Ângela Ferreira

Ângela Ferreira Moçambique ¶ 1958

  Ângela Ferreira
  Créditos fotográficos / Photographic credits:
Abílio Leitão

Com dupla nacionalidade, a artista tem vivido alternadamente entre a África do Sul e Portugal. Completou estudos na Michaelis School of Fine Arts da Universidade de Cape Town, em 1985, e residiu nos anos seguintes em Lisboa, onde rapidamente se afirmou no meio artístico. Portugal é um país estranhamente desprovido de memória sobre a história recente, sobretudo no que diz respeito ao passado colonial. Sendo a primeira a eleger essa questão como temática, a autora inaugurou em termos nacionais uma nova problemática artística. A questão das identidades, considerada em termos de cultura, género, etnia ou orientação sexual, enquadra todo o debate artístico dos anos 90. Utilizando a sua dupla experiência cultural, europeia e africana, Ângela Ferreira procura encontrar esse difícil ponto de vista que se apresenta como um não-ponto de vista, ou seja, como uma proposta de diálogo continuado. A artista desconstrói o referencial minimalista minando-o com o poder evocativo da memória. Entre 1996 e 1997 empreende um projecto emblemático na Fundação Chinati, Marfa, Texas, onde Donald Judd depositou o seu espólio, criando uma instalação que evoca a artista popular Sul-Africana Helen Martins. Em Nieu Bethesda, lugar da residência desta, instala objectos reminiscentes da obra de Judd. A dupla instalação foi nomeada Double Sided e através dela Ângela Ferreira cria uma dialéctica de contextos que permanece um testemunho da transciência geográfica e cultural da existência. Em Amnésia (1997) produz um cenário de estilo colonial, usando mobiliário de época para recriar uma sala de estar onde o espectador é convidado a sentar-se assistindo a um vídeo de carácter sentimental sobre o passado colonial português. Na sala contígua três troncos de árvores africanas jazem no chão. A ambivalência na relação com a memória colonial faz-se sentir tanto no tratamento da "história oficial" quanto no modo como se lhe associam referências pessoais. Organizando, justapondo e confrontando objectos, memórias e arquitecturas, Ângela Ferreira empreende uma estratégia de interrogação que tanto se dirige a um paradigma do artístico, pelo constante questionar da estrutura modernista, a nível formal, quanto a um paradigma civilizacional, pelo constante questionar de determinismos culturais, a nível conceptual. Foi escolhida para a Representação Portuguesa na Bienal de Veneza 2007.

 

 

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