Biografias

Eanes, Gil

A Crónica dos Feitos da Guiné, de Zurara, diz-nos no capítulo IX, que o Infante D. Henrique pediu sempre aos seus navegadores para prolongarem as suas viagens cada vez mais para sul, e buscassem a terra que estava para além do Cabo Bojador. Passou tempo sem que o conseguissem, mas, “finalmente, depois de doze anos, fez o Infante armar uma barca, da qual deu a capitania a um Gil Eanes, seu escudeiro (que ao depois, fez cavaleiro e agasalhou muito bem), o qual, [...] não chegou mais que às ilhas de Canária [...] Mas logo no ano seguinte o Infante fez armar outra vez a dita barca. E chamando Gil Eanes a de parte, o encarregou muito que, todavia, se trabalhasse de passar aquele cabo”, o que efectivamente veio a ser concretizado, nesse ano de 1434.

Estes dados tão preciosos para identificar este Gil Eanes como um homem que, certamente, vivia em Lagos e que era criado da casa do Infante, de quem recebia agora o grau de cavaleiro como prémio deste seu feito notável. E a identificação concisa é tanto mais importante quanto, na mesma altura, há outras figuras com o mesmo nome (uma delas é referenciada pelo próprio Zurara, dizendo “não aquele cavaleiro de que antes falámos”), que numa análise menos cuidada poderiam levar à confusão com o navegador que tão importante papel viria a ter no avanço das navegações ao longo da Costa Ocidental Africana.

Logo no ano seguinte à feliz notícia manda o Infante que se arme um barinel, cujo comando entrega a Afonso Gonçalves Baldaia, para que acompanhasse Gil Eanes e procurassem ir mais para sul, ainda, até onde lhes fosse possível. O cronista afirma que navegaram cinquenta léguas para lá do Bojador – valor impossível de confirmar, mas que parece ser exagerado – e diz-nos que não trouxeram outra informação que não fosse a descrição de uma costa inóspita e sem casas, onde, apesar de tudo, foi possível observar pegadas de gente e de camelos. Um sinal que, pela certa, entusiasmaria D. Henrique a prosseguir a sua empresa.

Durante anos, o nome de Gil Eanes deixa de aparecer na Crónica, embora não seja de duvidar que permaneceu ao serviço do Infante e continuou a viver em Lagos, onde o iremos encontrar alguns anos mais tarde. As viagens portugueses à África Ocidental sofreram uma pequena pausa (ou abrandamento), no último quartel dos anos trinta, mas foram retomadas no princípio da década de quarenta, com resultados que pareciam ter uma importância económica significativa (sobretudo a captura de escravos), ao ponto de motivarem a iniciativa privada para armar navios e levar a cabo algumas expedições. A primeira delas tem lugar no ano de 1444, é proposta por um tal Lançarote (“almoxarife de el-Rei naquela vila de Lagos”) e leva como segunda figura e capitão de um dos navios, Gil Eanes, “aquele que escrevemos que primeiramente passara o cabo Bojador” – como diz o cronista. São seis caravelas que se dirigem à Ilha das Garças, a sul dos Baixos de Arguim, onde Nuno Tristão já tinha estado no ano anterior. A expedição tinha objectivos essencialmente comerciais, mas isso não era incompatível com a exploração de algumas das ilhas mais a sul, sobre as quais, aliás, já havia informações concretas de que era possível fazer grande número de cativos, como viria a acontecer. Em Naar e Tider, com relativa facilidade, deram caça aos mouros que andavam desprevenidos em fainas de pesca, ou que viviam perto da costa. A zona não é fácil para a navegação com as caravelas, mas à custa dos batéis e com saídas bruscas obtiveram o maior número de escravos que alguma vez tinha sido feito por qualquer expedição portuguesa. No dia 8 de Agosto de 1444 – um dia após a sua chegada – teve lugar no terreiro, defronte da porta da vila, a macabra partilha duma mercadoria que se viria a tornar habitual.

Dois anos depois, o mesmo Lançarote volta a pedir ao Infante para organizar nova expedição, apresentando-lhe como argumento o mal que os mouros daquela ilha de Tider vinham fazendo aos portugueses, e propondo-se destruir o seu poder, com o mesmo sentido da cruzada que já estivera presente Ceuta e em todas as campanhas contra os mouros do Norte de África. O Infante aceita a proposta e a expedição forma-se com 14 navios, um dos quais comandado por Gil Eanes, que viria a ser o porta estandarte na batalha travada na Ilha, e da qual saíram vitoriosos. Embora seja claro e notório que Lançarote colocara nesta expedição os mesmos objectivos que tivera em 1444, e estava disposto a prosseguir a sua caça aos escravos, o Infante definira a batalha como a missão fundamental da esquadra, autorizando o regresso dos capitães que não quisessem continuar a aventura. Gil Eanes foi um dos regressou imediatamente, alegando a fragilidade do seu navio e a proximidade do Inverno. Não voltamos a ter notícias dele, mas é normal que tenha continuado a viver em Lagos, pois era ali que tinha os seus negócios e a sua vida, sempre ligada ao mar.

Luís Jorge Semedo de Matos

Bibliografia

ALBUQUERQUE, Luís, Gil Eanes, O Cabo Bojador, Lisboa, Academia de Marinha, 1987.
COSTA, A. Fontoura da, Descobrimentos marítimos africanos dos portugueses com D. Henrique, D. Afonso V e D. João II, Lisboa, Sociedade nacional de Tipografia, 1938.
ZURARA, Gomes Eanes, Crónica dos feitos notáveis que se passaram na conquista de Guiné por mandado do infante D. Henrique, 2 vols, Lisboa, Academia Portuguesa de História, 1981.

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