Viagens, viajantes e navegadores

Cabral, Pedro Álvares


Igreja da Graça e Casa do Brasil/Pedro Álvares Cabral – Santarém (fotografia) in Casa do Brasil. Edição Comemorativa da Inauguração, Santarém, Câmara Municipal de Santarém, 2000, p. 8.

Nascido em Belmonte, provavelmente em 1467, no seio de uma família fidalga com significativa tradição na prestação de serviços à Coroa. Descobridor oficial do Brasil, era filho de Fernão Cabral e Isabel Gouveia.

Sem experiência naútica anterior (documentalmente comprovada, embora seja provável que tivesse anteriormente prestado serviço no Norte de África como era frequente entre a nobreza) que fundamentasse a sua escolha para capitanear a, até então, maior expedição naval organizada por Portugal (constituída por treze velas, sendo estas 10 naus e 3 caravelas, muito provavelmente redondas – signo da adaptação do navio-tipo do reconhecimento do Atlântico por Portugal às novas condicionantes físicas e estratégicas da transoceânica rota do Cabo e dos fins comerciais e militares que aquela implicava), encontra-se a comandar pilotos de renome como Bartolomeu Dias ou Nicolau Coelho ao ser nomeado por D. Manuel capitão-mor da segunda expedição à Índia, pouco depois da chegada de Vasco da Gama. A sua posição social e o apoio dos parentes da sua futura mulher (o casamento ter-se-á realizado após o regresso da Índia), poderão justificar a sua escolha. A missão cometida a Cabral já não era de pendor exploratório,mas sim uma complexa missão multifacetada com uma forte componente político-dilpomática, bem como comercial (o que fica bem sublinhado no regimento da armada) através do propósito de estabelecimento de relações comerciais estáveis com Calecute, sem descurar o factor religioso, devendo consubstanciar-se no estabelecimento das bases concretas que potenciassem a estratégia de estabelecimento de uma forte e duradoura presença comercial portuguesa no âmbito do profícuo comércio das especiarias (na armada seguia Aires Correia como feitor que deveria permanecer no estabelecimento a instalar em Calecute).

Além desta componente vários autores têm defendido pretender-se com esta viagem o reconhecimento oficial da existência de terra brasileira (já visitada ou de cuja existência se suspeitaria). Nesse sentido, Cabral poderia deter um regimento secreto que ordenava o desvio da rota até ao Brasil. Independentemente da questão da intencionalidade (ou acaso) do Achamento/Descoberta do Brasil e do primado de Cabral na arribada a Terras de Vera Cruz o facto é que, no decurso da navegação, intencionalmente ou não, dá-se o achamento (a 22 de Abril de 1500) de uma nova e grande terra situada no Atlântico meridional em cuja exploração costeira a armada se demoraria por 10 dias, terminando por ancorar em Porto Seguro (actual Estado da Baía).

Na passagem do Cabo viria a perder quatro velas, entre as quais o navio comandado por Bartolomeu Dias que assim veria definitivamente gorado o ensejo de alcançar a almejada Índia. Reduzida a metade das embarcações a armada fará escala em Moçambique, Quíloa e Melinde.

O sucesso no Índico é relativo, nomeadamente as tentativas de estabelecer feitorias portuguesas na costa do Malabar: Cabral não consegue fixar-se em Calecute acirrando-se a oposição do samorim e dos sectores influenciados pelos influentes comerciantes muçulmanos. Tal facto redundará no assalto à feitoria portuguesa e à morte dos seus ocupantes, incluindo o feitor e escrivães (entre os quais Pero Vaz de Caminha, o autor do mais conhecido e impressivo documento relativo à Descoberta do Brasil, verdadeira certidão de nascimento, para o universo cultural ocidental, de um território que viria a ser um dia um Estado e depois ainda uma Nação). Cabral ordenará o bombardeamento da cidade e os navios muçulmanos ancorados no porto serão incendiados. Necessitando de uma alternativa criará vínculos comerciais com o reino rival de Cochim (e recebendo enviados ds reinos de Coulão e Cananor) regressando a Lisboa, apesar de todos os contratempos e das perdas sofridas em velas, homens e bens, com apreciável quantidade de especiarias.

Cabral poderá ter estado nomeado para a expedição seguinte à Índia mas acabará por não ser investido dessa função. Desaparecerá totalmente dos anais sem que exista explicação cabal para tal facto. O relativo insucesso da expedição (com a perda de muitos homens e navios), nomeadamente no domínio militar e comercial, poderá justificar tal facto, independentemente de qualquer diferendo quanto às suas funções de comando na subsequente armada destinada à Índia (a independência do comando de Vicente Sodré sobre cinco velas com a missão de patrulha do Índico) ou a qualquer teorização em torno de partidos nobiliárquicos e cortesãos divergentes quanto à estratégia e à praxis inerente à constituição de uma presença portuguesa no Oriente. Retirado da corte, viria a falecer em Santarém, provavelmente em 1520, encontrando-se aí sepultado, em campa rasa, na Igreja da Graça. A lápide do jazigo de Cabral, descoberto em 1857 por Varnhagen, demonstra a importância muito relativa que o Brasil detinha nas primeiras décadas da centúria de Quinhentos – nenhuma referência é feita ao facto de se tratar do comandante da armada que descobriu oficial e sociologicamente o Brasil. Pelo contrário, abaixo do nome de sua mulher refere-se que fora camareira de uma das filhas de D. João III.

Na História das Navegações portuguesas, Pedro Álvares Cabral tem porém lugar de destaque, como Descobridor do Brasil, comandante da maior frota até então armada por Portugal para as viagens oceânicas, e iniciador da Carreira da Índia como rota regular e líder da primeira expedição naval que ligou quatro continentes: Europa,  América, África e Ásia.


Duarte Nuno G. J. Pinto da Rocha


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