Lucien Donnat

(Pomponne, França, 14-06-1920 —Lisboa, 26-01-2013)

Lucien Donnat foi um artista multifacetado, mais conhecido pelo seu trabalho na área da decoração de interiores, mas hábil também em pintura, design e música. Alcançou grande notoriedade como cenógrafo e figurinista devido a uma colaboração extensíssima e em regime de quase exclusividade com a Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro, da qual foi diretor plástico, e com a qual trabalhou desde 1941 até à dissolução da mesma, em 1974.

  Lucien Donnat
  Retrato de Lucien Donnat, (início da década de 1960), TNDMII/fot. José Marques, AA. VV. (2014). Lucien Donnat: um criador rigoroso. Lisboa: TNDMII, IN-CM, p.18

Lucien Donnat nasceu em Pomponne, província de Seine-en-Marne, em França, a 14 de junho de 1920, no seio dos Goldstein, uma família com raízes judaicas. Após ter vivido parte da sua infância nas proximidades de Paris, Lucien  veio para Portugal, em 1927, com a sua família, devido a uma oportunidade profissional que o seu pai, Joseph Goldstein, aceitou em Lisboa, no Comptoir Paris-Congo. Após uma breve estadia em Cascais, Os Goldstein instalaram-se na Praça do Príncipe Real, próximo da École Française, no Pátio do Tijolo, onde Lucien estudou, acompanhado pelo seu irmão Roger e pela sua irmã Ginette, ambos mais velhos do que ele.

Quando tinha apenas 14 anos, Donnat perdeu a mãe, Germaine, com quem tinha uma forte ligação e de quem dizia ter herdado a sensibilidade artística. Passados dois anos, em 1936, quando terminou os seus estudos em Lisboa, foi enviado para a casa dos avós maternos, em Paris, juntamente com o seu irmão, para aí frequentar o ensino superior. A princípio hesitante entre uma carreira de pâtissier e de decorador, o jovem Lucien acabou por ingressar, em 1937, na École Nationale Supérieure des Arts Décoratifs. Paralelamente aos estudos, Donnat iniciou uma breve carreira como chansonnier pelos cabarés de Paris, compondo, tocando e cantando as suas próprias canções, o que lhe permitiu algum desafogo económico. Foi através desta atividade paralela – bastante mal vista pela sua família – que surgiu a mudança de apelido, sugerida pela dona de um dos estabelecimentos em que actuava, visto que as semelhanças entre Lucien, então ainda Goldstein, e Robert Donat – estrela de cinema da época – eram notórias e este novo nome seria mais sonante para a promoção do jovem cantor. Foi também por esta altura que, segundo Luiz Francisco Rebello (1970: 251), Donnat deu os seus primeiros passos no mundo do teatro ao participar em alguns espetáculos de teatro universitário.

Lucien encontrava-se de férias em Lisboa, no verão de 1939, quando deflagrou a II Guerra Mundial, facto que impediu o seu regresso à capital francesa e o levou a fixar-se em Portugal, montando, em 1942, o seu primeiro atelier de decoração nas Janelas Verdes, mais precisamente, no refeitório do antigo Convento dos Marianos, espaço onde a sua família mantinha, desde 1932, a pensão York House. Mesmo antes de iniciar a parceria com a companhia de Amélia Rey Colaço, Donnat já se movimentava no mundo do espetáculo, ainda que de forma esporádica, tendo contribuído para várias produções num curto espaço de tempo, entre as quais destacamos a revista Franco-Anglaise, um espetáculo de beneficência para a Cruz Vermelha, estreado em abril de 1940 no Teatro da Trindade, e apresentado, também, no Teatro Rivoli, no Porto, nesse mesmo ano. Nesta revista, composta por duas partes (uma inteiramente em francês e outra inteiramente em inglês), Lucien, o único responsável pela construção da parte francesa, assumiu as funções de autor do texto, encenador, ensaiador, compositor, figurinista, cenógrafo, ator, pianista e cantor. Ainda em 1940, Donnat criou, juntamente com Amaral, uma série de 13 painéis de azulejos, executados pela Fábrica Sant’Anna, com o intuito de promover os produtos portugueses – como o vinho, a cortiça, os bordados, as conservas de peixe, as faianças, entre outros – no contexto da Exposição do Mundo Português, e que estão hoje visíveis na plataforma da estação ferroviária do Rossio, à qual foram doados, em 1958, pelo Fundo de Fomento de Exportação.

