Augusto Rosa

(Lisboa, 06-02-1850 – Lisboa, 02-05-1918)

 Augusto Rosa foi ator, encenador, mestre dramático, diretor artístico, administrador e sócio fundador de uma das mais significativas companhias de teatro portuguesas: a Rosas & Brazão.

  Augusto Rosa
  Retrato do ator Augusto Rosa, 1914 [Arquivo Municipal de Lisboa – Núcleo Fotográfico].

Filho de João Anastácio Rosa e irmão mais novo de João Rosa, Augusto cresceu fascinado pelo teatro e, após um breve desvio de carreira – uma incursão na escrituração comercial – deu início, no Teatro Baquet, com o apoio de seu pai, a uma gloriosa carreira, que começou a 31 de janeiro de 1872, com O Morgado de Fafe em Lisboa. Representou em vários teatros, como o Ginásio, o Trindade, o TNDMII – onde fez as suas criações mais marcantes – e o Teatro D. Amélia, ao longo de mais de quatro décadas. Foi um dos responsáveis pela revitalização do palco português no virar do século, introduzindo nas suas encenações marcas de um naturalismo que se fazia sentir pela Europa fora.

Augusto Vidoeira Rosa nasceu a 6 de fevereiro de 1850 no seio de uma família fortemente ligada ao teatro, tendo seguido, à revelia de ambos os progenitores, as passadas de seu pai, o grande ator João Anastácio Rosa. Rosa pai, após ter visto o seu filho mais velho, João Rosa, iniciar-se a seu lado no teatro, ditou que o filho mais novo deveria seguir uma carreira mais sólida e com melhor remuneração, enviando o jovem Augusto para estudar alemão e escrituração comercial. Todavia, Augusto — que desde os tempos do colégio sonhava com o teatro, muitas vezes em conjunto com o seu colega de carteira Eduardo Brazão, com quem costumava brincar, no recreio, aos teatros de papel (ROSA 1915: 16-17) — não se deu bem na carreira de escriturário, como ele próprio afirma nas suas memórias, confessando que não tinha jeito para o ramo.

Esta falta de vocação para a escrituração comercial cedo deu lugar ao chamamento artístico e Augusto, juntamente com o seu amigo Henrique Prostes, decidiu adaptar o romance de Vítor Hugo, O homem que ri, para ao palco, utilizando, para tal, o horário do expediente. Concluído o drama, decidiram apresentá-lo ao ator Brandão, na altura um dos empresários do Teatro da Rua dos Condes, que o recusou “[…] por necessitar excessiva despeza” (ibidem: 20), falhando, assim, a sua primeira tentativa de sucesso no mundo do tablado.

Contudo, Augusto não desistiu e rapidamente cedeu à sua verdadeira paixão – a representação –desafiando a vontade do pai que, descontente, permitiu a realização do seu sonho, desde que o jovem Augusto o fizesse no país vizinho, onde, segundo João Anastácio Rosa, a profissão de ator era encarada com maior respeito. Augusto começou, então, a frequentar aulas de castelhano e, pouco tempo depois – já dominando a língua – partiu para Madrid com cartas de recomendação. Apresentou-se em vários teatros, sempre sem sucesso, regressando, depois, a Lisboa, com a determinação de se fazer ator na sua terra natal.

O seu pai, novamente, cedeu à pressão do filho, que insistia em ser ator em Portugal, e deu início à sua formação, levando-o a ler obras que considerava essenciais, entre as quais o Paradoxo sobre o comediante, de Diderot. Augusto Rosa reconheceu a importância da educação artística que o seu pai lhe proporcionou, bem como alguns dos conselhos que recorda nas suas memórias, nomeadamente a importância do estudo e da “Verdade” na arte do ator (ibidem: 24).

