Companhia Rafael d’Oliveira, Artistas Associados

(1920-1975)

Na base da génese da companhia encontra-se a Trupe Silva Vale e a passagem da liderança da mesma do ator Silva Vale para Rafael de Oliveira, em 1918. A designação Companhia Rafael d’Oliveira surgiu como definitiva apenas em 1933.

  Companhia Rafael d'Oliveira
  O elenco da companhia na década de 50”, Rafael de Oliveira: O sonho de uma vida, caderno-programa nº 9 da Companhia
Teatral do Chiado, 1992.

Esta sociedade artística, que subsistia através das receitas dos seus espetáculos, assentava numa dinâmica familiar, em que qualquer um dos societários acumulava diversas funções que poderiam ser tanto de cariz artístico, como técnico ou administrativo. O elenco inicial contava apenas com dez artistas, entre eles Rafael de Oliveira e sua mulher Ema de Oliveira. Em 1936 e em nome de uma maior autonomia, surgiu um Teatro Desmontável – uma grande estrutura independente, movida, inicialmente, por via ferroviária e, mais tarde, em dez camiões – do qual a Companhia fez uso até outubro de 1974, quando o arrendou à Companhia Adoque, em Lisboa. A Companhia conheceu o seu período de maior sucesso durante as décadas de 1940 e 1950, chegando a realizar digressões às Ilhas, a Angola e a Paris. Do seu vasto repertório destacam-se peças como Amor de perdição (1921-1973), de C. C. Branco, A Rosa do adro (1922-1974), de Manuel Maria Rodrigues, e As duas causas (1933-1972), de Mário Duarte e Alberto Morais.

Esta Companhia de província percorreu o território nacional durante mais de 50 anos, representando um reportório eclético de caráter popular, de autores nacionais e estrangeiros, êxitos de bilheteira dos principais teatros de Lisboa e Porto, cujos ecos se repercutiam na província através de agrupamentos dramáticos amadores. Desde os melodramas oitocentistas de importação francesa (D’Ennery, Decourcelle, Sand ou Dumas) aos de criação nacional (Camilo Castelo Branco, Júlio Diniz ou Manuel Maria Rodrigues), o público provinciano acolhia com entusiasmo a adaptação folhetinesca das paixões sofridas, amores de salvação de Gaiatos de Lisboa, ou de perdição, de Teresas de Albuquerque ou de Rosas do Adro; e rejubilava com as comédias de Acácio Antunes e Baptista Diniz, dos teatros Chalets das Feiras de Março e Agosto, com a magia das oratórias de Braz Martins, das feeries dos velhos tempos do Variedades ao Salitre, e do Ginásio ao Chiado; com as operetas do teatro Apolo, e as ingénuas revistas de produção provinciana; mas também com os dramas sociais de Ramada Curto, com o modernismo de Luiz Francisco Rebello, e o teatro alegre de Ribeirinho e Henrique Santana.

Quando, em 1918, Rafael de Oliveira assumiu a liderança da Trupe de Silva Vale, a imprensa regional passou a designar a companhia pelo nome do seu diretor. As sucessivas designações iniciais – Troupe Dramática União (1918), Tournée Artística Societária (1921), Companhia Societária de Declamação (1925-28), Companhia de Opereta, Drama, Comédia e Revista (1929-32) –, culminaram, em 1933, no que era há muito vox populi: a Companhia Rafael d'Oliveira, Artistas Associados.

Este agrupamento plurifamiliar formalizara-se como sociedade artística, tendo como provento as receitas dos espetáculos. Possuía cenários próprios, adequados às peças representadas, e utilizados em mais do que um espetáculo, consoante o ambiente desejado. O guarda-roupa, propriedade individual dos artistas, compunha-se de peças base, concebidas de acordo com a tipologia das personagens representadas e uma estética de bom gosto. Como em todas as companhias de província, qualquer dos societários acumulava outra função com a de intérprete: encenador, cenógrafo, contra-regra, ponto, aderecista, secretário, ou bilheteiro.

O primeiro elenco conhecido (1918) compunha-se de dez atores – Rafael de Oliveira, Ema de Oliveira, Silva Vale, Laurinda Vale, Lucília Vale, José Carlos de Sousa, Edmundo de Sousa, Concórdia de Sousa, Lucília de Sousa e João Fernandes –, representando um reportório de uma vintena de peças, de diferentes géneros, pelos teatros de província, em permanente deambular pelo país.

