Espelhamentos - Herança Literária de José Régio
Espelhamentos - Herança Literária de José Régio
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Torcendo as mãos, pensei: «Que esses amigos
«A quem o filmo que lhes canto apraz
«Não sonhem nunca as podridões e os perigos
«Que a melodia vã tem por detrás...

«Herdei de avós leprosos e mendigos
«Uma chaga incurável e minaz.
«Versos que eu faça..., é ela quem n-os faz,
«Meus versos são venenos e castigos.

«Mas, para que ninguém saiba o que sei,
«Mentirei!, fingirei!, renunciarei',
«Serei sozinho entre os meus quatro muros.

«Lúcifer».

Em torno da poderosa personalidade de Leonardo Coimbra gravitavam eles [professores e alunos]; e nunca mais deixaram de o admirar, e à sua obra, e sempre ficaram gratos à memória do Mestre que neles soubera atear o fogo do Espírito. Tanto mais é isto notável, porquanto, não obstante certos traços comuns, vieram depois a afirmar personalidades tão individualizadas e diferentes como as de José Marinho, Álvaro Ribeiro, Delfim Santos, Casais Monteiro, Sant'Anna Dionísio, etc. Por sua vez criaram estes discípulos ou continuadores independentes, originais. Nem o prestígio de Leonardo nem a perspectiva da camaradagem com estes meus amigos me desviaram da opção por Coimbra. De resto, [...] a personalidade de Leonardo Coimbra nunca se me impôs tão poderosamente como se impunha aos meus amigos.

José Régio, Confissão dum Homem Religioso.

O Grupo do Porto: Sant'Anna Dionísio, José Régio, José Marinho, Rodrigues de Freitas e Casais Monteiro.

Eis, porém, que estes dons ultra-humanizam,
E os homens, meus irmãos, se escandalizam
E me espontam as asas e as raízes.

Assim se castram eles próprios, pobres!,
E tendo-se, mais vis, por mais felizes,
Se satisfazem com seus magros cobres...

«Libelo».

Teria eu lucrado se tivesse ficado no Porto? Teria lucrado em ter ido para Coimbra? Em que medida se ressentiram, ou ressentiriam, a minha vida e a minha criação literária de uma ou outra opção?

[...] Uma coisa, porém, sei de certeza: Que nunca me arrependi de ter ido para Coimbra. Lá ganhei novos amigos. De lá saiu a presença. Lá passei pelo menos alguns dos anos mais felizes da minha vida. E creio que a minha criação literária lucrou com a ida para Coimbra, pois lá achei elementos para um fecundo ambiente literário que não acharia no Porto.

José Régio, Confissão dum Homem Religioso.

O Grupo de Coimbra: José Régio, João Gaspar Simões, Albano Nogueira, Fernando Lopes Graça e Adolfo Casais Monteiro.

Uma vez, José Marinho, com quem eu mantinha um estreito convívio que me foi muito fecundo, pois me ajudou a desenvolver-me sem me alterar, ofereceu-me esse belo livro injustamente mal conhecido que é A Alegria, a Dor e a Graça com a seguinte dedicatória: Ao Reis Pereira (eu ainda não era o José Régio) do Mestre para o futuro discípulo. E eu escrevi ao lado, a lápis, esta coisa ingénua e pretensiosa: O Reis Pereira não quer ser discípulo senão de si mesmo.

José Régio, Confissão dum Homem Religioso.

Leonardo Coimbra, A Alegria, a Dor e a Graça. Obra oferecida por José Marinho a Régio.

Se não fora eu que apresentara Dostoievski ao José Maria [...], por minha mão conhecera ele não só algumas das principais obras introspectivas de André Gide — La Porte Étroite e Les Faux-Monnayeurs — mas também o Tolstoi da Guerra e Paz, o Tolstoi da Morte de Ivan Ilich, o Tolstoi pouco menos que desconhecido entre nós antes da Presença, antes de eu próprio o recomendar a José Régio.

João Gaspar Simões, José Régio e a História do Movimento da «Presença».

Comprei, devido a Você, o que lhe agradeço, o «Journal des Faux Monnayeurs». É curiosíssimo e precioso para quem sonhe entrar na intimidade de Gide. Também tenho lido bastante Dostoievski. «O Idiota» exaltou-me. Não cheguei a concluir «Os Irmãos Karamazov», e o livro ia-me subjugando de página para página. Confesso, no entanto, que a impressão que me causa «O Idiota» [...] é muito mais profunda. Tentando já falar como critico, «O Idiota» parece-me dos livros mais bárbaros, menos construídos, do Autor, mas talvez um pouco por isso mesmo dos mais completos, complexos e originais. Todo ele está cheio da alma e até da vida de Dostoievski... Sob vários pontos de vista, o livro chega a fazer-me mal: Eu andava a tratar de concertar (sic) os nervos, e andava a escrever uma novela...
Como ousarei falar-lhe da minha novela [...] depois de falar em Dostoievski?

Carta de José Régio para João Gaspar Simões, de 10 de Setembro de 1927.

Léon Tolstoi, 1828-1910.
Léon Tolstoi, Guerra e Paz.
Fiodor Dostoievski, O Idiota.
Fiodor Dostoievski, 1821-1881.

Refiro-me à nota em que se desculpa de citar, a propósito do José Régio, vários autores célebres, em sentido de comparação psicológica. [...] Meu querido Gaspar Simões, nunca peça desculpa de nada, sobretudo ao público. E quem lhe diz que a história definitiva da literatura não levará o José Régio tão alto, ou mais alto, que o Tolstoi ou o André Gide, ou quem mais v. citasse? Não me custa nada a admitir essa possibilidade, sobretudo em quem, sendo tão jovem como o Régio, já tanto conseguiu adentro da sua sensibilidade.

Carta de Fernando Pessoa para João Gaspar Simões, de 20 de Novembro de 1931.

O poeta simbolista-expressionista de Os Poemas de Deus e do Diabo, o dramaturgo obcecado por bobos-anjos e anjos-bobos de expressionístico recorte, como projecção da sua interioridade dramática que em última análise são, enquanto ensaísta parece ter sempre desejado conciliar em si a lição pré-freudiana de Dostoievski e a lição racionalista de António Sérgio.

Eduardo Lourenço, A nau de Ícaro.

Por mim, se dois ou três homens portugueses me foram mestres naquela idade juvenil em que os não dispensamos, [...] decerto foi António Sérgio um. [...] Ele próprio, António Sérgio, me ensinou depois, pelo exemplo, e a doutrina das suas obras, a discutir, até a contrariar, alguns dos seus juízos, pontos de vista ou soluções. Como todos os verdadeiros bons mestres, ele próprio me ajudou a libertar-me de qrr lquer subserviência intelectual, e a descobrir a minha pessoal maneira de ver. [...] Nunca, porém, o vivíssimo interesse com que o lia quando mal principiava a entendê-lo — se me desfaleceu. Nunca, mesmo quando o não aplaudisse, ou, até, o controvertesse, deixei de achar considerável qualquer seu ponto de vista. Nunca, até hoje, ele deixou de me dar a sua ajuda na dificílima aprendizagem de pensar.

José Régio, «Mestre» [António Sérgio].

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