O ano de 1941 foi de extrema importância na carreira de Lucien Donnat. Surgiu, de facto, em junho, a primeira oportunidade de dar a conhecer ao público a diversidade e qualidade do seu trabalho, com a primeira de várias outras exposições que realizou durante as décadas de 1940 e 1950. Esta exposição a solo, no Estúdio do Secretariado de Propaganda Nacional, em São Pedro de Alcântara, apresentava-se em cinco partes: decoração, pintura, retratos, desenhos e teatro e foi, no geral, bem acolhida pela crítica. Mas foi em dezembro desse ano que surgiu o aliciante convite para a conceção dos cenários, figurinos e música para a peça infantil Maria Rita – da autoria de Teresa Canto, pseudónimo de Mariana Rey Monteiro – que Donnat também encenou, dando, assim, início  a uma duradoura e produtiva parceria com Amélia Rey Colaço, com quem manteve uma forte ligação pessoal ao longo de cinco décadas.

Donnat contribuiu para a criação de 140 dos cerca de 250 espetáculos estreados pela Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro entre 1941 e 1974, desempenhando neles as mais variadas funções, desde a criação de cenografia e figurinos – as mais frequentes – à encenação, marcação e composição musical. Para a conceção de cenários e figurinos, Donnat trabalhava frequentemente a guache sobre papel ou cartolina, com um grande cuidado em relação à seleção de cores e tecidos. Contudo, a partir da década de 1970, Lucien passou a trabalhar quase exclusivamente com maquetes em três dimensões (SANTOS 2014: 81). Construiu, com o bom gosto e rigor, que eram a sua marca, o espaço cénico e os figurinos necessários aos espetáculos da Companhia, baseados em textos da mais variada natureza e épocas históricas, mas criando ambientes sempre adequados e frequentemente elogiados, e que Luiz Francisco Rebello caracterizou como dotados de um “[…] modernismo cosmopolita em que, por vezes o parti-pris decorativista se torna exorbitante” (REBELLO 1970: 251). Entre os mais elogiados, destacamos pelo seu impacto e qualidade, Electra e os fantasmas (1943), O leque de Lady Windermere (1944), Othello ou o mouro de Veneza (1945), Os Maias (1945), Antígona (1946), Tá-mar (1955),  Equilíbrio instável (1967) e Calígula (1971).

Apesar da sua indiscutível fidelidade à companhia residente do TNDMII, Donnat trabalhou, também, em espetáculos de outras companhias, como O rei (1945), dos Comediantes de Lisboa; as revistas Zé Povinho (1942), Margarida vai à fonte (1943) e A travessa da espera (1946), bem como  nas óperas A história do soldado (1944) e Rapto no serralho (1952). Realizou, em 1945, a sua única incursão pelo mundo do cinema, ao ser diretor artístico do filme de Jorge Brum do Canto, Ladrão, precisa-se.

Com o fim da Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro, em 1974, Lucien Donnat passou a trabalhar apenas na área da decoração, setor que sofreu uma quebra acentuada durante o período agitado que se seguiu ao 25 de Abril, o que o levou a abandonar o país em 1978. Manteve, todavia, o seu atelier aberto, situado desde 1948 no Largo de São Roque, com o dinheiro que enviava. Instalou-se, de facto, no Brasil, onde construiu, de raiz, um novo negócio de decoração, passando a trabalhar entre São Paulo, Buenos Aires e Nova Iorque. Regressou definitivamente a Lisboa em 1990, seduzido pelo convite para participar num projeto de desenvolvimento de uma nova unidade hoteleira.

Ao longo da sua carreira de decorador, que manteve paralelamente à sua carreira no teatro, Donnat foi responsável por importantes intervenções no Palácio Estoril Hotel, no Hotel Ritz, no Hotel Avenida Palace, na embaixada de França em Lisboa, na Nunciatura Apostólica de Lisboa, na York House e no Convento dos Cardaes, onde Lucien viveu os seus últimos anos. Recebeu várias condecorações pelo seu trabalho: a Comenda da Academia das Artes, Ciências e Letras de Paris, na década de 1960; a nomeação de Cavaleiro da Ordem de Artes e Letras de França (1973) e, em 1994, recebeu o grau de Comendador da Ordem do Mérito. Foi também em 1994 que Lucien Donnat se despediu da sua atividade de cenógrafo e figurinista, colaborando, a convite da Comuna – Teatro de Pesquisa, no espectáculo A senhora Klein, de Nicholas Wright, com encenação de João Mota.

    As suas criações espelhavam, de algum modo, o cuidado e o requinte que evidenciava na forma como se vestia e apresentava, sendo hoje recordado como um artista completo, dotado de uma grande sensibilidade, inteligência e dedicação ao trabalho, qualidades que lhe valem, seguramente, o título de um dos maiores cenógrafos do teatro português.


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Eunice Azevedo/Centro de Estudos de Teatro