Quando Rosa sénior considerou que o filho mais novo estava preparado para a estreia nacional levou-o – tal como a João Rosa, dez anos antes – a debutar no Teatro Baquet, no Porto, onde se apresentou a 31 de janeiro de 1872, com O Morgado de Fafe em Lisboa, estreia que se fez, segundo o próprio Augusto Rosa, quase em segredo, mas com sucesso (ibidem: 77). Do Porto seguiu para Lisboa, onde se apresentou, a 5 de dezembro desse mesmo ano e com o mesmo espetáculo, no Teatro do Ginásio, espaço em que, por meio da sua primeira escritura, permaneceu até 1874. Em maio desse mesmo ano aceitou rumar novamente ao Porto para trabalhar com uma empresa que acabou por falir, facto que o trouxe de novo à capital e, desta vez, ao palco do Trindade, onde se apresentou a 30 de setembro de 1874, com a comédia A pior inimiga (SOUSA BASTOS 1898: 62). Augusto Rosa permaneceu no Trindade até 1876, ano em que se transferiu para o TNDMII, com a empresa Santos & Pinto – da qual faziam parte também os nomes sonantes de João Anastácio Rosa, João Rosa, Taborda, Lucinda Simões e Emília das Neves –, distinguindo-se em espetáculos como Ilusões perdidas (1876), Meia azul (1876) e Família americana (1877).

Apesar de o embrião da Rosas & Brazão ter surgido apenas em 1880, com a proposta de concessão do TNDMII feita pela Sociedade de Artistas Dramáticos Portugueses, Augusto Rosa tinha já um papel de significativa influência dentro do [Teatro] Normal, como nos recorda Matos Sequeira, ao analisar a época de 1878-79, em que se fazia já sentir a sua mão – bem como a de seu irmão e de Brazão – na escolha de repertório, que pretendia “[…] rejuvenescer o gosto do público, trazendo-lhe do estrangeiro os melhores acepipes teatrais do momento”, como foi o caso de O amigo Fritz (1892), que deu a Augusto um dos seus papéis mais memoráveis (SEQUEIRA 1955: 346). A sua crescente importância dentro do TNDMII foi reforçada com o aparecimento da já referida Sociedade de Artistas Dramáticos, ao ser-lhe entregue a procuração de cada um dos sócios aquando da celebração do contrato com o Governo, assumindo, assim, um lugar de destaque na gerência dessa mesma sociedade. Com a passagem da Sociedade a Companhia Rosas & Brazão o seu poder foi consolidado, passando a mexer “[…] os cordelinhos de tôda a política de bastidores […]” (SCHWALBACH 1944: 156), tornando-se “[…] o grande organizador, o coordenador a quem se deve o que a Companhia teve de mais inovador, quer a nível de conjunto artístico, quer a nível da criação de espectáculos de grande exigência estética, quer ainda na escolha de um reportório que, agradando ao público, mantinha uma certa altura cultural” (SANTOS 1979: 31).

A sua presença como “[…] poder oculto da política cénica […]" (SCHWALBACH 1944: 156) continuou após a passagem da Rosas & Brazão para o Teatro D. Amélia, em 1898, perpetuando o desempenho de múltiplas funções em simultâneo. O mano Augusto – como era frequentemente tratado por João Rosa – não se limitava à representação, assumindo, também, funções como ensaiador, encenador, diretor artístico e mestre de jovens atores, entre os quais se destacou Amélia Rey Colaço. Apesar de partilhar o seu conhecimento com um grupo restrito de atores em formação, Augusto Rosa nunca quis aceitar o cargo de professor no Conservatório, talvez porque, como ele próprio confessou: “Ensina-se no teatro por prazer, ensina-se por simpatia, por amisade, por devoção, nunca por dever” (ROSA 1917: 98).

Para Augusto Rosa, o ator deveria, com base no estudo minucioso, “[…] examinar, escalpelisar, dar nervos, dar sangue, dar vida à personagem que lhe foi confiada, sem exageros de declamação, nem exuberância de gestos, nem excessos de voz […]” (ROSA 1917: 25). O próprio Augusto é frequentemente relembrado como um ator, não só cultíssimo e viajado, mas, de acordo com as suas próprias convicções teóricas, extremamente “[…] meticuloso, de estudo profundo, levando a extremos […] a composição exterior das figuras que interpretava […]” (SANTOS 1979: 31). Contudo, talvez o seu estilo de representação se pautasse, um pouco, pelas características que ele próprio criticava – os exageros de voz e de gesto – por influência da escola romântica que esteve na base da sua aprendizagem. Deste modo, Augusto, sendo o produto de uma época de transição no teatro português, talvez nem sempre fosse capaz de concretizar em palco, enquanto ator, o naturalismo que defendia nos seus estudos e aplicava nas suas encenações.

