»
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© Instituto Camões, 2001