Lisboa em 1850

(Teatro do Ginásio, 11-01-1851)

Este foi o primeiro espetáculo de revista, com esta designação específica, em Portugal.

  Lisboa em 1850
  Capa de uma cópia do texto Lisboa em 1850 [cortesia da Escola Superior de Teatro e Cinema].

Foi apresentado no Teatro do Ginásio em janeiro de 1851 e, como o nome indica, consiste numa retrospetiva do ano anterior, fazendo referência aos principais acontecimentos e figuras que haviam marcado o panorama nacional (especificamente, o lisboeta) nesse período. O formato causou alguma estranheza na assistência da noite de estreia, mas ao longo da temporada a natureza crítica e o tom cómico do espetáculo atraíram um público muito alargado e levaram ao aparecimento de inúmeros espetáculos de revista nos anos seguintes, garantindo o sucesso de um género que se provou incontornável no teatro português.

O teatro de revista, modalidade de teatro musical a par do vaudeville e da opereta, filia-se na tradição dos teatros de feira e na commedia dell’arte, dos quais herda a dimensão burlesca e de entretenimento. Como género, afasta-se da tradição do teatro com base literária, em que a encenação parte de um texto dramático que ocupa nela um lugar central. Na revista, a existência de um texto-base é, além de facultativa, muito pouco significativa, na medida em que ele raramente sobrevive ao espetáculo ou existe independente dele. É, como Luiz Francisco Rebello descreve, um “fenómeno sociocultural mais do que propriamente literário, pela sua directa aderência à mais imediata e circunstancial realidade” (REBELLO 2000: 119).

O objetivo de fazer uma revisão dos principais acontecimentos teatrais, sociais e políticos, e de evocar as figuras centrais desses quadrantes, realiza-se através da sequência de várias rábulas e episódios cuja única ligação é a ideia principal que dá mote à revista. A noção de seguimento ou ação é descartada pelo caráter imediato da sátira e do reconhecimento da realidade que critica. Para este fim, como Sousa Bastos descreve, “todas as coisas, ainda as mais abstractas, são personificadas de maneira a facilitar apresental-as em scena” (SOUSA BASTOS 1908: 128). O modo como se apresentam essas figuras e acontecimentos é de enorme importância, uma vez que a identificação dessas referências por parte do público é fulcral para o sucesso do espetáculo. É talvez esta necessidade de identificação imediata que valeu ao género da revista algum desdém por parte de vários críticos e outras figuras da cultura portuguesa – embora registe defensores e admiradores de igual peso, de que são exemplo Joaquim Madureira (1874-1954), Eduardo Scarlatti (1898-1990) ou António Pedro (1909-1966).

No dia 11 de janeiro de 1851 o Teatro do Ginásio apresentou dois espetáculos: A Giralda, ópera-cómica de Scribe, e Lisboa em 1850, o primeiro espetáculo de revista português. Foi às 19h00 de um sábado, e o Ginásio era o local de eleição de um largo público que procurava o teatro como divertimento. O “terreno” para a revista havia sido preparado por géneros como o vaudeville e a ópera-cómica, que floresceram precisamente no Teatro do Ginásio pela mão do empresário Émile Doux. Ainda assim, o formato e as especificidades da revista não foram imediatamente compreendidos por todos os presentes nessa noite de estreia – a Revista Popular refere que “a peça não foi mal recebida, e melhor ainda o teria sido, se todos a tivessem comprehendido, e se os personagens, que figuram, viessem convenientemente caracterisados” –, o que não impediu que a experiência, no seu geral, fosse considerada muito positiva. O jornal Revolução de Setembro refere que no segundo dia de representação o espetáculo foi mais apreciado, o que estará provavelmente relacionado não só com a expetativa do público (que já teria lido sobre ou ouvido falar da estreia), mas também com a preparação dos próprios atores (que na estreia estavam “pouco certos nos papéis e não saíam a tempo” (REBELLO 1984: 55)).