Uma das características mais relembradas e, aparentemente, mais marcantes de Augusto Rosa era a sua voz, da qual Fialho de Almeida não guardou as melhores recordações, caracterizando-a como tendo “[…] timbre desigual, quási toda de cabeça, tornava-se imprópria […] para a vitalização dos relances patéticos, e daí o sair cantada e recomida no fim das frases, pela curteza asfíxica do fôlego, e o quebrar-se nas passagens de força – donde a recorrência às ressonâncias de gorja sempre que o papel pedia veemências e transfigurações passionais do coração” (ALMEIDA 1953: 389). Essa mesma voz, que já a sua discípula, Amélia Rey Colaço, recorda de forma completamente diferente – “[…] aquela maravilhosa voz que tantas vezes soubera arrebatar o público!” (SANTOS 1989: 29) – era, para Fialho, “[…] o motivo por que os seus papéis dramáticos [eram] ridículos, todos, e porque os seus galãs e meios centros d’alta comédia sejam talvez das suas composições mais duradouras” (ALMEIDA 1953: 389).

Augusto Rosa, frequentemente descrito como um dandy, mantinha sempre um aspeto extremamente cuidado e impecável, facto que motivou Fialho de Almeida a ridicularizar a extrema preocupação que aquele dedicava à sua imagem e que nem gravemente doente negligenciava: “Vestindo bem, gastando na gravata mais talento de composição do que na mise-en-scène, […] tanto gosto de si fazia em cena, que só na pintura dos olhos gastava todas as noites o curso completo na Academia Real de Belas Artes.” (ALMEIDA 1953: 388). Já Eduardo de Noronha partilha uma lembrança menos ácida que a de Fialho no que toca à figura de Augusto: “Fato preto, de córte impecavel; bota de polimento, calçando, janota, o pé pequeno; luva amarela de peau de Suède; de andar firme, seguro; de olhar investigador e ao mesmo tempo caricioso; aquelle seu modo peculiar, simultaneamente de bonhomia, de afabilidade, um tanto teatral […]” (NORONHA 1927: 49-50).
Augusto era, para a grande maioria das pessoas que o conheciam e do público que frequentava o teatro, um artista completo, “[…] o actor moderno, o actor do detalhe, da minucia, da observação […] graduada com intelligencia, habilissimo na difficilima arte do crescendo, com o instincto innato da scena, valorisando com o estudo e o espirito sagaz de observação as rarissimas qualidades com que nasceu e que até aos ultimos dias da sua vida conservou pujantes e frescas" (Anon 1918a: 1). Esses últimos dias viriam em 1918, pouco depois de se ter retirado do palco devido à grave doença que lhe afetou a voz.
Embora Augusto tenha admitido que gostava “ […] muito mais de representar uma peça moderna, serena ou violenta, de caracteres, com personagens do meu tempo […] do que representar um drama histórico, com personagens que eu não vi e que não conheço senão pelas cronicas […]” (ROSA 1915: 244), a verdade é que foi neste último género que se registaram as suas melhores criações, entre elas as de D. César de Bazan (1901), A estrangeira (1880), Leonor Telles (1889), Alcácer-Quibir (1891), Affonso VI (1890) e Alfageme de Santarém (1892).
Realizou, apesar de ele próprio confessar o reduzido prazer que delas retirava (ROSA 1917: 119), várias digressões pelo país e pelo Brasil, a primeira das quais em 1886. Fez, também, alguns trabalhos de tradução dramática do francês, principalmente nos primeiros anos da sua atividade teatral. Muitas vezes recordado como um requintado colecionador de arte, Augusto Rosa legou as suas coleções a escolas e museus. Aventurou-se, também, na escrita dramática, com um drama em dois atos – Punindo – representado apenas em 1926, numa noite dedicada ao grande ator, então já falecido, que reuniu no S. Luiz, os maiores nomes da cena portuguesa.
Foi homenageado com o Hábito de Santiago, pelo rei de Espanha, com a Comenda da Ordem de Santiago, pelo Governo português, em 1907, e recebeu uma medalha comemorativa do 40º aniversário da sua estreia, em 1913. Teixeira Lopes homenageou-o, também, com a criação de um busto que se encontra ainda hoje no Jardim Augusto Rosa, próximo da rua onde viveu grande parte da sua vida, rebatizada, após o falecimento do ator, com o seu nome.


Bibliografia
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http://ww3.fl.ul.pt/cetbase/reports/client/Report.htm?ObjType=Pessoa&ObjId=23058


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http://opsis.fl.ul.pt/


Eunice Azevedo/Centro de Estudos de Teatro