Com o furor da 7ª Arte e a reconversão dos teatros em cine-teatros, Rafael de Oliveira viu-se compelido, em 1936, a mandar construir um Teatro Desmontável, que lhe conferiu maior autonomia face aos empresários locais, e melhorou as condições de representação. A frágil estrutura de madeira e zinco, «modesto conservatório ambulante da arte de Talma», com lotação para cerca de 800 pessoas, foi sofrendo sucessivas melhorias, consoante as necessidades físicas e artísticas da companhia. Inicialmente deslocado por via-férrea, a partir de 1960, após a inauguração, em Faro, da sua última versão, o transporte passou a ser feito em dez camiões, carregando dez toneladas, e requerendo quinze dias de montagem.

As décadas de 40 e 50 corresponderam ao período áureo da Companhia, que, em 1954, auferiu o primeiro apoio à exploração, através do S.N.I. (Secretariado Nacional de Informação), apoio esse sucessivamente renovado, através da rubrica relativa ao teatro itinerante do Fundo de Teatro. Apesar do despovoamento da província na década de 1960, a companhia manteve uma atividade regular pelo continente até à sua dissolução, em 1975.

O sonho de viajar levou a Companhia Rafael d’Oliveira, em 1947-48, a uma digressão por teatros do Funchal, de S. Miguel e da Terceira, e, em 1973, a deslocar o Teatro Desmontável em Angola. Ribeirinho encenou, então, um reportório de êxitos seus – À espera de Godot, Noite de Reis e Armadilha para um homem só – para um elenco alargado a artistas convidados: Canto e Castro, Rui de Carvalho, Tomás de Macedo e Hermínia Tojal. Em 1974, a Revolução de Abril alterou os planos de uma digressão a Moçambique e o sonho de se poder tornar na companhia de teatro nacional de Angola. Fernando de Oliveira, diretor da companhia desde a morte do seu pai, convidou Rogério Paulo a refazer a sua encenação cubana da peça proibida de Santareno, A traição do Padre Martinho. Esta subiu à cena no Teatro Maria Matos, em Setembro de 1974, passando para o palco do Desmontável (partilhado agora com a companhia Adoque), instalado no Largo de Martim Moniz, em Lisboa, antes de cumprir a sua vocação itinerante. Em Novembro desse ano, com o apoio do MNE (Ministério dos Negócios Estrangeiros) e do MFA (Movimento das Forças Armadas), a companhia deslocou-se ao Centro Cultural da Municipalidade de Pantin (Paris), num fim-de-semana cultural para emigrantes. Dissenções internas do elenco provocaram a substituição do diretor Fernando de Oliveira por uma autogestão de atores. Sem condições de funcionamento, a Companhia Rafael de Oliveira acabou por se dissolver em Agosto de 1975.

De um reportório médio de 40 peças, destacam-se como mais representadas Amor de perdição (1921-1973), de C. C. Branco, A Rosa do adro (1922-1974), de Manuel Maria Rodrigues, e As duas causas (1933-1972), de Mário Duarte e Alberto Morais. Há ainda quem recorde a Companhia Rafael de Oliveira, não só pelos espetáculos de feição popular, de estética naturalista, em que o sabor lacrimejante das paixões dava lugar à alegria esfusiante dos atos de variedades. Como companhia de província, o seu sucesso fez-se na participação da vida comunitária local, vivendo em casas alugadas, frequentando as escolas e os espaços de sociabilidade locais, dinamizando os grupos cénicos amadores e contribuindo para as instituições de solidariedade social, durante as suas permanências temporárias.

 

Bibliografia

FILIPE, José Guilherme Mora (2007). Percursos itinerantes – A companhia de Rafael de Oliveira, Artistas Associados. Dissertação de Mestrado em Estudos de Teatro, apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (texto policopiado).

MOURA, Nuno (2007). “ Indispensável dirigismo equilibrado”: O Fundo de Teatro entre 1950 e 1974. Lisboa: Dissertação de Mestrado em Estudos de Teatro, apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

VIEGAS, Mário (coord.) (1992). Rafael de Oliveira: O sonho de uma vida, caderno-programa nº 9 da Companhia Teatral do Chiado.

 

Consultar a ficha de instituição na CETbase:

http://ww3.fl.ul.pt/CETbase/reports/client/Report.htm?ObjType=Instituicao&ObjId=6195

Consultar imagens no OPSIS:

http://opsis.fl.ul.pt/

 

Guilherme Filipe/Centro de Estudos de Teatro