É difícil saber seguramente quem participou neste espetáculo. As poucas referências concretas dizem respeito ao elenco, do qual fizeram parte Moniz, Marques, Pereira e Emília Cândida, e aos quais se haveriam juntado, provavelmente, outros elementos da companhia residente do Ginásio (como Taborda, Rosalina ou Torres). A encenação foi possivelmente da responsabilidade de Romão António Martins, uma vez que este foi ensaiador do Teatro do Ginásio entre 1847 e 1870.

Quanto ao conteúdo do espetáculo, uma vez que o texto não foi publicado e foi durante algum tempo considerado perdido, só são conhecidos os quadros e elementos que foram referidos na imprensa da época. O relato mais completo foi publicado na Revista Popular, que indica que a revista “começa por um diálogo entre candeeiros, um de gaz [representado por Moniz] e outro d’azeite [representado por Marques]; e acaba pela entrada do anno de 1850 no céo da toleima”. O quadro dos candeeiros é uma referência facilmente identificável, que remete para a introdução de iluminação a gás nos teatros a 4 de abril de 1850 (quando o Teatro Nacional apresentava o espetáculo Frei Luís de Sousa). Nos quadros intermédios, de dimensão burlesca, figuraram:

[…] o templo de Salomão, velho decrépito que chora amargamente os seus camellos, a quem deveu tantos triumphos; as actas da Academia das Sciencias, velhas magras e rabujentas; os periodicos, o calembourg, as Giraldas, o folhetim, a chuva de almanaks, a mulher do ballão, os pipinhos-regadôres, o respeitável público [representado por Pereira], a pateada, sua filha [representada por Emília Cândida], as victimas dos últimos acontecimentos, o andador das almas, a priminha do primo Lulú, o Challet, tudo, emfim, quanto appareceu nos theatros, e na imprensa – e além disto o senso comum!  (Revista Popular, nº3, janeiro de 1851: 31)

As poucas referências políticas ou, pelo menos, a prudência que revelam, estão provavelmente relacionadas com a censura que ainda se fazia sentir e com a “lei das rolhas” que nesse ano de 1850 entrara em vigor. Mas as várias referências teatrais e literárias foram identificadas e aplaudidas, abrindo caminho para o caráter satírico e crítico que marca o género.

O facto de o espetáculo ter ficado em cartaz até 13 de fevereiro, e posteriormente ter voltado no Carnaval, parece indicar que o interesse do público aumentou após os primeiros dias e que esta estreia da revista portuguesa se pode considerar um êxito. O indicativo mais expressivo nesse sentido é o papel que este género veio a ocupar no teatro português, sucesso prenunciado pela Revolução de Setembro logo após a estreia de 1851, ao apontar que “se deve repetir para o ano. Se ainda temos cura, só o ridículo nos pode curar” (REBELLO 1984: 55).

*Recentemente, uma cópia do texto foi encontrada pelo investigador Guilherme Filipe, que sobre o assunto assina um artigo na revista Sinais de Cena de dezembro 2012.

 

Bibliografia

ANON. (1851). “Theatros” in: Revista Popular, nº3 (janeiro), pp. 31-32.

MAGALHÃES, Paula (2007). Os dias alegres do Ginásio: Memórias de um teatro de comédia. Dissertação de Mestrado em Estudos de Teatro apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (texto policopiado).

REBELLO, Luiz Francisco (1984). História do Teatro de Revista em Portugal, vol. I: Da Regeneração à República. Lisboa: Publicações Dom Quixote.

___ (2000). Breve história do teatro português. 5ª ed. Mem Martins: Publicações Europa-América.

SOUSA BASTOS, António (1898). A carteira do artista. Lisboa: Antiga Casa Bertrand.

___ (1908). Diccionário de Theatro Portuguez. Lisboa: Imp. Libanio da Silva (há uma edição fac-similada de 1994. Coimbra: Minerva).

 

Consultar a ficha de espetáculo na CETbase:

http://ww3.fl.ul.pt/CETbase/reports/client/Report.htm?ObjType=Espectaculo&ObjId=16761

 

Joana d’Eça Leal/Centro de Estudos de Teatro